O gari Diêgo Rafael da Silva, 19, morre atropelado enquanto trabalhava na coleta de lixo na Rua do Bosque, zona norte de São Paulo. O carro que o atinge é dirigido pelo empresário chinês Guofang Huang, 53, que, segundo a polícia, está embriagado e tenta fugir em seguida.
Noite de trabalho interrompida por um carro em alta velocidade
Diêgo integra a equipe de coleta havia dois meses e está em mais um turno noturno quando o acidente ocorre, por volta de 22h40 de domingo. O caminhão de lixo permanece parado na via, enquanto os garis recolhem sacos e caçambas.
Nesse momento, o carro de Huang acerta Diêgo em cheio. O impacto arremessa o jovem contra a parte frontal do caminhão. Colegas e moradores chamam socorro, e o gari é levado a um hospital da região, mas não resiste aos ferimentos.
O boletim de ocorrência registra que o motorista não para para prestar ajuda. Um motoboy que presencia a cena passa a seguir o veículo e consegue fazer com que o empresário retorne ao local algum tempo depois.
Quando a polícia aborda Huang, ele é submetido ao teste do bafômetro. O aparelho aponta 0,73 mg de álcool por litro de ar expelido pelos pulmões, mais que o dobro do limite de 0,34 mg/l considerado crime pela legislação de trânsito.
Dor da família e rotina de risco para garis
A notícia da morte chega à família de Diêgo ainda na madrugada. A mãe, Elineide da Silva, descreve o filho como um jovem dedicado ao trabalho e à casa. “Meu filho era maravilhoso, obediente em tudo. Tudo o que ele ia fazer perguntava para mim e para meu esposo, se podia fazer”, diz. “Se eu falasse não para ele, era não. Era um menino família mesmo. Não tem o que falar mal do meu filho, sempre sorridente.”
Ela conta que o rapaz havia pedido demissão do emprego anterior para assumir a vaga de gari, em busca de um salário um pouco maior. O objetivo era sustentar a esposa, grávida do segundo filho, e cuidar da filha de 1 ano e 3 meses.
“Aconteceu o que eu mais temia. Levaram a vida do meu filho. Um bêbado, um homem bêbado”, afirma, em prantos. “Foi-se embora um pedaço de mim. Agora como eu vou viver sem meu menino? Era para Deus ter me levado na vaga dele e deixado ele aí para criar os filhos dele.”
Elineide cobra responsabilização do motorista. “Eu quero justiça pelo meu filho porque ele saiu para trabalhar e vai voltar num caixão.” Entre o luto e a revolta, a família tenta entender como seguirá sem a renda e a presença do jovem, que se torna o principal provedor da casa.
Pressão por justiça e mobilização dos trabalhadores
O caso ganha repercussão rápida entre colegas de Diêgo e trabalhadores da limpeza urbana em São Paulo. Gari é um dos serviços essenciais que permanecem nas ruas em qualquer horário, expostos ao trânsito intenso e à imprudência de motoristas. A morte do jovem explicita, de forma brutal, a vulnerabilidade desses profissionais.
Em solidariedade à família e em protesto contra a insegurança no trabalho, equipes de coleta paralisam parcialmente o serviço em bairros das zonas norte e oeste da capital. O Siemaco, sindicato que representa os trabalhadores de limpeza urbana, organiza um ato em frente ao 7º Distrito Policial, na Lapa, para homenagear Diêgo e cobrar justiça.
Nas faixas e discursos, sindicalistas associam o atropelamento à falta de fiscalização efetiva contra motoristas alcoolizados e à ausência de medidas de proteção para garis nas vias públicas. Eles defendem campanhas permanentes de conscientização sobre respeito aos profissionais de limpeza e limites de velocidade em trechos de coleta.
A morte do jovem também acende um alerta entre empresas de transporte e motoristas profissionais. A pressão por cumprimento rigoroso das normas de trânsito aumenta, inclusive com cobrança por exames toxicológicos e educação continuada para condutores de diferentes categorias, de motoristas de carro particular a motoristas de caminhão.
Motorista segue preso e defesa evita comentar caso
Depois de detido no local, Guofang Huang é levado à delegacia e tem a prisão em flagrante registrada. Ele passa por audiência de custódia, na qual a Justiça converte a detenção em prisão preventiva, sem prazo definido para terminar.
A defesa do empresário, feita pelos advogados Lucas Quintela e Jéssica Narjara Camillis, divulga nota em que ressalta as garantias constitucionais de qualquer acusado, como o direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência.
“Por respeito à investigação, aos familiares da vítima e ao próprio andamento do processo, a defesa não fará comentários sobre o mérito dos fatos neste momento, reservando-se a manifestar-se exclusivamente perante as autoridades competentes e, oportunamente, quando houver acesso integral aos elementos da investigação”, afirmam os advogados.
O inquérito permanece em andamento. A polícia reúne depoimentos de testemunhas, imagens de câmeras de segurança da região e laudos periciais. A Promotoria deve analisar o material antes de definir a acusação formal, que tende a incluir homicídio na direção de veículo sob efeito de álcool.
Risco cotidiano e debate sobre segurança viária
O atropelamento mortal expõe um conflito que se repete nas grandes cidades: o encontro entre a rotina invisível de quem mantém as ruas limpas e a imprudência de motoristas alcoolizados. Garis trabalham muitas vezes à noite, em vias estreitas, disputando espaço com carros, motos e caminhões, sem barreiras físicas de proteção.
Especialistas em trânsito e entidades de trabalhadores veem nesse tipo de caso um gatilho para endurecer a fiscalização de motoristas sob efeito de álcool, com mais blitzes e punições efetivas. Também defendem mudanças operacionais na coleta, como reforço de sinalização nos caminhões, iluminação, equipamentos refletivos e treinamento contínuo para reduzir riscos nas operações de rua.
Na prática, a morte de Diêgo afeta diretamente sua esposa, a filha pequena e o bebê que está por vir, além de abalar a categoria de garis. A tragédia tende a alimentar discussões sobre políticas públicas específicas para proteger esses trabalhadores e sobre a responsabilidade de quem insiste em dirigir depois de beber.
Enquanto o processo criminal avança, a família espera que o caso não seja esquecido. Nas palavras de Elineide, o pedido é claro: que a vida do filho não se resuma a mais um número nas estatísticas de trânsito de São Paulo.