O empresário Vagner José de Oliveira Rosa, 67, morador de Botucatu (SP), acaba de concluir uma caminhada de quase 70 dias pela Via Transilvânica, rota de 1.400 km na Romênia. A jornada, feita ao lado do italiano Graziano, 74, mistura natureza selvagem, encontros com ursos, vilarejos isolados e visitas a castelos históricos.
Aventura longa, rotina simples
Ao longo do percurso, a dupla caminha em média 20 km por dia, com mochilas de 11 kg nas costas. A rotina é simples: acordar cedo, organizar o equipamento, checar mapas, caminhar por horas, buscar abrigo em vilarejos e repetir no dia seguinte.
A Via Transilvânica atravessa áreas de natureza preservada e passa longe do turismo de massa. Segundo Vagner, mais de 70% da rota segue dentro de bosques fechados, o que amplia a sensação de isolamento e eleva a atenção à segurança.
“Esse caminho na Romênia é bem isolado, e eu sempre gostei de fazer as coisas sozinho. Mas a Via Transilvânica me atraiu demais por ser totalmente diferente dos outros. Mais de 70% é no meio de bosques. Você não tem cidade toda hora, e a questão dos animais selvagens, como os ursos e os cães pastores, exige companhia por uma questão de segurança”, afirma.
O brasileiro está longe de ser um iniciante. Em mais de duas décadas de trilhas, já soma 26 mil km caminhados pelo mundo. Mesmo assim, diz que a Romênia exige respeito, preparo físico e planejamento.
Castelos, Drácula e história viva
Antes de encarar o trecho a pé, Vagner aproveita para cumprir um roteiro clássico pela região. Visita o Castelo de Bran, conhecido mundialmente pela associação à lenda do Conde Drácula, e o Castelo de Peleș, um dos cartões-postais da Romênia.
“A gente sempre associa a Via Transilvânica ao Drácula, mas, na verdade, ele viveu pouco tempo numa cidadezinha do caminho. O Castelo do Drácula tem todo aquele clima alusivo ao personagem, é muito interessante e vale a pena ir”, conta.
Ele se entusiasma ainda mais ao falar de Peleș. “Antes dele, porém, passamos no Castelo de Peleș, que é maravilhoso. É todo decorado, com salas cheias de armaduras e paredes revestidas em madeira. É lindíssimo.”
A convivência entre história, ficção e cotidiano marca toda a caminhada. Em um dia, o cenário é um castelo associado a lendas de vampiros. No seguinte, um vilarejo diminuto, com casas simples e pouquíssimo comércio, onde o essencial é encontrar água, um pão e um lugar seguro para dormir.
Ursos, apitos e poucos mercados
A natureza é o grande atrativo, mas também o principal desafio. A região abriga ursos e cães pastores, animais que podem se tornar perigosos em trilhas estreitas e pouco movimentadas. Para reduzir o risco de encontros traumáticos, Vagner e Graziano caminham com apitos pendurados no peito e spray de pimenta sempre à mão.
Os dois andam atentos às placas que alertam para a presença de ursos. Em um dos trechos, Graziano consegue fotografar um animal. Em outro, um caminhante romeno que acompanha a dupla por alguns dias registra um urso em vídeo. O misto de medo e fascínio aparece na fala de Vagner. “Dá aquele friozinho na barriga, mas, ao mesmo tempo, você tem vontade de encontrar o urso”, admite, em tom de brincadeira.
A falta de estrutura também pesa. Boa parte dos povoados oferece apenas um pequeno “magazine misto”, comércio que lembra uma quitanda básica. Nem sempre há restaurante, farmácia ou hospedagem formal. Em determinados trechos, a solução é contar com a hospitalidade de moradores que abrem quartos em casa para caminhantes exaustos.
Comércio escasso significa planejamento rígido. Água, alimentos calóricos, itens de emergência e roupas adequadas ao frio precisam caber na mochila de 11 kg. Cada excesso é sentido nas subidas longas. Cada descuido vira risco real.
Barreira de idioma e tecnologia como ponte
A paisagem não é o único desafio. A comunicação também cobra criatividade. O idioma local é o romeno; Vagner não fala inglês e o italiano Graziano só se vira no básico. O entendimento entre os dois, curiosamente, flui em uma mistura de “portunhol” e francês improvisado.
Com os moradores, entra em cena o celular. “Eu falo um pouco de ‘portunhol’ e de francês. Foi assim que eu e o Graziano nos comunicamos. O Graziano é italiano, então o romeno é um pouco mais próximo da língua dele. Dava para entender alguma coisa, mas o principal mesmo era o Google Tradutor”, explica o brasileiro.
Enquanto o pai enfrenta montanhas e florestas, a filha Marina Rosa, 36, coordena a narrativa a partir do Brasil. Vagner grava vídeos com o celular, envia quando encontra sinal de internet, e ela edita, legenda e publica em uma página no Instagram criada para a aventura.
Marina transforma a jornada em série, com bastidores, relatos de superação e imagens de bosques densos e estradas de terra. “Nosso principal objetivo ao compartilhar a caminhada era inspirar as pessoas. Mostrar que, independentemente da idade, ainda é possível se desafiar, viver grandes experiências e correr atrás dos sonhos”, afirma.
Idade, preparo e impacto além da trilha
A experiência de Vagner reforça, na prática, o que estudos e médicos repetem há anos sobre os benefícios da caminhada. Aos 67 anos, ele mantém uma rotina de academia três vezes por semana, pilates e caminhadas diárias de 4 a 8 km. O corpo responde bem ao esforço prolongado, e a mente acompanha.
Ele diz que a preparação não serve apenas para completar rotas extremas, mas para preservar autonomia no dia a dia. “Eu faço porque tenho prazer em cuidar da minha saúde. Vejo gente muito mais jovem que eu e que está bem pior, porque não faz exercício. Minha motivação é saber que tenho um próximo caminho me esperando lá na frente para eu estar preparado para a aventura”, resume.
A jornada romena também chama atenção de quem trabalha com turismo de aventura, saúde e bem-estar. A imagem de um caminhante de 67 anos cruzando 1.400 km, em quase 70 dias, confronta a ideia de que idade avançada é sinônimo de sedentarismo. Para agências e fabricantes de equipamentos, esse tipo de história abre espaço para pacotes e produtos voltados a um público sênior ativo.
Ao mesmo tempo, a Via Transilvânica expõe limitações estruturais. Falta sinalização mais clara em alguns trechos, há comunicação precária e quase nenhum apoio especializado ao longo de 1.400 km. O sucesso de experiências como a de Vagner tende a pressionar autoridades e operadores locais a investir em segurança, hospedagem simples e educação ambiental, sem descaracterizar a região nem ameaçar a fauna.
O próprio caminhante defende que rotas como essa se desenvolvam com cuidado. O aumento de visitantes pode estimular a economia de vilarejos, mas também tensionar a relação com os habitats de ursos e outros animais. A equação entre turismo, conservação e proteção aos viajantes ainda está em curso.
Enquanto isso, de volta ao interior paulista, Vagner já pensa no próximo desafio. A Via Transilvânica entra para o currículo como uma das caminhadas mais exigentes que já fez. Para quem acompanha à distância, a aventura funciona como lembrete direto: a idade pesa menos quando o corpo se mexe todos os dias e a cabeça aceita caminhar um passo de cada vez.