Luiz Inácio Lula da Silva criticou, hoje, 14, a atuação de Nunes Marques no Tribunal Superior Eleitoral após a suspensão de uma pesquisa AtlasIntel sobre Flávio Bolsonaro. A decisão do ministro, que chefia o TSE, atende a um pedido direto da campanha do candidato.
Tensão aberta entre Planalto e TSE
A irritação de Lula se concentra na forma como o TSE interfere na disputa de 2026 ao barrar a divulgação de dados desfavoráveis a um candidato ligado ao bolsonarismo. Na prática, a suspensão protege Flávio Bolsonaro de um noticiário negativo em um momento em que cada ponto na pesquisa pesa na construção de narrativas.
A pesquisa da AtlasIntel apontava queda nas intenções de voto de Flávio. O levantamento entra na mira depois que, na etapa final do campo, vem à tona um áudio em que o senador pede dinheiro ao empresário Daniel Vorcaro para financiar um filme inspirado na biografia do pai, Jair Bolsonaro. A campanha alega que a divulgação do material contamina o levantamento e recorre ao TSE. Nunes Marques decide em favor do candidato.
Desconforto com o protagonismo de Nunes Marques
O episódio acendeu um alerta no Planalto sobre o papel de Nunes Marques no comando da Justiça Eleitoral. O ministro, indicado por Jair Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal e hoje peça central no TSE, ganha protagonismo em decisões que afetam diretamente o tabuleiro eleitoral. Com isso, reaparecem dúvidas recorrentes em Brasília: Nunes Marques é de direita ou esquerda? De qual partido é próximo? Seu currículo jurídico, que o leva ao STF, passa pelo apoio do bolsonarismo e alimenta a percepção de alinhamento ao grupo.
Lula compartilha com auxiliares o incômodo com esse movimento. “Lula, ao comentar o episódio com alguns aliados, deixou claro seu estranhamento com os movimentos de Nunes Marques, especialmente no comando do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)”, relata a colunista Bela Megale, de O Globo. A crítica mira o que o presidente enxerga como uso seletivo do poder do TSE em favor de um campo político específico.
A decisão sobre a AtlasIntel produz efeito imediato no ambiente eleitoral. A campanha de Flávio Bolsonaro ganha tempo para reorganizar sua comunicação sem o peso de manchetes sobre queda nas pesquisas. Adversários perdem a munição estatística que costuma embasar discursos e programas de TV. Institutos de pesquisa, por sua vez, veem crescer a suspeita de que podem ser alvo de decisões judiciais quando seus números desagradam candidatos fortes.
Indicações travadas e recados ao Judiciário
A reação de Lula não se limita ao desabafo. O presidente começa a modular, com mais cuidado, as indicações para postos estratégicos no Judiciário. O caso de Henrique Gouveia da Cunha, cotado para vaga no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), torna-se o exemplo mais visível dessa cautela. Apesar da pressão de Nunes Marques por seu apadrinhado, Lula sinaliza que não pretende se apressar.
Essa postura contrasta com decisões recentes. O presidente já havia contemplado indicações apoiadas por Nunes Marques, como a de João Carlos Mayer para o TRF-1 e a de Carlos Brandão para o Superior Tribunal de Justiça (STJ). Esses movimentos mostravam, até aqui, uma convivência pragmática entre o Planalto e o ministro do STF, vista por petistas como uma forma de reduzir fricções com um magistrado identificado ao bolsonarismo.
A suspensão da pesquisa muda o clima. Ao segurar a indicação de Henrique Gouveia da Cunha, Lula envia um sinal de que não aceitará uma expansão ilimitada da influência de Nunes Marques sobre cortes federais. O presidente tenta equilibrar interesses políticos, demandas corporativas da magistratura e a imagem de independência do Judiciário.
Quem ganha, quem perde com a suspensão da pesquisa
O gesto de Nunes Marques favorece diretamente Flávio Bolsonaro, que escapa da repercussão ampla de um levantamento negativo. Em cenários eleitorais competitivos, a divulgação de queda nas intenções de voto costuma desencadear uma espiral de más notícias, com efeito sobre doadores, aliados e eleitores indecisos. Sem a pesquisa na praça, essa dinâmica é adiada.
O campo opositor, sobretudo grupos críticos ao bolsonarismo, perde acesso a uma informação relevante para o debate público. A decisão também pressiona o TSE, que volta a ser questionado sobre sua autonomia em relação a atores políticos influentes e sobre a linha que separa a proteção da lisura eleitoral da interferência no fluxo de informações ao eleitor.
A discussão atinge ainda a imagem dos institutos de pesquisa. Ao ver um de seus levantamentos suspenso, a AtlasIntel entra numa zona de atrito em que qualquer erro metodológico real vira argumento para deslegitimar dados incômodos. Outras casas passam a revisar protocolos e a avaliar o risco de judicialização, especialmente em levantamentos que envolvem figuras polarizadoras.
O próximo embate entre poderes
O episódio se soma a uma disputa mais ampla pelo controle das regras do jogo eleitoral. A cada ciclo de eleição, cresce o peso do TSE na definição do que pode ou não circular no debate público, de pesquisas a conteúdos digitais. No caso de Nunes Marques, esse poder se mistura à sua trajetória: indicado por Jair Bolsonaro, próximo de setores conservadores e hoje no centro do xadrez institucional. O nome do ministro aparece em buscas na internet associado a dúvidas como “Nunes Marques PT?” ou “Nunes Marques e Bolsonaro”, reflexo de uma carreira marcada por decisões que o aproximam do ex-presidente e de seu grupo político, embora ele não seja filiado a partido algum.
Lula, ao expor seu incômodo, assume o risco de ampliar a tensão entre Executivo e Judiciário. Ao mesmo tempo, tenta fixar uma linha de corte: decisões que afetam diretamente a transparência eleitoral terão custo político nas relações com o Planalto. A forma como o governo lidará com novas indicações para o TRF-1 e o STJ, e como Nunes Marques conduzirá os próximos casos sensíveis no TSE, dirá se esse conflito vai escalar.
À medida que a campanha avança, a disputa por narrativas sobre imparcialidade, censura e uso político da Justiça tende a se intensificar. A suspensão da pesquisa AtlasIntel não fecha uma discussão; inaugura uma nova rodada de embates sobre até onde vai o poder do TSE para regular o jogo eleitoral e quanto o Planalto está disposto a confrontar decisões que considera excessivas.