Auditores apontam fraude de R$ 72 milhões em créditos falsos de ICMS

Com falsos fiscais em chamadas de vídeo e simulações absurdas, grupo vendeu R$ 3,8 bilhões em créditos frios; ação cumpre mandados em vários estados
Redação NC News
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Uma investigação digna de roteiro de cinema de Hollywood acaba de virar caso de polícia no Brasil. O Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos (CIRA/SP) deflagrou a chamada Operação Distrato, com o objetivo de desmantelar uma organização criminosa suspeita de aplicar um golpe gigantesco de venda de créditos falsos de ICMS. O prejuízo estimado aos cofres públicos é de assustar qualquer um: R$ 3,8 bilhões.

A ação policial mirou escritórios de advocacia e consultorias de luxo que ofereciam um suposto “milagre tributário” para grandes marcas do mercado. Para fazer com que empresários acreditassem que o negócio era 100% legal, os golpistas chegaram ao extremo de contratar figurantes para se passarem por auditores fiscais da Secretaria da Fazenda em reuniões online por videoconferência. Entre os alvos que receberam a visita da polícia está o badalado advogado Nelson Wilians, conhecido nacionalmente e que acumula mais de 1,4 milhão de seguidores nas redes sociais.

O teatro dos “auditores figurantes”: como funcionava o golpe?

A audácia dos criminosos surpreendeu até os investigadores mais experientes do estado de São Paulo. O esquema funcionava de maneira muito bem amarrada para dar uma falsa sensação de segurança aos clientes. Funciona assim:

A abordagem: Escritórios de advocacia e consultorias entravam em contato com grandes empresas oferecendo um “planejamento tributário” tentador, prometendo reduzir drasticamente o pagamento do ICMS;
A origem dos créditos: Eles alegavam que tinham créditos de impostos legítimos para vender, supostamente vindos de empresas falidas, desapropriações antigas ou decisões da Justiça;
O teatro virtual: Para que os empresários não desconfiassem, os golpistas marcavam reuniões online e colocavam atores na chamada fingindo ser fiscais da Receita Estadual para dar o “aval” na transação;
Documentos falsificados: Os investigados apresentavam despachos e telas de sistemas da Secretaria da Fazenda totalmente adulterados para simular que o governo paulista havia aprovado aquela transferência.

O caso assustador de R$ 72 milhões que acendeu o alerta

De acordo com informações reveladas por auditores fiscais, o esquema era tão agressivo que uma única empresa envolvida — cujo nome está sendo mantido sob sigilo de Justiça — deixou de pagar uma fortuna. A companhia, que tinha a obrigação de recolher cerca de R$ 80 milhões em ICMS aos cofres públicos, utilizou os créditos falsificados do grupo criminoso e pagou apenas R$ 8 milhões.

Ou seja, o estado de São Paulo deixou de receber R$ 72 milhões de uma só vez nesse caso específico. Esse comportamento fora do comum acendeu o alerta vermelho nos sistemas de inteligência do governo.

Como a história começou?

A investigação teve início em setembro de 2025. A Secretaria da Fazenda percebeu, por meio de cruzamento digital de dados, que dezenas de empresas de grande porte simplesmente despencaram o valor de impostos que pagavam mensalmente.

Ao mesmo tempo, empresários honestos que desconfiaram das propostas milagrosas procuraram o órgão espontaneamente para denunciar que escritórios de advocacia estavam oferecendo facilidades tributárias suspeitas pelo telefone e por reuniões de negócios.

Durante debate ao vivo exibido no programa NC News Acontece, transmitido diretamente dos nossos estúdios na Avenida Paulista, o apresentador Alex Sampaio repercutiu os bastidores da operação e explicou o impacto desse rombo bilionário para a população brasileira, que acaba pagando a conta da sonegação.

O “golpe duplo” após a descoberta da fraude

A ganância do grupo criminoso não tinha limites. Conforme os investigadores, quando a Secretaria da Fazenda descobria a fraude e autuava as empresas compradoras, os escritórios de advocacia investigados aplicavam a segunda parte do golpe.

Eles procuravam novamente as vítimas autuadas e ofereciam um “serviço de quitação” das multas. Para provar que estavam pagando a dívida, os golpistas entregavam telas de computador falsificadas fingindo que o pagamento das multas milionárias tinha sido feito, além de apólices de seguro de garantia que também eram frias. No total, de acordo com o auditor fiscal Ronaldo Mello Nogueira, alguns escritórios chegavam a faturar R$ 100 milhões por mês com a fraude.

Quem está envolvido e quem pode ser punido?

Ao todo, as equipes policiais cumprem 38 mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça em cidades como São Paulo, Campinas, Jundiaí, Ribeirão Preto, além de Londrina e Cambé, no estado do Paraná.

A grande pergunta que os investigadores tentam responder agora é: quem de fato foi enganado e quem agiu de má-fé? Segundo as autoridades do CIRA, algumas empresas realmente caíram em uma armadilha muito bem montada, mas outras sabiam que o negócio era ilegal e aproveitaram a oportunidade para sonegar.

“Quem compra um bilhete premiado da Mega-Sena por mil reais? No mínimo, o empresário que passa a efetuar grandes aquisições de crédito deveria verificar a legalidade”, alertou o auditor Ronaldo Mello Nogueira.
Até o fechamento desta reportagem, a Secretaria da Fazenda já havia aberto 874 investigações fiscais para analisar quase 10 mil lançamentos suspeitos envolvendo mais de 850 empresas brasileiras. Dessas, 752 já receberam autuações oficiais.

Entenda o Contexto

O ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) é a principal fonte de arrecadação dos estados e serve para financiar serviços essenciais como saúde, educação e segurança pública. A legislação brasileira permite que empresas acumulem e transfiram créditos legítimos de ICMS sob regras extremamente rígidas e com autorização expressa e manual da Secretaria da Fazenda. No entanto, a complexidade do sistema de impostos do país acaba abrindo brechas para que quadrilhas especializadas criem esquemas de “planejamento tributário” criminosos. Ao falsificar esses processos, os golpistas retiram bilhões de reais que deveriam voltar para a sociedade em forma de investimentos públicos, lesando o consumidor final que paga o imposto embutido em cada produto de mercado.

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