A morte de duas mulheres após atendimentos obstétricos no Hospital Regional de Samambaia (HRSAM), no Distrito Federal, em um intervalo de poucos dias, reacendeu o alerta sobre a grave crise na saúde pública da capital. Os casos, que envolvem denúncias de negligência médica e recusa na realização de cesarianas, ocorrem em um cenário marcado por superlotação, pacientes no chão e falta de profissionais.
Contrastando com a falta de insumos básicos e o colapso nas alas de atendimento, uma publicação no Diário Oficial do DF chamou a atenção nesta semana: um aviso de licitação da Secretaria de Estado de Saúde (SES-DF) prevê a compra de uma empilhadeira elétrica pelo valor estimado de R$ 1.054.668,00, sem detalhar a unidade de destino ou a justificativa técnica para a cifra milionária.

Vidas perdidas e denúncias de negligência
A morte mais recente ocorreu na segunda-feira (13). Maria Aparecida Galdino dos Santos, de 25 anos, deu entrada no hospital na noite de domingo com fortes dores. Segundo a família, ela solicitou uma cesariana, mas a equipe médica optou por induzir o parto normal.
Após dar à luz a menina Helena — que precisou ser internada por ter ingerido líquido no parto —, Maria Aparecida sofreu uma forte hemorragia e morreu às 20h. Familiares suspeitam que a placenta não tenha sido retirada completamente, o que teria agravado o quadro. A paciente chegou a ser levada para a UTI, mas não resistiu.
O caso de “Cida”, como era conhecida, repete um roteiro trágico registrado dias antes na mesma unidade. Na sexta-feira (10), Maria Graciana Andrade Alves, de 36 anos, morreu durante o parto. Grávida de 41 semanas, ela também teria alertado a equipe médica de que não tinha condições de realizar o parto normal. De acordo com os parentes, a equipe insistiu no procedimento por horas, e a cesariana só foi feita quando o bebê já apresentava sinais de sofrimento fetal. A criança segue internada em estado grave na UTI neonatal.
O reconhecimento do sucateamento
Pressionada pelas denúncias recentes, a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), admitiu publicamente a gravidade da situação em declaração nesta quarta-feira (15).
“A gente não vai tolerar esse tipo de atendimento nos nossos hospitais. […] Há também uma previsão, inclusive, de mudar o protocolo do atendimento pré-natal. Eu tenho certeza que a gente precisa, realmente, melhorar. Há sim um sucateamento na falta de médicos na rede pública”, afirmou a governadora.
As tragédias acontecem poucos meses após o Governo do Distrito Federal (GDF) anunciar a saúde como prioridade absoluta. Na ocasião, o Executivo cancelou as festividades do aniversário de Brasília para remanejar R$ 25 milhões para a área da saúde e autorizou a contratação emergencial de 130 médicos de Família e Comunidade.
Raio-X do colapso
Apesar de a Secretaria de Saúde do DF contar com um orçamento robusto, na casa dos R$ 7,89 bilhões, a realidade imposta aos pacientes é de escassez crônica.
Um levantamento do instituto ObservaDF mapeou a dimensão da crise e o nível de insatisfação popular com o setor:
- Pior área do governo: A saúde pública é o serviço mais mal avaliado pelos moradores do Distrito Federal.
- Hospitais reprovados: A taxa de desaprovação dos hospitais públicos chega a 58,5%.
- Atenção Básica: As Unidades Básicas de Saúde (UBSs) são mal avaliadas por 45,6% dos entrevistados.
- Alta dependência: Cerca de 75,5% da população do DF depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS), com a maior demanda concentrada nas regiões de baixa renda.
As principais queixas registradas pela população envolvem longas filas nas UPAs, a chamada “fila da morte” para cirurgias, déficit crônico de especialistas (como cardiologistas e oncologistas) e a demora excessiva em transferências hospitalares.
O que diz a pasta
A Secretaria de Saúde afirma que os dois casos estão sendo apurados e que a licitação segue os trâmites legais para atender às necessidades da rede pública. As circunstâncias das mortes também são investigadas pelas autoridades competentes. No entanto, a pasta não se pronunciou sobre a empilhadeira.