Empresários brasileiros intensificam a pressão sobre o Congresso para derrubar ou alterar a MP que zerou o imposto de importação para compras internacionais de até US$ 50. O movimento ganha força depois do novo tarifaço anunciado pelos Estados Unidos contra produtos do Brasil.
Isenção popular sob fogo cruzado
A chamada MP das blusinhas, em vigor desde maio, elimina o antigo imposto de 20% sobre remessas de pequeno valor feitas em sites como Shein, Shopee e AliExpress. A medida beneficia diretamente o consumidor, que passou a importar roupas, eletrônicos e acessórios com preço final menor.
A decisão, porém, acende o alerta da indústria nacional, que vê a combinação de isenção interna e sobretaxas externas como um ataque à competitividade brasileira. Com as tarifas americanas mais altas, exportar fica mais caro. Ao mesmo tempo, importar produtos baratos, principalmente da Ásia, torna-se ainda mais atrativo para o varejo e para o consumidor final.
No centro do embate, o governo Lula defende a manutenção da MP, considerada uma vitrine de redução de preços às vésperas da campanha eleitoral. A equipe econômica avalia que a medida é popular e aposta na aprovação pelo Congresso até 8 de setembro, prazo para a votação.
Tarifaço de Trump muda o jogo
A ofensiva empresarial ganha tração depois que o governo Donald Trump anuncia uma nova sobretaxa de 12,5% sobre produtos brasileiros. A medida se soma a tarifas que já chegam a 25% em alguns setores, em investigações baseadas na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, sob alegações de falhas no combate ao uso de trabalho forçado.
O aumento das barreiras no principal mercado externo do Brasil aprofunda a sensação de cerco. Para as entidades industriais, o país apanha em duas frentes: vende menos para fora, por causa das sobretaxas, e perde espaço em casa para plataformas internacionais com carga tributária bem mais leve.
Essa combinação alimenta o discurso de guerra comercial. Entidades empresariais enxergam o Brasil no meio do tabuleiro entre EUA e China, com a indústria local pressionada por ambos os lados, e cobram reação mais dura de Brasília.
Indústria têxtil lidera reação
A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) assume a linha de frente contra a MP das blusinhas. O setor é um dos mais expostos à concorrência de produtos baratos vendidos por plataformas estrangeiras.
Fernando Pimentel, superintendente da Abit, afirma que a estratégia é dupla: aliviar o custo doméstico e reverter a desoneração nas compras internacionais. “Trabalhamos com a redução [da carga da indústria] e/ou com a volta da taxação [das remessas internacionais]”, diz. Ele relata que a causa ganhou eco no Legislativo. “Essa desigualdade regulatória e tributária conta com muito apoio de vários parlamentares no Congresso”, afirma.
Como compensação à eventual retomada do imposto, o setor têxtil patrocina projetos que devolvem tributos a famílias de baixa renda em compras de vestuário e artigos de cama, mesa e banho. No curto prazo, as empresas pedem isenção de PIS e Cofins, além de medidas específicas contra importações consideradas predatórias.
Alarmes na indústria de Minas e no comércio
Em Minas Gerais, a Federação das Indústrias (Fiemg) prepara nota pública pela volta da tributação, alegando falta de isonomia com produtos chineses. O estado tem forte presença de indústrias têxteis e de componentes eletrônicos, dois dos segmentos mais pressionados.
O economista-chefe da Fiemg, João Gabriel Pio, critica a isenção para compras até US$ 50. “A retirada do imposto de importação sobre produtos até US$ 50 é um risco para o setor produtivo nacional, seja ele indústria ou varejo”, afirma. Ele cita dados internos que apontam aumento de R$ 2,6 bilhões nas importações de pequeno valor em julho, na comparação com períodos anteriores.
Para Pio, o problema não se limita ao imposto em si, mas ao desenho da política. “[O fim da taxação] tem um potencial de ser muito desastroso para o setor industrial brasileiro”, diz, ao destacar que fabricantes de eletrônicos e têxteis já sentem perda de mercado para a concorrência estrangeira.
No comércio, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) também se coloca contra a MP. A entidade pressiona o Congresso e recorre ao Supremo Tribunal Federal, alegando falta de urgência para justificar a edição da medida provisória. O advogado da CNC, Bruno Murat, sustenta que o tema não tem prioridade na agenda parlamentar e que o governo agiu “de forma não razoável”.
Governo segura a linha e acena com defesa comercial
Enquanto a pressão cresce, a área econômica do governo Lula reafirma que não pretende recuar. Integrantes do Ministério da Fazenda e do Palácio do Planalto dizem, reservadamente, que a MP é uma escolha política já tomada e que a proximidade das eleições tende a blindar o texto durante a tramitação no Congresso.
No Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a leitura é mais cautelosa. Técnicos reconhecem a ofensiva das entidades industriais contra a MP, mas enfatizam que, se o Congresso não votar a medida até 8 de setembro, a responsabilidade pela queda automática recairá sobre o Legislativo.
O ministério monitora os dados de importação e avalia acelerar instrumentos de defesa comercial, como investigações antidumping, cotas e salvaguardas para setores mais atingidos pelas importações asiáticas e pelo tarifaço americano. A ideia é sinalizar alguma proteção sem abrir mão, por ora, da isenção para o consumidor.
Consumidor x indústria: quem paga a conta
Plataformas internacionais que vendem ao Brasil passaram a recolher apenas cerca de 17% de ICMS, imposto estadual que não foi alterado. A indústria e o varejo nacionais, por outro lado, relatam carga acumulada próxima de 90% ao longo da cadeia produtiva. O descompasso reforça a narrativa de concorrência desigual.
Dados apresentados por entidades do varejo ao vice-presidente Geraldo Alckmin indicam um saldo negativo de cerca de 3 mil vagas formais no setor em maio, a maior parte em segmentos diretamente expostos à competição com o comércio eletrônico estrangeiro. A leitura é de que a diferença tributária já começa a se refletir em fechamento de lojas e demissões.
Para o consumidor, a MP das blusinhas é sinônimo de pacotes mais baratos chegando do exterior, em prazos cada vez menores. Para a indústria, é o retrato de um país que, em plena guerra comercial global, abre mão de proteger empregos e produção local, enquanto seus principais parceiros levantam barreiras adicionais.
O Congresso volta do recesso sob intensa disputa de narrativas. De um lado, o Planalto insiste na imagem de um governo que reduz preços em plena corrida eleitoral. Do outro, empresários de diferentes setores transformam a MP em símbolo de vulnerabilidade do Brasil na guerra comercial, com risco de desindustrialização acelerada.
Nas próximas semanas, o avanço ou não das medidas compensatórias, a resposta diplomática ao tarifaço de Trump e a disposição do Congresso em mexer na MP vão indicar o rumo da política comercial brasileira. O desfecho tende a definir, por vários anos, o equilíbrio entre proteção da indústria e acesso barato a importados.
O que é a MP das blusinhas e como ela está relacionada à guerra comercial?
A MP das blusinhas zera o imposto de importação de 20% para compras internacionais de até US$ 50, feitas principalmente em plataformas digitais. A medida insere o Brasil na disputa da guerra comercial porque, ao baratear importados de países como a China, pressiona a indústria local justamente quando parceiros como os EUA elevam tarifas contra produtos brasileiros.
Como a tarifa de Trump impacta os empresários brasileiros na guerra comercial?
As novas sobretaxas de 12,5%, somadas a tarifas que chegam a 25% em alguns setores, encarecem as exportações brasileiras para os EUA e reduzem a competitividade das empresas locais. Ao mesmo tempo, a isenção para pequenas compras importadas facilita a entrada de produtos estrangeiros no mercado interno, o que faz empresários enxergarem um duplo prejuízo na guerra comercial.
Quais setores do Brasil são mais afetados pela guerra comercial entre EUA e China?
No contexto atual, os mais afetados são têxtil, confecções, componentes eletrônicos, calçados e parte do varejo físico. Essas áreas enfrentam, ao mesmo tempo, concorrência de produtos asiáticos baratos nas plataformas digitais e maior dificuldade de acesso ao mercado americano, que aplica novas tarifas e investiga práticas comerciais e trabalhistas na cadeia produtiva.
Por que empresários brasileiros estão reagindo à MP das blusinhas após o tarifaço de Trump?
Com as exportações ao mercado americano ameaçadas pelas novas tarifas, a indústria busca compensar perdas protegendo o mercado interno. A MP das blusinhas é vista como um facilitador de importações de baixo valor, especialmente da Ásia, o que agrava a competição. Por isso, entidades empresariais usam o tarifaço de Trump como argumento para exigir a volta da taxação ou medidas compensatórias.
Como a guerra comercial entre EUA e China influencia a economia brasileira atualmente?
A disputa entre EUA e China reconfigura cadeias produtivas e leva as duas potências a aumentar tarifas e barreiras. O Brasil é afetado quando exporta para mercados mais protegidos e, ao mesmo tempo, recebe mais produtos chineses buscando destino alternativo. A MP das blusinhas, ao baratear essas importações, amplifica o impacto da guerra comercial sobre a indústria nacional.
Quais medidas o governo brasileiro está tomando para enfrentar a guerra comercial dos EUA?
O governo mantém a defesa da MP das blusinhas, mas avalia instrumentos de proteção, como investigações antidumping, cotas e salvaguardas para setores mais vulneráveis. A área econômica também monitora o aumento das importações de pequeno valor e discute socorros específicos a indústrias atingidas pelo tarifaço americano, enquanto define a estratégia diplomática e comercial para responder às tarifas de Trump.