Por que a recuperação trava Luiz Henrique e o Botafogo hoje

Impasses na negociação e restrições financeiras complicam a situação do atacante no Botafogo.
Redação NC News
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O Botafogo enxerga em Luiz Henrique, hoje no Flamengo, um reforço de impacto, mas esbarra em dois obstáculos difíceis de contornar: a recusa de Danilo em ir para o Zenit e as amarras da recuperação judicial que limita qualquer investimento pesado.

Troca com o Zenit encalha na vontade de Danilo

O desenho original da operação parecia simples no papel. O Zenit, da Rússia, demonstra interesse no volante Danilo. Luiz Henrique, que já passou pelo futebol russo, entra na conversa como moeda de troca. O Botafogo tenta costurar uma engenharia em que não desembolsa dinheiro vivo, apenas troca ativos de valor semelhante.

Na leitura da diretoria alvinegra, a operação se encaixa nas regras da recuperação judicial porque não aumenta a dívida, apenas substitui um patrimônio por outro. O jornalista Thiago Franklin descreve assim o raciocínio do clube, em seu canal no YouTube: “Quando o Danilo colocou antes da Copa do Mundo que existia sua vontade de sair do clube, e um dos interessados foi o Zenit, o Botafogo pensou ‘por que não fazer essa troca?’ Porque seria uma troca de ativos”.

Ele reforça que, para o departamento jurídico, a permuta entre jogadores não fere o plano aprovado na Justiça. “Mesmo com uma recuperação judicial, você trocar ativos não impacta em nada em relação a você estar gastando muito, a você não estar gastando muito. Então não seria algo que impactaria em uma recuperação judicial, já que você trocaria um ativo gigantesco por outro ativo gigantesco. Você está trocando uma cobertura por outra cobertura”, afirma.

O desenho cai por terra quando Danilo fecha a porta para a Rússia. O volante, peça central da ideia, deixa claro internamente que não pretende se transferir para o Zenit neste momento. “Aí houve toda essa questão. O Danilo fica no Botafogo e deixa claro que não quer ir pelo menos por ora para o Zenit”, relata Thiago Franklin.

Venda milionária não vira dinheiro livre em caixa

Com a troca travada pela vontade do jogador, o Botafogo passa a olhar outro caminho: vender Danilo para mercados onde ele aceita jogar e tentar usar essa receita para chegar a Luiz Henrique. A lista de possibilidades inclui Inglaterra, França, Alemanha, Bélgica, Coreia e China.

Os números em discussão são altos. Uma transferência de Danilo por algo em torno de 35 milhões de euros colocaria o volante no patamar das grandes vendas recentes do futebol brasileiro. No cenário ideal para o Botafogo, parte desse valor ajudaria a atacar o sonho de contratar Luiz Henrique, apelidado de Pantera Negra, por cerca de 40 milhões de reais.

Esse “ideal”, porém, não resiste ao exame jurídico. O clube está em plena recuperação judicial, com dívidas sob supervisão de uma Assembleia de Credores e de um juiz responsável por qualquer movimento que possa pressionar o fluxo de caixa. Thiago Franklin resume o impasse: “Aí você vai me fazer uma pergunta, ‘TF, mas se o Botafogo vender o Danilo para o futebol inglês, francês, alemão, belga, coreano, chinês, não importa, pelos valores de 35 milhões (de euros), isso poderia gerar um tipo de proposta financeira pelo Luiz Henrique?’ Não, é diferente”.

O dinheiro que entraria com a venda do volante não é dinheiro livre, reforça o jornalista. Precisaria obedecer ao plano de pagamento de credores. “Porque se o dinheiro entrar no caixa do Botafogo, o Botafogo está ainda em uma recuperação judicial. O Botafogo precisa passar por uma Assembleia de Credores. Como que você, em uma Assembleia de Credores, que está em busca de você diminuir as dívidas, como que você vai investir mais 40 milhões?”, questiona.

Na avaliação dele, o Judiciário tende a brecar qualquer aventura. “É complexo, dificilmente o juiz autorizaria um movimento do Botafogo como esse no mercado, fazer um investimento pesado em um jogador”, completa.

Clube engessado, elenco em xeque e mercado em compasso de espera

A situação coloca o departamento de futebol do Botafogo em um equilíbrio delicado. A comissão técnica pede reforços para manter o time competitivo, sobretudo diante da perspectiva de perder um titular como Danilo. A diretoria, no entanto, opera com freios internos e externos.

Internamente, há a necessidade de preservar o mínimo de previsibilidade financeira em meio ao processo judicial. Externamente, pesam os olhos de credores, da Justiça e do mercado, que observam cada passo do clube. Qualquer contratação robusta vira alvo de questionamento: por que destinar 40 milhões de reais a um atacante, e não a reduzir dívidas com salários atrasados, acordos trabalhistas e execuções fiscais?

O impacto atinge mais do que o Botafogo. Flamengo e Zenit, apesar de envolvidos na conversa, veem a negociação perder fôlego antes mesmo de avançar para uma mesa formal. O clube rubro-negro convive com a indefinição sobre o futuro de Luiz Henrique, mas, diante do cenário alvinegro, passa a trabalhar com a possibilidade concreta de seguir com o jogador por mais tempo.

O próprio atacante permanece em compasso de espera. Seu nome circula em diferentes conversas de mercado, no Brasil e fora, e a torcida busca informações sobre o time atual de Luiz Henrique, sua posição em campo e a chance de retorno definitivo ao futebol brasileiro. Nada disso, porém, se materializa enquanto potenciais compradores esbarram em limitações financeiras próprias ou em situações jurídicas complexas como a do Botafogo.

Danilo, por sua vez, ganha protagonismo fora de campo. Ao recusar a ida ao Zenit, impõe sua vontade e redefine os rumos da negociação. O volante quer sair do clube, mas em condições que façam sentido para sua carreira e para a família, o que inclui evitar, por ora, o futebol russo.

Perspectiva: Botafogo depende do tempo da Justiça

No curto prazo, o cenário mais provável é de manutenção da paralisia. O Botafogo continua tentando abrir conversas com clubes de outras ligas por Danilo, de olho nos 35 milhões de euros que podem aliviar o caixa. Mesmo que uma venda se concretize, a aplicação desse dinheiro em reforços de peso depende de sinal verde da Assembleia de Credores e do juiz responsável pela recuperação.

Enquanto o processo corre no ritmo do Judiciário, o clube tende a priorizar a execução do plano de pagamento de dívidas. Isso reduz drasticamente a margem para contratações acima da média do mercado brasileiro. A consequência prática é um Botafogo mais contido, com movimentos cirúrgicos, apostando em oportunidades de baixo custo e negociações criativas que não exijam grandes desembolsos.

Luiz Henrique segue como desejo declarado, mas distante. O interesse existe, os números são conhecidos, o jogador agrada à torcida e à comissão técnica. A equação financeira e jurídica, porém, não fecha. Até que o clube avance em sua recuperação judicial e recupere capacidade de investimento, a possibilidade de ver o atacante com a camisa alvinegra permanece mais perto da hipótese do que da realidade.

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