O esloveno Slavko Vinčić, 46, apita neste domingo a final do Mundial de Seleções entre Espanha e Argentina, em Nova Jersey, seis anos após uma detenção que quase mancha sua carreira. A escolha consolida sua posição entre os principais árbitros do futebol internacional e reacende o debate sobre o episódio policial de 2020 na Bósnia e Herzegovina.
Final sob holofotes e passado incômodo
Vinčić chega à decisão depois de dirigir três partidas no torneio, incluindo a estreia do Brasil, no empate por 1 a 1 com o Marrocos. A atuação segura em jogos de alta pressão e o histórico recente, que inclui a final da Liga dos Campeões vencida pelo Real Madrid sobre o Borussia Dortmund por 2 a 0, ajudam a explicar por que o nome dele surge no centro do campo na noite mais importante do Mundial.
O contexto, porém, não é apenas esportivo. Parte da atenção que cerca o árbitro vai além das quatro linhas. Em maio de 2020, o esloveno é detido em Bijeljina, cidade na Bósnia e Herzegovina, durante uma operação policial contra uma rede de tráfico de drogas e prostituição. A polícia invade uma fazenda, prende 35 pessoas e apreende 10 pistolas, 14 pacotes de cocaína, celulares, notebooks e mais de 10 mil euros, cerca de R$ 58,7 mil. Vinčić está entre os conduzidos, mas é liberado após interrogatório e não vira alvo de acusação.
Hoje, a presença dele na final é tratada como sinal de que as autoridades da arbitragem internacional consideram o caso superado. Na prática, a nomeação representa uma espécie de chancela definitiva ao seu trabalho técnico, justamente no jogo que define o campeão entre espanhóis e argentinos.
Da fazenda em Bijeljina à elite da arbitragem
O árbitro conta que está na Bósnia e Herzegovina naquele maio de 2020 para tratar de negócios ligados à própria empresa quando recebe o convite para um almoço em uma fazenda nos arredores de Bijeljina. A decisão de aceitar o convite, diz ele, muda o rumo de sua reputação.
“Fui parar nessa fazenda por acaso. Tenho minha própria empresa e estava na Bósnia e Herzegovina para uma reunião de negócios e aceitei um convite para almoçar, que acabou sendo meu maior erro. Me arrependo. Estava sentado à mesa com minha empresa, chegou a polícia e o que aconteceu, aconteceu. Eles nos levaram à polícia, pediram depoimento como testemunhas e, quando descobriram que nem os conhecíamos, pudemos ir”, relata ao jornal esloveno Vecer.
A operação mira uma organização criminosa. Entre os detidos há 25 homens e nove mulheres. Armas, cocaína e dinheiro reforçam a imagem de uma festa ligada a uma quadrilha estruturada. O nome do árbitro, porém, não aparece em nenhuma acusação formal. Ele sai da delegacia como testemunha, não como suspeito.
O presidente da associação de árbitros da Eslovênia, Vladimir Sajn, tenta conter danos ainda naquele momento. “De acordo com as informações que recolhemos de fontes oficiais e não oficiais e do próprio Slavko, ele não é suspeito de nada. Nenhuma denúncia foi formalizada contra ele. Estava no lugar errado na hora errada”, afirma. Ao mesmo tempo, admite em público que o episódio é uma “mancha” na reputação de Vinčić.
Apesar do constrangimento, a carreira não desanda. O esloveno segue escalado em partidas de peso, com presença em quartas de final de Liga dos Campeões e playoffs de seleções, até desembarcar no Mundial de Seleções deste ano como um dos nomes mais experientes do quadro internacional.
Trio esloveno em campo e diversidade no comando
Na decisão em Nova Jersey, Vinčić forma um trio esloveno com Tomaz Klancnik e Andraz Kovacic nas bandeiras. O jordaniano Adham Makhadmeh atua como quarto árbitro, responsável pela área técnica e pela administração do banco de reservas. No controle do árbitro de vídeo, o alemão Bastian Dankert tenta garantir revisão rápida e rigorosa de lances decisivos.
A composição do time de arbitragem reforça a imagem de cooperação entre federações e confederações, em um momento em que a pressão por decisões corretas se multiplica com o uso de tecnologia. Cada intervenção do vídeo, cada cartão e cada impedimento ajustado por centímetros pesam sobre a percepção de justiça no resultado final.
Vinčić já vive esse tipo de cobrança neste Mundial. No empate entre Brasil e Marrocos, distribui cartões para Ibañez e Casemiro e administra um confronto duro, sob olhar desconfiado de torcedores brasileiros. Também apita Jordânia 1 a 2 Argélia e México 2 a 0 Equador, partidas que ajudam a construir a confiança dos responsáveis pela arbitragem na capacidade dele de conduzir cenários distintos de jogo.
Legitimidade, reputação e o jogo da vida
No campo institucional, a escolha do esloveno para a final funciona como mensagem. Ao escalar um árbitro que já enfrenta questionamentos públicos, mas que não responde a processo algum, a cúpula da arbitragem sinaliza que o critério principal continua sendo o desempenho técnico, não o ruído em torno da biografia.
Para federações, clubes e jogadores, a equação é pragmática: quanto mais sólido e experiente o árbitro, menor o risco de erros grosseiros que possam manchar o título de Espanha ou Argentina. Para o público, porém, o episódio da fazenda em Bijeljina segue presente, alimentando desconfiança em parte da torcida e da mídia, sobretudo nas redes sociais, onde o caso volta a circular com força às vésperas da decisão.
A imagem do árbitro entra em campo junto com ele. A detenção de 2020, ainda que sem acusação, testa os limites da tolerância com a vida privada de figuras que atuam em eventos de grande repercussão. O próprio Vinčić tenta controlar a narrativa ao admitir erro de julgamento e reforçar que não tem ligação com o grupo investigado.
O domingo em Nova Jersey coloca tudo à prova. Uma atuação firme, discreta e tecnicamente correta pode consolidar o esloveno como referência mundial da arbitragem, acima do ruído causado pelo passado. Uma noite marcada por polêmicas, ao contrário, tende a reviver dúvidas, dar novo fôlego às críticas e influenciar a forma como torcedores e dirigentes avaliam sua presença em jogos futuros.
Enquanto Espanha e Argentina disputam a taça, Slavko Vinčić disputa um tipo diferente de título: o de transformar a final do Mundial no marco de virada definitiva de sua reputação. O apito inicial encerra seis anos de sombra e abre, lance a lance, o julgamento público que falta para definir o legado do árbitro esloveno.