Operação contra fraude bilionária mira Nelson Wilians em SP

Investigação foca esquema de R$ 3,8 bilhões em fraudes fiscais envolvendo advogado em São Paulo e Paraná.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O advogado Nelson Wilians, fundador de um dos maiores escritórios empresariais do país, é alvo nesta quarta-feira (15) da Operação Distrato, que investiga um esquema de créditos falsos de ICMS estimado em R$ 3,8 bilhões. Agentes do Ministério Público de São Paulo, da Secretaria da Fazenda e Planejamento, da Procuradoria-Geral do Estado e das polícias Civil e Militar cumprem 38 mandados de busca e apreensão em cidades de São Paulo e do Paraná.

Escritório de grande porte na mira

O núcleo mais vistoso da investigação gira em torno do grupo econômico ligado a Wilians, dono do Nelson Wilians Advogados (NWADV), banca com mais de 1.100 advogados e 29 filiais no Brasil. O escritório em São Paulo, a residência do criminalista e endereços ligados à esposa e sócia, a advogada Anne Wilians, recebem equipes desde o início da manhã. Em Londrina, no norte do Paraná, a advogada Mayra Fahur de Paula também é alvo de buscas, apontada pelos investigadores como sócia de Wilians nas fraudes.

As ações se concentram em São Paulo, Campinas, Jundiaí e Ribeirão Preto, no interior paulista, e em Londrina e Cambé, no Paraná. Não há mandados de prisão. A etapa atual da operação mira a coleta de provas, como documentos físicos, arquivos eletrônicos e registros contábeis que ajudem a reconstruir o fluxo do dinheiro e a cadeia de intermediação.

Wilians ainda não se manifesta sobre o caso. A defesa de Mayra também não responde até a conclusão deste texto. Nenhum dos investigados é denunciado ou condenado, e todos têm direito ao contraditório e à ampla defesa.

Como funcionava o uso de créditos falsos

Os autos descrevem um esquema sofisticado de venda de créditos de ICMS sem lastro econômico, apresentados a empresários como se fossem parte de um “planejamento tributário” legítimo. O grupo usaria empresas de fachada, inativas ou sem estrutura real para emitir notas fiscais que simulavam operações comerciais. Esses documentos geravam créditos de ICMS que, em tese, poderiam abater o imposto devido. Na prática, eram créditos que não correspondiam a nenhuma circulação efetiva de mercadorias ou serviços.

Esses créditos eram então oferecidos a empresas, principalmente pequenas e médias, que pagavam para incorporá-los à própria escrituração fiscal, reduzindo artificialmente o valor de ICMS a recolher. Em alguns contratos, os intermediários cobravam honorários que chegavam a 70% do valor do crédito utilizado. Escritórios de advocacia, consultorias e empresas intermediadoras prospectavam clientes, montavam contratos e produziam pareceres jurídicos para dar aparência de legalidade.

Os investigadores afirmam que, em muitos casos, a organização simulava até o pagamento de multas. Após autuações da Fazenda, exibiria a clientes telas e documentos que indicariam supostamente a quitação dos débitos, também falsos. Pareceres citavam normas administrativas e decisões judiciais antigas ou sem decisão final para sustentar a existência dos créditos. O efeito era convencer empresários de que se tratava de um benefício legítimo, ainda que controverso, e não de fraude deliberada.

Alcance das fraudes e reação do Fisco

O Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos (CIRA/SP) abre 874 Ordens de Serviço Fiscal para examinar 9.960 lançamentos suspeitos. A apuração identifica mais de 850 empresas envolvidas. Segundo a Secretaria da Fazenda paulista, 746 autos de infração já são lavrados contra contribuintes ligados ao esquema, com cobrança de imposto supostamente sonegado, juros e multas.

Samuel Kinoshita, secretário da Fazenda e Planejamento, afirma em nota que o Estado busca diferenciar fraudadores conscientes de empresas que possam ter sido enganadas. “Cada real desse número é um ilícito identificado, interrompido ou desestimulado. Constituir o crédito é o começo do devido processo, não dinheiro em caixa: quem quiser regularizar tem porta aberta, inclusive pelo Resolve Já; quem quiser discutir terá todas as garantias. O que não haverá é vantagem para quem frauda”, diz.

O ICMS, principal fonte de receita dos estados, incide sobre venda de produtos, transporte interestadual e intermunicipal e serviços de comunicação. Quando créditos inexistentes são usados para reduzir o imposto, o efeito direto é a perda de arrecadação. O prejuízo estimado de R$ 3,8 bilhões equivale a valores que poderiam reforçar caixa para saúde, educação e investimentos em infraestrutura.

