Polícia trata morte de jovens em Porsche como homicídio culposo

Investigação apura circunstâncias da colisão fatal envolvendo jovens em veículo de luxo na rodovia.
Redação NC News
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A Polícia Civil de Campinas confirmou na terça-feira (14) a identidade de Lívia Bevilacqua Batista, 20, morta em um acidente de Porsche em 10 de julho. Ela estava no carro com o estudante de Medicina Arthur Rodrigues de Souza, também de 20 anos, que dirigiu o veículo e morreu na hora, após o impacto contra uma árvore no km 93 da Rodovia Francisco Von Zuben.

Acidente violento e investigação aberta

O Porsche seguia pela SP-091, em Campinas, na noite de sexta-feira, quando Arthur perde o controle da direção e acerta uma árvore. O carro pegou fogo imediatamente depois da batida, sem chance de resgate para os dois jovens.

A ocorrência, primeiro registrada como choque, incêndio e morte suspeita, passou a ser tratada como homicídio culposo na direção de veículo automotor. O enquadramento indicou que a polícia vê indícios de imprudência, negligência ou imperícia, mesmo sem intenção de matar. A mudança de classificação abriu caminho para uma apuração mais detalhada sobre a conduta do motorista e as condições da via.

Peritos trabalham para reconstituir os instantes anteriores ao choque e identificar se houve excesso de velocidade, falha mecânica ou outro fator que possa ter contribuído para o acidente. O laudo técnico ainda não é divulgado.

A noite que não termina para a família

Lívia saiu de casa naquela sexta-feira para um programa comum entre jovens de 20 anos. Segundo a irmã, Bianca Bevilacqua, ela iria jantar no restaurante Seo Rosa Gramado e foi buscada por Arthur. Os dois saíram juntos para conversar e aproveitar a noite em Campinas.

A última lembrança que chegou pelo celular, pouco antes da tragédia. “A minha irmã mandou a última foto dela pra mim dentro do carro vindo embora, dentro do carro dele”, relata Bianca. Depois da imagem, o silêncio.

O choque na Rodovia Francisco Von Zuben provocou incêndio instantâneo. O corpo de Arthur é identificado ainda na madrugada. O de Lívia, carbonizado, dependeu de exames periciais para confirmação. A família esperou até terça-feira, 14, para receber a certeza oficial.

Entre a noite do acidente e a liberação do laudo, a rotina da casa se resumiu a telefonemas, idas ao Instituto Médico Legal e uma espera que Bianca descreve como insuportável. Na segunda-feira, 13, ela e a mãe decidiram ir ao local da batida. Deixaram flores no acostamento, como um gesto de despedida em meio à incerteza.

 

Retrato de duas histórias interrompidas

Arthur Rodrigues de Souza vive com os pais em Albertina, no Sul de Minas Gerais. Em Campinas, cursa Medicina na Universidade São Leopoldo Mandic, uma das instituições privadas mais disputadas da área. O corpo é sepultado no domingo, 12 de julho, cercado por familiares e colegas de faculdade.

Lívia Bevilacqua Batista inicia o curso de Relações Internacionais na PUC-Campinas, mas tranca a matrícula recentemente. A irmã conta que ela avalia mudanças de rumo profissional e pensa em outras possibilidades de estudo, enquanto mantém a rotina entre amigos e família.

Bianca tenta resumir a irmã em poucas frases. “Era uma filha maravilhosa, uma irmã companheira, uma neta apaixonada pela família e uma amiga muito querida. Ela era prestativa, carinhosa e tinha uma luz que marcava todos que conviviam com ela. Ela era, acima de tudo, extremamente amada”, diz.

O depoimento contrasta com as imagens do carro destruído, exibidas em vídeos que circulam nas redes sociais e em reportagens locais. As cenas reforçam a violência do impacto e alimentam o debate sobre direção de veículos de alta potência nas rodovias que cortam áreas urbanas.

Homicídio culposo e responsabilização

O Código Penal brasileiro prevê o homicídio culposo quando alguém causa a morte sem intenção de matar, por imprudência, negligência ou imperícia. No trânsito, isso costuma envolver excesso de velocidade, manobras arriscadas ou desrespeito às condições da via, entre outros fatores.

No caso da Rodovia Francisco Von Zuben, os investigadores buscam respostas para uma sequência de perguntas básicas: a que velocidade o Porsche trafega, qual é o estado do asfalto, como estão a sinalização e a iluminação no km 93, e se há registro de outros acidentes graves naquele trecho.

Como o motorista também morre, não há um possível réu vivo para responder criminalmente. A apuração, porém, serve para estabelecer responsabilidades administrativas, orientar a atuação de órgãos de trânsito e, em alguns casos, embasar ações cíveis de indenização movidas por familiares.

Campinas, cortada por rodovias movimentadas e cercada por condomínios e bares, convive com o aumento de veículos esportivos e de luxo. O acidente com o Porsche acende o alerta para a combinação de carros potentes, trechos de pista reta e madrugadas com pouco movimento. A discussão volta a temas conhecidos, como fiscalização de velocidade, educação de motoristas jovens e limites de segurança em trechos urbanos.

Cidade em luto e próximos passos da investigação

O caso mobiliza duas comunidades distintas e conectadas pela mesma tragédia. Em Albertina, a morte de Arthur desmonta o projeto do filho médico que estuda fora. Em Campinas, a confirmação da identidade de Lívia encerra quatro dias de espera e dá início a outro tipo de luto, mais longo e silencioso.

Na Rodovia Francisco Von Zuben, o ponto exato da colisão passa a reunir velas, bilhetes e flores deixadas por amigos e familiares. Motoristas que cruzam o km 93 diminuem a velocidade ao notar as marcas da batida, o tronco queimado da árvore e os sinais de frenagem no asfalto.

A Polícia Civil segue com a análise de laudos periciais para definir, com base técnica, o que leva o carro a sair da pista e atingir a árvore. Os investigadores cruzam dados de velocidade, marcas de impacto, perícia mecânica e eventuais imagens de câmeras de segurança.

Os resultados devem orientar o relatório final do inquérito, que indicará se houve falha humana, problema no veículo ou uma combinação de fatores. O documento também vai apontar eventuais recomendações a órgãos de trânsito sobre sinalização e fiscalização no trecho.

Enquanto o inquérito não é concluído, o lugar do acidente se transforma em memória permanente para duas famílias e em alerta visível para quem passa pela rodovia. A conclusão da investigação não devolve o que se perdeu na noite de 10 de julho, mas pode ajudar a explicar por que duas vidas de 20 anos se interrompem em poucos segundos.

 

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