O tarifaço imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros acendeu a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em dez dias, o tema saiu da mesa de negociação em Washington e entrou de vez no roteiro da pré-campanha presidencial de 2026.
Tarifas viraram munição eleitoral antecipada
A sobretaxa americana atingiu exportadores da indústria e do agronegócio que dependiam do mercado dos Estados Unidos. Empresários relataram aumento de custos, perda de competitividade e risco de cortes de empregos. No Planalto e no entorno de Flávio, porém, o principal cálculo foi eleitoral.
Aliados de Lula trabalharam para associar o tarifaço ao bolsonarismo. Na estratégia petista, o rótulo criado foi direto: “Tariflávio”. A meta era relacionar o senador e seu grupo à pressão por sanções contra o Brasil durante o governo Donald Trump, em um movimento que teve como pano de fundo a condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe.
O bolsonarismo reagiu tentando inverter o jogo. Flávio usou as redes sociais e discursos em Washington para responsabilizar o governo Lula, que ele chamou de “Partido do Tarifaço”. O senador acusou o petista de ter fracassado na diplomacia e alimentado a crise com críticas a Trump.
Bastidores em Washington e o fim das negociações
O capítulo mais visível dessa disputa ocorreu durante uma audiência do Escritório do Representante Comercial da Casa Branca (USTR), em Washington. Flávio se inscreveu para falar em uma sessão que aliados do PT classificaram como “discurso de campanha travestido de defesa comercial”.
Diante de autoridades americanas, o senador pediu que a aplicação das novas tarifas fosse adiada para depois das eleições brasileiras. Ele argumentou que a medida, se entrasse em vigor naquele momento, beneficiaria Lula na corrida presidencial. Também tentou afastar do debate a ameaça ao sistema financeiro brasileiro ao afirmar que o Pix não concorria com meios de pagamento dos Estados Unidos.
A equipe de Lula reagiu apontando contradições. Petistas associaram a pressão por sanções à atuação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro e do empresário Paulo Figueiredo junto ao governo Trump, em meio ao processo que levou à condenação do ex-presidente.
A narrativa defendida pelo PT era de que a ofensiva bolsonarista no exterior havia alimentado o tarifaço que atingiu empresas brasileiras.
No comando do USTR, Jamieson Greer indicou que a decisão estava tomada. Segundo relatos apresentados ao governo brasileiro, ele havia levado ao presidente Donald Trump a recomendação final de um novo tarifaço sobre produtos brasileiros, embora sinalizasse espaço para ampliar a lista de exceções.
Em 14 de julho, durante a reunião final com representantes do Brasil, Greer deu as negociações por encerradas e criticou a suposta falta de empenho de Brasília.
Redes sociais ficaram em chamas e disputa pelo rótulo dominou debate
Com o tarifaço tratado como praticamente definido, Flávio Bolsonaro correu às redes sociais para tentar se defender. Em vídeos e textos publicados ao longo da semana, ele repetiu que havia feito “de tudo para evitar as tarifas” e insistiu em responsabilizar Lula.
“Lula e o PT — o Partido do Tarifaço — jogaram contra o Brasil mais uma vez”, escreveu o senador. Para ele, a decisão americana teria sido uma reação à falta de diplomacia do governo petista e às críticas públicas de Lula a Trump.
Na mesma ofensiva, Flávio acusou o presidente de tentar transferir a culpa para sua família para obter vantagem eleitoral.
No núcleo político de Lula, a leitura foi oposta. Integrantes da campanha viram em Flávio um alvo exposto, principalmente por declarações divergentes sobre o episódio. A estratégia petista foi explorar essas contradições em discursos, propagandas e redes sociais.
Petistas também buscaram conectar a imagem de Flávio à ameaça ao Pix, apresentando o grupo bolsonarista como responsável por tensões envolvendo o sistema financeiro brasileiro.
Impacto econômico e tensão com exportadores
Na economia real, a cobrança adicional sobre produtos brasileiros vendidos aos Estados Unidos atingiu setores que dependiam daquele mercado para escoar parte da produção.
Grandes grupos industriais e segmentos do agronegócio demonstraram preocupação com contratos e investimentos futuros.
Empresas temeram que o aumento dos preços levasse compradores americanos a buscar fornecedores de outros países. A possibilidade era de perda de mercado, pressão sobre margens de lucro e eventual redução de turnos e empregos no Brasil.
Analistas também apontaram efeitos indiretos, como aumento da aversão ao risco em relação ao Brasil e pressão sobre o câmbio.
A simples menção de que o Pix entraria no debate internacional também gerou preocupação no sistema financeiro, já que o instrumento havia se tornado parte central da rotina econômica brasileira.
Pesquisas eleitorais alimentaram batalha de narrativas
Enquanto o comércio exterior enfrentava turbulências, a política interna recebeu novos números. Pesquisa da Quaest divulgada em 15 de julho sobre a disputa presidencial de 2026 indicou fortalecimento de Lula e sinais de enfraquecimento da candidatura de Flávio Bolsonaro.
No entorno do senador, a reação foi de desconfiança. Auxiliares montaram comparações com levantamentos anteriores e questionaram os números apresentados pelo instituto.
Entre petistas, a avaliação foi diferente. Integrantes do governo consideraram que a pesquisa reforçava a posição de Lula em um momento em que o tarifaço dominava o debate nacional.
A campanha presidencial tentou transformar a crise comercial em uma disputa sobre soberania nacional e responsabilidade política.
Disputa pelo tarifaço se prolongou até 2026
O fim formal das negociações com o USTR não encerrou o episódio. Brasília continuou tentando ampliar a lista de exceções para reduzir o impacto sobre exportadores estratégicos.
Enquanto isso, Lula e Flávio trataram a crise comercial como um dos principais temas da disputa política de 2026.
Setores econômicos pressionaram por previsibilidade, enquanto a diplomacia brasileira buscou evitar que o desgaste com Washington contaminasse futuras negociações comerciais.
O tarifaço permaneceu no centro do debate político, e seus efeitos sobre empregos, preços e exportações passaram a ser usados como elemento de disputa eleitoral.