Larissa Monteiro da Costa admite à Polícia Civil ter matado o próprio recém-nascido em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e aponta o companheiro, Bruno Lucas Ribeiro da Silva, como cúmplice. O casal está preso e autuado por homicídio qualificado, após a criança nascer com vida e, segundo o relato da mãe, ser morta logo depois do parto.
Depoimento no hospital expõe versões conflitantes
O caso ganha corpo nesta semana, depois do depoimento formal de Larissa, prestado no hospital e atualizado pela polícia no dia 27. A confissão contrasta com a primeira narrativa de Bruno, que tenta se afastar da acusação de assassinato e admite apenas ter manipulado o corpo do bebê.
Em declaração aos investigadores, o pai sustenta que sua participação se limita ao momento posterior à morte. “Eu só enrolei e coloquei ele na sacola”, afirma Bruno, ao ser questionado sobre o que fez com o recém-nascido. A fala tenta caracterizar sua conduta como ocultação de cadáver, mas a nova versão da mãe pressiona a investigação para mantê-lo no centro da cena do crime.
A Polícia Civil de Duque de Caxias trata o episódio como homicídio qualificado contra vítima em situação de extrema vulnerabilidade. A criança nasce viva, chora, e, ainda assim, não recebe qualquer socorro, segundo o relato da mãe. A contradição entre os depoimentos abre uma disputa de versões que agora orienta a próxima etapa da apuração.
Do parto improvisado à decisão de matar
Larissa conta aos agentes que já sabe da gravidez há cerca de dois a três meses e repete que não quer a criança. Diz que pretende doar o bebê ou deixá-lo com o companheiro, mas não o criar. O histórico se soma a uma rotina de dificuldades e tensão familiar, descrita de forma fragmentada no inquérito.
Nos dias anteriores ao parto, ela relata uma queda enquanto corre para pegar um ônibus, seguida de fortes dores. Ainda assim, não procura atendimento médico imediato. O nascimento acontece de forma improvisada, sobre um pedaço de papelão, na varanda da casa da avó dela, em Duque de Caxias, sem equipe de saúde, sem estrutura mínima, sem qualquer tipo de apoio profissional.
Segundo o depoimento, o bebê vem ao mundo chorando. O pai demora a chegar e encontra a criança viva. O choro, que em circunstâncias normais seria sinal de alívio, vira o marco de uma decisão brutal. Larissa afirma que, diante da cena, comunica ao companheiro que não quer o filho. Ele, ainda conforme a versão dela, responde que também não quer.
A partir desse ponto, a investigação trabalha para recompor os minutos seguintes, decisivos para a configuração do crime. A mãe descreve a participação ativa do pai na morte e diz que, depois do ato, entra na casa e não volta a ver o bebê. Relata que Bruno retorna pouco depois com um comentário que reforça a crueldade do episódio: ele diz que o recém-nascido ainda demonstra resistência. “Ele entrou lá e falou: ‘Ele é muito forte, ele chorou muito ainda’”, conta Larissa aos policiais.
Ela afirma ainda que pede ao companheiro que enterre o corpo. A fala indica tentativa de fazer o bebê desaparecer, elemento que sustenta a tese de homicídio seguido de ocultação, e não apenas a participação de um terceiro na fase posterior ao crime.
Investigação mira dinâmica do crime e motivação
As versões divergentes empurram a Polícia Civil para uma apuração minuciosa. Peritos trabalham com laudos para determinar a causa da morte, o tempo de vida do bebê após o parto e se há sinais de violência direta ou asfixia. O objetivo é confrontar os relatos com evidências físicas e telefônicas, além de ouvir familiares e vizinhos que possam reconstruir o ambiente em torno da gestação e do parto.
O enquadramento por homicídio qualificado coloca o caso no rol dos crimes mais graves previstos no Código Penal, especialmente por envolver vítima recém-nascida. A condição de total incapacidade de defesa e o vínculo de parentesco pesam na interpretação jurídica. A investigação tenta mapear se há elementos de prévia intenção de matar, como planejamento, tentativas de esconder a gravidez ou conversas em que o casal discuta o destino do bebê.
O Ministério Público acompanha os passos da polícia e tende a avaliar, após a conclusão do inquérito, se oferece denúncia por homicídio qualificado contra os dois ou se diferencia o grau de participação de cada um. A divergência entre as falas abre espaço para estratégias de defesa distintas e disputas sobre quem executa o quê na cena do crime.
Violência extrema expõe falhas de proteção
O assassinato de um recém-nascido por seus próprios pais atinge em cheio a comunidade de Duque de Caxias. O caso sintetiza a falha de uma rede que deveria ter identificado uma gravidez indesejada, oferecido apoio psicológico, orientação e alternativas seguras. A ausência de pré-natal eficaz, de acompanhamento social e de suporte familiar se mistura à violência extrema, criando um cenário de abandono em múltiplos níveis.
Na prática, o episódio mobiliza três frentes do poder público: segurança, assistência social e saúde. A polícia se ocupa da responsabilização criminal; equipes de assistência podem ser acionadas para acompanhar familiares e moradores mais próximos, que lidam com o choque emocional; e a saúde pública é chamada a rever estratégias para localizar gestantes em situação de vulnerabilidade, antes que tragédias assim se consumem.
Especialistas em violência doméstica costumam apontar que crimes contra recém-nascidos raramente surgem do nada. Costumam ser o desfecho de uma cadeia de negligências, conflitos afetivos, pobreza extrema, transtornos mentais não tratados ou pressão familiar. O inquérito em Duque de Caxias ainda não esclarece qual combinação de fatores leva o casal ao limite, mas já é suficiente para reabrir o debate sobre proteção infantil na Baixada Fluminense.
A repercussão local cria pressão por respostas rápidas. Moradores cobram presença mais constante do Estado em territórios vulneráveis, não só com viaturas, mas com equipes de saúde da família, psicólogos e conselheiros tutelares. A discussão sobre lista de crimes e tipos penais volta à superfície, mas, fora do ambiente jurídico, a pergunta central permanece: como impedir que uma vida recém-iniciada seja interrompida pelos próprios responsáveis por protegê-la?
Próximos passos do caso e efeitos duradouros
O casal segue preso enquanto a Polícia Civil avança nas diligências, coleta de provas e laudos periciais. A expectativa é de que o inquérito seja concluído em breve e encaminhado ao Ministério Público, que decidirá pela denúncia formal por homicídio qualificado. A partir daí, o caso tende a seguir para a Justiça, com possível júri popular, dado o tipo de crime e o impacto social.
Na esfera institucional, a apuração pode impulsionar ações coordenadas entre prefeitura, governo estadual e Judiciário para reforçar protocolos de atendimento a gestantes em risco, inclusive com monitoramento mais rígido de casos em que a gravidez é claramente rejeitada. Em Duque de Caxias, organizações que atuam com infância e violência de gênero já acompanham o caso e defendem que ele não termine quando o processo criminal se encerrar.
A morte do recém-nascido, ainda em circunstâncias a serem totalmente esclarecidas, deve permanecer como um ponto de inflexão na discussão sobre proteção à primeira infância na Baixada Fluminense. O desfecho judicial pode levar anos, mas a urgência por políticas de prevenção, apoio psicológico e presença efetiva do Estado nas famílias vulneráveis se impõe agora.