Para o mercado, o impacto vai além dos cofres públicos. Empresas que recorreram aos créditos falsos enfrentam risco de autuações milionárias, restrições de crédito e desgaste com clientes e fornecedores. A concorrência desleal, gerada pela redução artificial de custos tributários, também distorce preços e pressiona negócios que optaram por seguir a legislação.

A imagem de Wilians sob pressão

A Operação Distrato atinge um advogado que constrói a própria marca em torno de exposição constante. Com 1,4 milhão de seguidores no Instagram, Wilians exibe viagens de jatinho e helicóptero, carros importados e grandes festas corporativas. O NWADV se apresenta como um escritório de alcance nacional, voltado a grandes empresas, e usa o nome do fundador em todas as unidades.

Não é a primeira vez que o criminalista enfrenta uma investigação de grande porte. Em setembro de 2025, ele é alvo de operação da Polícia Federal sobre supostas fraudes contra o INSS. Na ocasião, agentes apreendem esculturas e obras de arte em sua casa, incluindo um quadro de Di Cavalcanti, de 1971. Wilians nega envolvimento no esquema previdenciário e não é condenado naquele caso.

A nova operação traz de volta o debate sobre a fronteira entre planejamento tributário e fraude. A prática de buscar brechas legais para reduzir impostos é permitida. O que está na mira do Ministério Público paulista, porém, são estruturas criadas para simular créditos que não existem, mascaradas por pareceres jurídicos e contratos elaborados justamente para enganar o Fisco.

O caso também expõe a vulnerabilidade dos sistemas de controle fiscal diante de operações complexas, espalhadas por diferentes estados e encadeadas por empresas de fachada. Ao mesmo tempo, reforça o foco de procuradores e auditores na responsabilização não só de doleiros e laranjas, mas de estruturas profissionais que dão suporte jurídico e contábil às fraudes.

Próximos passos e possíveis desdobramentos

Com a deflagração da Operação Distrato, o CIRA/SP entra em uma fase de mineração de provas. Documentos apreendidos em escritórios, residências e empresas devem alimentar quebras de sigilo bancário e fiscal, rastreamento de fluxos financeiros e pedidos de cooperação com outros órgãos de controle. A partir daí, promotores podem oferecer denúncias formais à Justiça contra os supostos articuladores e beneficiários.

A investigação apura crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, estelionato, falsidade documental e delitos contra a ordem tributária. Eventuais condenações podem resultar em penas de prisão, perda de bens e cobrança integral dos valores devidos, além de proibições profissionais e eleitorais, dependendo do enquadramento penal. Para escritórios de advocacia e consultorias, o risco inclui sanções disciplinares em conselhos de classe e abalo duradouro de reputação.

O governo paulista indica que o modelo do CIRA, que reúne Fazenda, Ministério Público, Procuradoria e forças policiais, deve ser replicado em outras frentes de combate à sonegação. Estados observam o caso com atenção, de olho em esquemas semelhantes em seus próprios territórios. No campo legislativo, a exposição de brechas usadas para forjar créditos falsos pode acelerar discussões sobre aperfeiçoamento das regras de compensação tributária e cruzamento de dados em tempo real.

Wilians, Anne e Mayra, por ora, aguardam o desenrolar das investigações sob intensa pressão pública. O tamanho do valor sob suspeita, a participação de um grande escritório e a capilaridade do esquema colocam a Operação Distrato entre os principais casos de fraude tributária em curso no país, com potencial de redefinir limites entre agressividade na defesa de clientes e cumplicidade com crimes contra o erário.

O que aconteceu com o advogado Nelson Wilians na operação contra fraude de ICMS?

Ele é um dos principais alvos da Operação Distrato, que cumpriu mandados de busca em seu escritório, em sua residência e em endereços ligados à sua esposa e sócia.

Por que Nelson Wilians está sendo investigado pelo Ministério Público?

O Ministério Público apura a participação dele em um suposto esquema de venda de créditos falsos de ICMS, usado para reduzir ilegalmente impostos de empresas.

Quais empresas de Nelson Wilians são alvo da investigação por fraude tributária?

O foco recai sobre o grupo econômico ligado ao escritório Nelson Wilians Advogados (NWADV), apontado como um dos núcleos do esquema de créditos falsos.

Quantas empresas estão envolvidas na fraude de R$ 3,8 bilhões em ICMS ligada a Nelson Wilians?

A investigação identifica mais de 850 empresas ligadas ao esquema geral de créditos falsos de ICMS, que inclui o núcleo associado a Wilians.

Qual é o papel de Nelson Wilians na suposta fraude bilionária de ICMS?

Os investigadores atribuem a ele a liderança de um núcleo que usaria seu escritório e pareceres jurídicos para estruturar e legitimar a venda de créditos tributários falsos.


Carregar Comentários