Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, acende um novo alerta sobre a economia brasileira. Ele descreve a situação fiscal como “desastrosa”, vê risco real de recessão e mira diretamente o governo Lula.
Alerta em meio a inadimplência recorde
O diagnóstico de Fraga parte de um dado que expõe o aperto nas famílias: mais de 80 milhões de brasileiros estão inadimplentes. O número indica renda comprimida, consumo fraco e comércio sob pressão. No setor produtivo, empresas relatam crescentes dificuldades para rolar dívidas, num ambiente de juros elevados que encarece o crédito e paralisa planos de investimento.
Para o economista, esses sinais não são ruído de curto prazo, mas prenúncio de algo mais sério. “O Brasil está com uma baita febre, representada pelo fato de o país pagar uma taxa muito alta de juro para tomar dinheiro emprestado”, afirma. A comparação com um quadro clínico não é casual: na visão dele, a economia dá sinais claros de que algo estrutural vai mal, e não apenas a inflação do momento.
Crítica direta à política fiscal de Lula
Fraga concentra suas críticas na condução das contas públicas. Ele reconhece a criação do novo arcabouço fiscal, mas considera que o governo desrespeita o próprio desenho. “A situação fiscal é bastante grave. Embora o governo tenha criado o arcabouço fiscal, chutou o pau da barraca logo de cara e os resultados estão aí, na forma de juros altos”, diz.
Na avaliação dele, as metas fiscais definidas no início do mandato nasceram “modestas” e, mesmo assim, não são cumpridas. O resultado aparece na trajetória de alta da dívida pública e na desconfiança de investidores, que exigem prêmio maior para financiar o Estado brasileiro. “Dizem que já temos austeridade fiscal demais, mas que austeridade é essa que fez a dívida pública crescer?”, provoca.
O economista aponta ainda um movimento que considera emblemático da deterioração: o encurtamento do perfil da dívida emitida pelo Tesouro. “O próprio governo encurta o perfil de sua dívida, o que é um sinal claríssimo de que a situação está difícil”, afirma. Ao priorizar títulos de prazos menores para escapar de juros longos muito altos, o governo reduz o horizonte de financiamento e aumenta o risco de ter de refinanciar volumes grandes em janelas desfavoráveis.
Juros altos, investimento baixo e crescimento fraco
O efeito encadeado desse quadro, segundo Fraga, aparece na própria dinâmica de crescimento do país. A taxa básica de juros cai devagar, enquanto as taxas de longo prazo seguem “altíssimas”, nas palavras dele, travando decisões de investimento em setores que dependem de crédito farto e previsível, como construção civil, indústria e comércio.
O economista lembra que o Brasil convive há décadas com uma taxa de investimento baixa e um avanço tímido da renda por habitante. Desde meados dos anos 1990, o crescimento per capita anual gira em torno de 1,3%. Para ele, o número é “muito modesto, para não dizer medíocre” e espelha a dificuldade de elevar a produtividade.
Sem reformas que melhorem a qualidade do gasto público, reduzam subsídios ineficientes e tornem o Estado mais funcional, Fraga vê pouco espaço para uma aceleração consistente. Ele cita, entre os pontos travados pelo impasse político, a necessidade de revisão da Previdência, de uma limpeza nos benefícios tributários que hoje somam cerca de 9% do PIB e de um choque de eficiência na máquina pública.
Risco de recessão e disputa eleitoral no horizonte
A combinação de dívida crescente, juros altos, crédito travado e investimento anêmico leva Fraga a falar abertamente em risco de recessão em 2027. O temor é que o aperto já visível no orçamento das famílias e nos balanços das empresas se transforme, adiante, em queda da atividade, falências e desemprego.
Nesse cenário, o debate fiscal ganha peso extra na disputa presidencial. Lula aparece hoje como favorito, mas, na visão do ex-presidente do BC, o país não suporta uma repetição da guinada expansionista que marcou o fim do ciclo petista anterior. “A situação atual do Brasil requer muito mais um governo do estilo Lula 1, do que do Lula 3 ou da Dilma. Não tem como tapar o sol com a peneira”, afirma, ao lembrar o estouro das contas públicas na gestão Dilma Rousseff.
Fraga também vê problemas em uma eventual volta da família Bolsonaro ao Planalto, sob liderança do senador Flávio Bolsonaro. Ele lembra o histórico do governo Jair Bolsonaro, com tensão institucional, condução errática da política econômica e respostas falhas a crises sociais e sanitárias. O economista defende uma alternativa capaz de combinar responsabilidade fiscal com compromisso democrático e foco em produtividade.
Compromisso dos três Poderes e prestígio internacional
Para reverter o quadro que considera “uma verdadeira vergonha”, Fraga insiste que o ajuste não pode recair apenas sobre o Executivo. Cortar gastos e conter a dívida, diz ele, exige compromisso dos três Poderes: governo, Congresso e Judiciário. Sem esse alinhamento, o país tende a conviver com juros estruturalmente altos, expansão da inadimplência e crescimento medíocre.
As críticas partem de alguém que hoje transita com desenvoltura também no cenário internacional. Nesta semana, Fraga é convidado por Kevin Warsh, presidente do banco central dos Estados Unidos, para coordenar um grupo de trabalho que revisará a comunicação da instituição americana. O gesto reforça sua influência em debates globais de política monetária e fortalece o peso de suas análises sobre o Brasil.
Enquanto o governo resiste a cortes mais profundos e aposta em aumento de arrecadação, o relógio fiscal corre. Se a leitura de Fraga se confirmar, o país entra no próximo ciclo eleitoral sob o fantasma de uma recessão e com espaço apertado para respostas rápidas. A disputa, então, tende a girar menos em torno de promessas de novos gastos e mais em torno da credibilidade de quem conseguir convencer o eleitor de que é capaz de colocar a dívida no lugar.