Paulo Gonet libera ação que pode tirar senador do MDB das eleições

Ministro do TSE autoriza ação que pode impactar candidatura de senador do MDB nas próximas eleições.
Redação NC News
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O ministro Paulo Gonet, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), divulga nesta quarta-feira (22) um parecer de 34 páginas que abre caminho para uma ação eleitoral capaz de tornar inelegível um senador do MDB que pediu o indiciamento dos ministros Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. O texto autoriza que a conduta do parlamentar seja alvo de uma ação de investigação judicial eleitoral (AIJE), instrumento que já leva à inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro por ataques ao sistema eletrônico de votação.

Do STF para a Justiça Eleitoral

O movimento de Gonet desloca o eixo do embate entre Congresso e Judiciário. Em vez de deixar o caso nas mãos do Supremo Tribunal Federal (STF), onde o senador se confronta diretamente com ministros que ele próprio tentou indiciar na CPI do Crime Organizado, o ministro do TSE afirma que a responsabilidade deve ser examinada pela Justiça Eleitoral.

Na prática, o parecer blinda o parlamentar de um julgamento imediato pelo STF, mas o expõe a um risco de longo alcance: a perda do direito de disputar eleições. O senador, que busca a reeleição em outubro, passa a enfrentar a possibilidade real de ser declarado inelegível às vésperas da campanha.

O cálculo político fica evidente entre aliados do emedebista, que leem a iniciativa como uma resposta institucional ao avanço da CPI sobre integrantes do Supremo e sobre o próprio Gonet. Para o TSE, porém, o recado é o oposto: críticas consideradas abusivas ao Judiciário deixam de ser apenas um duelo retórico e passam a ter consequência eleitoral concreta.

Precedente Bolsonaro no centro do parecer

O parecer se ancora explicitamente no caso que muda a biografia política de Jair Bolsonaro. Gonet cita o julgamento de 2023 no TSE, quando o ex-presidente é condenado, em uma AIJE movida pelo PDT, por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, após a reunião com embaixadores no Palácio da Alvorada, em julho de 2022, para lançar suspeitas infundadas sobre as urnas.

Em seu texto, o ministro relembra que o tribunal define o abuso de poder político como o ato de agente público, detentor de mandato, que usa a estrutura do cargo com “desvio de finalidade eleitoreira”, em prejuízo da igualdade entre candidaturas. Ele resgata o precedente como um modelo pronto a ser aplicado em novos casos.

Ao tratar do senador do MDB, Gonet escreve que “há bom motivo” para crer que o parlamentar se vale de sua “condição funcional como instrumento predisposto a colher publicidade e frutos eleitoreiros” ao pedir o indiciamento de Moraes, Gilmar e Toffoli em abril, dentro de uma comissão montada para investigar crime organizado. O relatório, que também mira o próprio Gonet, acaba rejeitado por 6 a 4, após articulação do Planalto para trocar membros da CPI.

Na avaliação do ministro, a iniciativa não apenas extrapola os limites da investigação, como transforma a CPI em palanque. Ele sustenta que a “conduta abusiva” protagonizada por agente público “pode ser alvo de uma ação de investigação judicial eleitoral – um tipo de processo conhecido pela sigla ‘aije’”. O trecho funciona como senha para que adversários do senador busquem a Justiça Eleitoral.

Cordas, brechas e tensões políticas

No mundo político, o parecer é lido como uma manobra de dupla face. De um lado, afasta o risco imediato de um processo criminal no STF decidido por ministros diretamente atacados pelo senador. De outro, deixa, nas palavras de aliados, a “corda no pescoço” do emedebista, na forma de uma eventual ação eleitoral com potencial para tirá-lo da disputa.

O texto de 34 páginas detalha como o senador explora a CPI do Crime Organizado para projetar sua imagem. Gonet descreve que o parlamentar dá ampla publicidade à proposta de indiciamento, exposta por ele à imprensa, em redes sociais e entrevistas, mesmo depois de derrotado no colegiado. Para o ministro, a exposição rende “fama” ao senador “às custas do ato viciado”.

Nos bastidores do Congresso, a leitura é de que Gonet abre uma brecha para disciplinar, via Justiça Eleitoral, o discurso mais radical contra o STF e o próprio TSE. A fronteira entre crítica política e ataque institucional, porém, continua nebulosa, alimentando discursos de censura e de cerceamento da liberdade de expressão.

Entre apoiadores do senador, a reação é imediata. Interlocutores classificam o movimento como retaliação jurídica disfarçada de zelo com o sistema eleitoral. Reservadamente, falam em “efeito silenciador” sobre outros parlamentares que pretendem elevar o tom contra ministros do Supremo em ano de eleição.

Quem ganha, quem perde na disputa

Para o TSE e para a cúpula do Judiciário, o parecer tem peso simbólico. O tribunal reforça a mensagem de que ataques ao sistema de votação e às cortes superiores deixam de ser custo político difuso e passam a ter consequência direta nas urnas. O precedente Bolsonaro, citado nominalmente por Gonet, vira uma espécie de manual para a contenção de novas ofensivas.

No campo eleitoral, o impacto é imediato sobre o emedebista, hoje um dos rostos mais conhecidos da ofensiva anti-STF no Senado. A perspectiva de uma AIJE em pleno calendário eleitoral ameaça sua estratégia de capitalizar politicamente o confronto com os ministros. A simples possibilidade de inelegibilidade se torna um fator de incerteza para sua chapa e para as alianças locais do MDB.

Entre parlamentares, cresce o temor de que o precedente se estenda a outros casos em que comissões de inquérito, discursos de plenário e redes sociais sejam usados como palco para questionar a legitimidade das instituições. Assessores já falam em “juridificação” do debate político e em necessidade de revisar discursos preparados para sessões públicas e campanhas.

Ao mesmo tempo, o caso reacende a discussão sobre a separação de Poderes. A novidade agora não é a fricção entre Legislativo e Judiciário, já elevada desde os processos contra Bolsonaro, mas a escolha da Justiça Eleitoral como arena principal dessa disputa. Gonet deixa claro que, ao menos para esse tipo de conduta, é ali que se cobrará a conta.

O que vem pela frente

Com o parecer publicado hoje, o próximo passo é político e jurídico ao mesmo tempo. Caberá a partidos, coligações ou ao Ministério Público Eleitoral decidir se transformam o texto em ação formal de investigação contra o senador. Caso uma AIJE seja protocolada, o TSE terá de decidir se vê, de fato, desvio de finalidade eleitoreira na ofensiva contra Moraes, Gilmar e Toffoli.

Em um ano em que o país se prepara para ir às urnas, o gesto de Gonet tende a pesar no cálculo de quem aposta no confronto direto com as cortes como estratégia de campanha. A mensagem implícita é que o palco da disputa não se limita mais às redes e às CPIs. Pode terminar no plenário da Justiça Eleitoral, com o futuro político de parlamentares em jogo.

O desenlace desse caso deve servir de termômetro para medir até onde o TSE está disposto a ir na contenção de discursos que ataquem o sistema eleitoral e o próprio Judiciário. Enquanto a AIJE não sai do papel, a política em Brasília se reorganiza em torno de uma pergunta incômoda: quão caro pode custar transformar crítica institucional em plataforma de campanha.

Quem é Paulo Gonet?

Paulo Gonet é ministro do Tribunal Superior Eleitoral, com trajetória ligada ao Ministério Público Eleitoral e atuação destacada em casos de grande impacto político.

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