Jennifer Lawrence explica adeus a Mística e muda carreira aos 35

Jennifer Lawrence revela os motivos por trás da decisão de deixar o papel de Mística e os desafios enfrentados em sua trajetória artística.
Redação NC News
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Jennifer Lawrence, 35, não volta ao papel de Mística em Vingadores: Doutor Destino. A mutante azul dos X-Men retorna às mãos de Rebecca Romijn, num movimento que reposiciona a franquia e cristaliza a nova fase da vencedora do Oscar.

Uma Mística de outra geração

O trailer do novo filme, exibido desde domingo, mostra uma Mística diferente daquela que o público se acostumou a ver na última década. A vilã clássica surge ao lado dos heróis, em cenas rápidas de luta e transformação em Yelena Belova, vivida por Florence Pugh, mas o que salta aos olhos é outro detalhe: o rosto não é o de Lawrence.

Nos bastidores, a decisão não surpreende tanto. Vingadores: Doutor Destino resgata o elenco original dos X-Men da era 20th Century Fox, e com ele Romijn, que interpretou Mística nos filmes dos anos 2000. “A oportunidade de voltar à série para se reunir com figuras como Patrick Stewart, James Marden, Kelsey Grammer e Alan Cumming foi surreal”, diz a atriz, hoje novamente no centro de um fenômeno de cultura pop que ela ajudou a construir.

Para os fãs mais jovens, porém, a ruptura é evidente. Nos últimos anos, a imagem de Mística se confunde com a de Jennifer Lawrence, que encarnou a mutante em sucessivos filmes até X-Men: Fênix Negra, lançado em 2019. A ausência da estrela no novo longa sintetiza uma guinada dupla: da franquia, que aposta na nostalgia, e da própria atriz, que escolhe preservar o corpo e a saúde.

Desgaste físico e fim de um ciclo azul

Lawrence nunca escondeu o custo de se transformar em Mística. O processo de horas de pintura corporal, repetido por anos, deixou de ser apenas um incômodo logístico para se tornar um alerta de saúde. Em entrevista à Entertainment Weekly, a atriz conta que o ritual, antes visto como um desafio empolgante, passou a soar como um risco profissional. “Apesar de ter gostado de trabalhar nos filmes de X-Men e da equipe com quem compartilhou a tela, a atriz não sente saudades de ter seu corpo pintado durante horas”, diz, em declaração ao veículo.

Conforme envelheceu, ela passou a se preocupar mais com os produtos químicos que cobriam a pele por longos períodos. A maquiagem integral, somada ao ritmo de filmagens de superprodução, exigia uma resistência física que já não fazia sentido diante de outras prioridades. Nos bastidores, mesmo um convite dos Irmãos Russo, diretores de Vingadores: Doutor Destino, dificilmente a faria voltar à personagem.

A decisão não é isolada. Outros nomes da “nova geração” dos X-Men, como James McAvoy, Michael Fassbender e Nicholas Hoult, também ficam de fora do longa previsto para o fim de 2026. O estúdio decide apostar num recorte fechado, centrado nos veteranos e em versões que o público associou aos primeiros grandes sucessos dos mutantes no cinema.

O fantasma de Passageiros e a queda de prestígio

Longe da tinta azul, Lawrence carrega outro capítulo incômodo da carreira: Passageiros, drama espacial lançado em 2016. O filme, cercado de expectativa por reunir a estrela de Jogos Vorazes e Chris Pratt, naufraga nas bilheterias e vira alvo de críticas duras. A trama, que prometia um thriller psicológico sobre moralidade e solidão, se converte em romance meloso com um protagonista masculino romantizado apesar de decisões perturbadoras.

O público rejeita especialmente o arco do personagem de Pratt, que acorda a heroína de Lawrence contra a vontade dela, condenando-a a envelhecer e morrer antes da chegada ao destino. A opção da direção por tratá-lo como herói romântico, e não como alguém a ser confrontado eticamente, contamina a recepção do filme. Até hoje, Passageiros é citado como exemplo de projeto de prestígio que desanda no tom.

