Dos R$ 30 bi de crédito para táxi, só R$ 10 bi são liberados nessa quarta

Governo enfrenta dificuldades para liberar crédito integral destinado a motoristas de táxi e aplicativos.
Redação NC News
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Uma linha de crédito de R$ 30 bilhões criada para financiar carros, motos e bicicletas de motoristas de aplicativo e táxi emperra no sistema financeiro e deve liberar menos de um terço do previsto.

O programa, lançado para impulsionar a renovação de frota desses profissionais, avança lentamente nos bancos mesmo com garantia federal, aumentando o desgaste entre o governo Lula e o setor financeiro.

Crédito bilionário parcelado

Interlocutores do governo e do mercado financeiro projetam que, no cenário mais otimista, apenas cerca de R$ 10 bilhões em empréstimos sejam efetivamente contratados. “Apesar dos R$ 30 bilhões de linha de crédito disponibilizados pelo governo, o cenário mais otimista é que sejam tomados em empréstimos cerca de um terço desse valor”, escrevem Fabio Graner e Manoel Ventura.

Desde a criação da linha, em maio, os bancos fecharam algo entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões em contratos. O volume representa o dobro do que foi tomado no início da operação, mas está longe da vitrine bilionária anunciada pelo Planalto.

O resultado frustra motoristas que contavam com financiamento facilitado para trocar veículos envelhecidos ou finalmente comprar um carro, moto ou bicicleta para entrar nas plataformas digitais. Sem renovação de frota, muitos seguem rodando com automóveis antigos, mais caros de manter e menos competitivos em aplicativos e corridas de táxi.

Lula mira bancos, mas o governo se divide

Diante do ritmo fraco, Lula reúne auxiliares econômicos e políticos e, segundo relato de Graner e Ventura, parte para o ataque. “Após a reunião de ontem com seus auxiliares, o presidente Lula criticou os bancos, que estariam criando dificuldades para conceder os empréstimos, mesmo contando com garantia federal para uma parcela das operações.”

No discurso oficial, o problema está na “má vontade” das instituições financeiras, acusadas de impor barreiras burocráticas, exigências de renda difíceis de comprovar e análises de risco mais duras do que o esperado, apesar da cobertura parcial do Tesouro.

Dentro do governo, porém, a leitura é menos unânime. A própria concepção do programa gera controvérsia desde o início. A ideia nasce na Secretaria de Comunicação da Presidência, de olho em um público onde o presidente enfrenta rejeição crescente: motoristas de aplicativo e táxi.

Setores da equipe econômica resistem à proposta desde a gestação. “Essa versão de linha de crédito incentivada para a compra de carros não tem grandes entusiastas no governo e seu fraco desempenho de certa forma serve de alento para as alas que achavam a ideia ruim”, apontam Graner e Ventura. A mesma avaliação vale para a linha destinada a motos e bicicletas, voltada a entregadores.

Motoristas, entregadores e bancos no mesmo impasse

Na prática, a trava atinge três frentes ao mesmo tempo. Motoristas de táxi e de Uber, 99 e outras plataformas veem a chance de financiar um táxi carro mais novo ou entrar no setor escapar na burocracia bancária. Entregadores que precisam de motos e bicicletas para continuar na ativa ficam expostos a veículos precários e inseguros.

O efeito ricochete aparece na mobilidade urbana: menos renovação de frota significa mais veículos velhos na rua, mais gasto com manutenção e maior risco de acidentes, especialmente para quem trabalha mais de 10 horas por dia em grandes cidades como São Paulo e Rio.

Os bancos, por sua vez, enxergam um público de renda instável, marcado por informalidade, histórico de endividamento e forte exposição a oscilações de demanda. Mesmo com a garantia federal parcial, as instituições se mostram reticentes em assumir o restante do risco de calote num ambiente de juros ainda elevados.

Dentro da Esplanada, integrantes da área econômica aproveitam os números modestos para argumentar que o impacto macroeconômico do programa é limitado. A tese serve de escudo contra críticas de que o governo estaria afrouxando o crédito em sentido contrário ao aperto monetário do Banco Central.

‘Desenrola 2.0’ avança, crédito para veículos patina

Enquanto o financiamento de veículos não deslancha, o governo comemora outro front: o “Desenrola 2.0”, programa de renegociação de dívidas em massa. Segundo o Ministério da Fazenda, a iniciativa já reestrutura R$ 22 bilhões em débitos e acaba de ser prorrogada até 31 de agosto.

O contraste é evidente. Medidas que aliviam o peso das dívidas antigas mostram adesão alta, inclusive dos próprios bancos, interessados em recuperar parte do que perderiam. Linhas de crédito novas, voltadas a investimento em veículos, avançam bem menos.

No caso dos motoristas de aplicativo, muitos estão negativados e tentam primeiro limpar o nome pelo Desenrola antes de cogitar tomar um novo financiamento. Outros temem comprometer uma renda que oscila mensalmente com uma parcela fixa por anos, ainda que a propaganda oficial prometa juros menores.

Entre técnicos, ganha força a avaliação de que o dinheiro reservado à linha de veículos poderia ser melhor aplicado em políticas de renda direta, subsídios a combustíveis limpos ou programas de qualificação profissional, com efeito eleitoral semelhante e menos risco de frustração.

Pressão política e risco de frustração eleitoral

No ambiente pré-eleitoral, o insucesso parcial do crédito para motoristas ameaça se tornar um problema político. A iniciativa é vendida como resposta específica a uma categoria que reclama de custos altos, ganhos em queda e falta de proteção social.

Se, ao fim, a maior parte dos R$ 30 bilhões permanece parada, Lula corre o risco de ser cobrado justamente por quem deveria se beneficiar. Motoristas que fizeram fila em agências e voltaram para casa sem aprovação sentem na pele a distância entre discurso e prática.

No Planalto, auxiliares estudam ajustes: ampliar a parcela de risco coberta pelo governo, simplificar exigências, alongar prazos ou até redirecionar parte dos recursos para outro tipo de apoio, como subsídio temporário a juros ou bônus para quem troca veículos muito antigos.

Seja qual for o caminho, o relógio corre. Prolongada, a paralisia tende a agravar as condições de trabalho de motoristas e entregadores, pressionar serviços de táxi e app nos grandes centros e alimentar o discurso de que o governo fala para essa base, mas não consegue entregar. A próxima leva de dados sobre contratações de crédito, esperada para as próximas semanas, deve indicar se a linha de R$ 30 bilhões ganha tração ou se consolida como promessa que não saiu do papel.

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