Governo Lula vê pior crise com a Argentina desde a redemocratização após ataques de Milei

Sem prazo para retorno do embaixador a Buenos Aires, Planalto avalia que tensão com Javier Milei representa o momento mais grave das relações entre Brasil e Argentina em mais de quatro décadas
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O governo do presidente Lula (PT) considera que a crise diplomática com a Argentina atingiu o ponto mais crítico desde a redemocratização. A avaliação é compartilhada por integrantes do Palácio do Planalto, do Ministério das Relações Exteriores e pela embaixada brasileira em Buenos Aires, em meio ao agravamento das tensões provocado pelas declarações do presidente argentino, Javier Milei.

O diagnóstico ocorre no momento em que o governo brasileiro mantém, sem prazo para retorno, o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, em Brasília. O diplomata foi chamado para consultas após Milei participar da convenção nacional do PL, que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República, ocasião em que voltou a atacar o presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Embaixador segue em Brasília

Segundo fontes da diplomacia brasileira, a permanência de Bitelli no Brasil é uma forma de demonstrar o descontentamento do governo com a postura do presidente argentino. O retorno do embaixador dependerá do desenrolar da crise e de eventuais movimentações por parte do governo de Javier Milei.

Na segunda-feira (27), Bitelli reuniu-se por cerca de 40 minutos com o ministro das relações exteriores, Mauro Vieira, antes da viagem do chanceler ao Peru. Os dois devem voltar a conversar após o retorno do ministro ao Brasil. O diplomata também teve um encontro com Lula durante evento oficial no Itamaraty.

Além da convocação do embaixador braisleiro, Mauro Vieira chamou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para manifestar formalmente a insatisfação do governo brasileiro com as declarações de Milei.

Planalto vê maior crise em mais de 40 anos

A avaliação do governo é de que o atual impasse representa a maior crise diplomática entre Brasil e Argentina desde o processo de redemocratização.

O assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Celso Amorim, afirmou à imprensa que este é o momento mais delicado da relação bilateral das últimas décadas.

A leitura é compartilhada por interlocutores do chanceler Mauro Vieira e pelo próprio embaixador Julio Bitelli. Segundo integrantes do governo, a última crise de proporções semelhantes ocorreu em 1973, durante o impasse envolvendo o Tratado de Itaipu, quando a Argentina contestou o acordo firmado entre Brasil e Paraguai para exploração das águas da Bacia do Paraná.

Desde então, apesar de divergências pontuais – incluindo o período de distanciamento político entre os ex-presidentes Jair Bolsonaro e Alberto Fernández -, os dois países mantiveram canais permanentes de diálogo diplomático.

Ataques de Milei elevaram tensão

O estopim da crise atual ocorreu após Javier Milei discursar na convenção do PL e chamar Lula de “presidiário” e Alexandre de Moraes de “lixo careca”.

O governo brasileiro interpreta as declarações como um ataque direto às instituições brasileiras e decidiu responder por meio de instrumentos diplomáticos, evitando uma escalada verbal entre os chefes de Estado.

Questionado sobre as falas do presidente argentino, Lula evitou responder diretamente. Ao ser abordado pela imprensa, limitou-se a ironizar: “Quem é esse cara?”.

Estratégia é responder institucionalmente

Apesar do endurecimento na relação diplomática, o governo brasileiro busca preservar os canais institucionais e evitar prejuízos às relações comerciais entre os dois países.

Porém, até o momento, segundo fontes da diplomacia, o governo argentino não sinalizou que pretende apresentar qualquer pedido formal de desculpas, cenário que mantém indefinida a volta do embaixador brasileiro a Buenos Aires.

Integrantes do Planalto consideram que Milei atua de forma alinhada ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em uma tentativa de influenciar o cenário político brasileiro às vésperas das eleições.

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