Lawrence admite que viu os sinais antes. Ao New York Times, relembra o conselho de uma amiga: “Adele me disse para não fazer isso”, conta, sobre a popstar que a alertou para os riscos criativos do roteiro. Ela não ouviu. O fracasso, somado a outros projetos de recepção fria, alimenta uma sensação de saturação em torno de sua imagem. “Acho que todo mundo já estava de saco cheio de mim”, diz à Vanity Fair. “Chegou a um ponto em que eu não conseguia mais fazer nada direito. Quando eu desfilava no tapete vermelho, as pessoas diziam: ‘Por que ela simplesmente não foi embora?’”

O site AdoroCinema resume o impacto de Passageiros na trajetória da atriz: “Ela descreveu repetidamente o filme como um ‘soluço’ em sua carreira.” O soluço, porém, dura o bastante para empurrá-la a uma pausa forçada de reputação. Entre 2019 e 2021, Lawrence se afasta dos holofotes, reduz compromissos, recusa projetos e tenta recalibrar a relação com o público.

Reinvenção, comédia e novos limites

A volta acontece de forma calculada. Depois de retomar a cena no sucesso de streaming Não Olhe Para Cima, Lawrence se arrisca como protagonista de comédia escrachada em Que Horas Eu Te Pego?, lançado em 2023. A escolha, vista inicialmente como aposta improvável, funciona. A atriz redescobre o timing cômico, recupera o carinho da plateia e mostra que pode rir de si mesma após anos no circuito pesado de blockbusters e dramas de prestígio.

Ela também volta a ser celebrada pela crítica em produções mais autorais, como Morra, Amor, em que é aclamada pela entrega emocional. A soma desses trabalhos recente devolve a Lawrence a condição de figura central em Hollywood, mas agora com limites bem definidos. Papéis que exigem sacrifícios físicos extremos, como o de Mística, deixam de ser prioridade.

O impacto extrapola a carreira individual. Nos estúdios, cresce a discussão sobre protocolos de segurança e bem-estar em departamentos de maquiagem e efeitos especiais. O caso de Lawrence ajuda a iluminar o desgaste de processos que, durante anos, foram tratados apenas como parte do “pacote” do estrelato. A recusa pública em repetir esse tipo de experiência abre espaço para que outras estrelas façam o mesmo.

Franquias entre nostalgia e renovação

Para o novo filme dos Vingadores, a ausência de Lawrence obriga a franquia a se posicionar. O retorno de Rebecca Romijn, somado à presença de veteranos como Patrick Stewart, afasta a possibilidade de uma linha contínua com os X-Men mais recentes e aposta na memória afetiva dos espectadores dos anos 2000. Os fãs que descobriram os mutantes já com a geração de Lawrence tendem a sentir o baque, mas encontram uma espécie de antologia: um universo em que diferentes versões coexistem, cada uma marcando um momento da cultura pop.

No curto prazo, a decisão testa o apetite do público por reencontros nostálgicos em detrimento da continuidade. No médio, sinaliza que a era dos compromissos quase vitalícios com o mesmo papel perde força, mesmo em franquias bilionárias. Atrizes com o peso de Jennifer Lawrence sentem-se fortalecidas para escolher projetos que não as esgotem física ou emocionalmente.

Às vésperas da estreia de Vingadores: Doutor Destino, o jogo parece definido. O filme tenta provar que consegue emocionar sem a Mística que dominou a tela na última década. Lawrence, por sua vez, se firma numa nova etapa, longe da tinta azul e dos roteiros que a deixam em dúvida, disposta a trocar permanência em franquias por longevidade criativa. O próximo capítulo não é azul, mas tem a cor de uma carreira que aprende com o próprio “soluço” e se recusa a repeti-lo.

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