A Polícia Civil de Campinas investigou a morte de Jandira Marina Dias Braga, de 76 anos, após ela ser submetida a uma cirurgia feita por engano no Hospital Beneficência Portuguesa. O caso foi tratado inicialmente como homicídio culposo, quando não há intenção de matar, e colocou em discussão falhas nos protocolos de segurança dentro de um dos principais hospitais da cidade.
Jandira estava internada para tratar uma obstrução intestinal relacionada ao retorno de um câncer de cólon diagnosticado 12 anos antes. Durante a internação, porém, ela acabou sendo levada para um procedimento destinado a outro paciente.
A cirurgia realizada foi uma gastrostomia endoscópica, procedimento que consiste na colocação de uma sonda diretamente no estômago para auxiliar na alimentação ou drenagem de líquidos. Segundo a investigação, o procedimento estava registrado no prontuário de outro paciente.
A troca só foi percebida posteriormente, durante a passagem de plantão, quando a equipe médica identificou que a pessoa que deveria passar pela cirurgia permanecia no quarto.
O que aconteceu antes da morte da paciente?
Após o procedimento realizado por engano, o estado de saúde de Jandira apresentou piora. No dia seguinte à cirurgia, a idosa apresentou confusão mental, queda de pressão arterial, redução da oxigenação e alterações no ritmo cardíaco.
Diante da evolução do quadro, ela foi encaminhada para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde permaneceu sob cuidados médicos. Três dias depois da cirurgia, Jandira morreu.
A investigação policial passou a analisar se o procedimento feito sem indicação para a paciente teve relação direta ou indireta com o agravamento do quadro que levou à morte.
Polícia abre investigação por homicídio culposo
O caso chegou à Polícia Civil após a neta da paciente, a dentista Camila Dias Barozzi, registrar um boletim de ocorrência no 1º Distrito Policial de Campinas.
Após o depoimento da família, a Delegacia Seccional instaurou um inquérito para apurar as circunstâncias da morte.
A investigação passou a ouvir profissionais envolvidos na internação e no procedimento, além de analisar documentos médicos, prontuários e protocolos internos do hospital.
O objetivo dos investigadores foi identificar:
- como ocorreu a troca de pacientes;
- quais profissionais participaram das etapas de autorização e preparação;
- quais protocolos de segurança deveriam ter impedido o erro;
- se a cirurgia contribuiu para o desfecho fatal.
- Laudos médicos e perícias também foram considerados fundamentais para esclarecer a sequência dos acontecimentos.
Hospital reconheceu falha e abriu sindicância
A Beneficência Portuguesa confirmou que houve um erro durante o atendimento e classificou o caso como um evento adverso relacionado à assistência.
O hospital informou que abriu uma sindicância interna para investigar o ocorrido, revisar protocolos e identificar responsabilidades.
A instituição também comunicou o desligamento de profissionais envolvidos no caso, mas não divulgou cargos ou quantidade de funcionários afastados.
Em manifestação oficial, o hospital afirmou que uma avaliação técnica interna apontou que o procedimento realizado não teria alterado o prognóstico da paciente.
A família contestou essa avaliação e afirmou que Jandira chegou ao hospital com expectativa de continuidade do tratamento contra o câncer.
Família cobra respostas após morte da idosa
Para os familiares, o erro aconteceu em um momento em que Jandira ainda tinha possibilidades de tratamento. A neta afirmou que a avó era uma pessoa querida e que a família buscava respostas sobre o que aconteceu dentro do hospital.
Segundo Camila, a preocupação principal após a piora do quadro foi evitar sofrimento prolongado para a idosa. A família passou a acompanhar o andamento das investigações e avaliou medidas judiciais para buscar esclarecimentos e eventual reparação.
Conselhos profissionais também investigam o caso
Além da investigação criminal, o episódio passou a ser analisado por órgãos de fiscalização profissional. O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) abriu procedimento para avaliar a atuação dos médicos envolvidos na internação, indicação e realização do procedimento.
O Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) também iniciou apuração para verificar possíveis falhas éticas relacionadas à equipe de enfermagem.
As investigações dos conselhos seguem de forma independente da Polícia Civil e podem resultar em medidas administrativas, como advertências, suspensões ou outras punições previstas pelas normas profissionais.
Erro em cirurgia acende alerta sobre segurança do paciente
O caso de Jandira colocou novamente em debate a importância dos protocolos de segurança dentro dos hospitais. A realização de um procedimento em paciente errado é considerada uma das falhas mais graves dentro da assistência médica, justamente porque envolve etapas básicas de conferência, como:
- identificação correta do paciente;
- conferência de documentos;
- confirmação do procedimento;
- comunicação entre equipes.
- Especialistas em gestão hospitalar apontam que erros desse tipo normalmente não estão relacionados apenas a uma única pessoa, mas podem envolver falhas de processos, comunicação interna, organização das equipes e barreiras de segurança.
Caso expõe desafios para hospitais de alta complexidade
Hospitais que recebem pacientes com doenças graves e procedimentos complexos precisam manter protocolos rígidos para reduzir riscos. A investigação em Campinas passou a avaliar se o problema ocorreu por uma falha isolada ou se revelou fragilidades no sistema interno de identificação e preparação cirúrgica.
A resposta deve depender da análise dos documentos, depoimentos e avaliações técnicas realizadas durante o andamento do caso.
Próximos passos da investigação
A Polícia Civil continuou reunindo informações para concluir o inquérito. Ao mesmo tempo, os conselhos profissionais mantiveram suas próprias apurações e a família de Jandira passou a buscar respostas sobre as circunstâncias da morte.
O caso também abriu uma discussão mais ampla sobre segurança do paciente e sobre como hospitais podem reforçar mecanismos para evitar que erros semelhantes aconteçam novamente.
A história de Jandira passou a representar um alerta para a necessidade de protocolos cada vez mais rigorosos dentro das unidades de saúde.
Entenda o contexto
Casos de cirurgia realizada em paciente errado estão entre os eventos adversos mais graves da medicina. Por envolver identificação, comunicação e conferência de informações, esses episódios costumam gerar investigações criminais, processos administrativos e revisão de protocolos hospitalares. Em Campinas, a morte de Jandira Marina Dias Braga colocou em evidência a importância da segurança do paciente e a necessidade de garantir que todas as etapas antes de um procedimento sejam rigorosamente verificadas.