Gabriel Bortoleto assume o centro das atenções no Hungaroring ao liderar a quilometragem do primeiro dia de testes de desenvolvimento de pneus da Pirelli para 2027. O brasileiro completa 141 voltas e ainda anota o segundo melhor tempo da sessão, consolidando espaço dentro da Fórmula 1.
Calor forte, pneus no limite e foco em 2027
O trabalho acontece nesta semana, logo após o GP da Hungria, e mira diretamente a temporada 2027. A Pirelli usa o traçado húngaro como laboratório aberto para entender como seus compostos se comportam em calor extremo.
A pista oferece exatamente o cenário desejado. A temperatura do ar chega aos 30°C e o asfalto alcança 53°C, condição que estressa o pneu ao máximo em tração, frenagem e desgaste. A fornecedora italiana busca aperfeiçoar durabilidade, aderência e queda de performance ao longo das voltas para redesenhar a estratégia de corrida das equipes no futuro próximo.
Nesse contexto, cada giro conta. Gabriel Bortoleto foi o piloto que mais esteve na pista no primeiro dia dos testes de desenvolvimento de pneus da Pirelli, reforçando o peso do volume de voltas na coleta de dados.
Como Bortoleto virou referência no dia
O roteiro do teste é simples na teoria e complexo na prática. Pirelli, equipes e pilotos dividem o dia entre simulações de corrida e de classificação, variando compostos, cargas de combustível e acertos de carro.
A base do programa está no composto C3, pensado para uso em corrida. Bortoleto cumpre stints longos com ele, reproduzindo a dinâmica de um GP inteiro em trechos fatiados. O objetivo é medir quanto o pneu aguenta, como reage ao aquecimento constante e em que ponto a perda de aderência começa a comprometer o ritmo.
Em paralelo, entram em cena os compostos C4 e C5, mais macios e voltados a volta rápida. O brasileiro e o argentino Franco Colapinto fazem simulações de classificação com essas borrachas, repetindo tentativas de volta lançada em pista quente para avaliar pico de aderência e degradação acelerada.
O resultado coloca Bortoleto em posição de destaque. Bortoleto registrou o segundo melhor tempo do dia, com 1min20s813. Só perde para Colapinto, que marca 1min20s371 e lidera a tabela de tempos. Jak Crawford, piloto reserva da Aston Martin, aparece bem mais atrás com 1min24s598, focado em um programa específico da equipe inglesa.
No balanço da quilometragem, o brasileiro também se impõe. Ele fecha o dia com 141 voltas, contra 136 de Crawford e 128 de Colapinto. A conta é simples: quanto mais voltas, maior o banco de dados da Pirelli sobre aquecimento, desgaste, bolhas e perda de desempenho. Bortoleto vira o principal fornecedor de informações da fabricante, o que pesa na avaliação interna das escuderias.
Por que esses testes mexem com o Mundial
O trabalho no Hungaroring não é apenas um compromisso burocrático entre corridas. A forma como os pneus se comportam define praticamente toda a lógica esportiva da Fórmula 1 moderna.
Um composto mais resistente permite estratégias com menos paradas, trechos longos de alta intensidade e margem maior para disputa roda a roda. Um pneu mais frágil força pilotos a administrar ritmo, reduz ataques e torna as equipes reféns do cuidado extremo com degradação. A Pirelli tenta equilibrar espetáculo, segurança e variedade tática dentro desse cenário.
Os dados coletados agora alimentam simulações de engenheiros em fábricas espalhadas pela Europa. Cada curva feita por Bortoleto, Colapinto e Crawford vira gráfico, modelo matemático e, depois, protótipo de pneu. As especificações finais dos compostos C3, C4 e C5 de 2027 vão nascer desse processo, com impacto direto em ritmo de corrida, número de pit stops e até na forma como os pilotos atacam zebras e contornam curvas de alta.
Para as equipes, a sessão é também uma chance de entender como seus carros tratam a borracha. Mesmo em um teste controlado pela Pirelli, engenheiros avaliam consumo, distribuição de temperatura entre os eixos e sensibilidade a ajustes de acerto. A engenharia, as estratégias de corrida e a logística de pneus entram no mesmo pacote de aprendizado.
Protagonismo brasileiro e próximos passos
O ganho de imagem para Bortoleto é imediato. Ele surge como peça-chave no desenvolvimento de um dos elementos mais sensíveis da categoria, mostra consistência ao completar 141 voltas e, ao mesmo tempo, velocidade ao figurar entre os mais rápidos do dia.
Dentro de um grid no qual novatos lutam por espaço, essa combinação agrada chefes de equipe e departamentos técnicos. Pilotos que interpretam bem o comportamento do carro e do pneu costumam ser valorizados em processos de decisão sobre renovações de contrato e oportunidades futuras. A participação ativa em um programa estratégico como esse pesa na construção de reputação.
A Pirelli também sai fortalecida. Ao testar em condição de calor forte, com temperatura ambiente de 30°C e asfalto a 53°C, a empresa se aproxima de cenários críticos que o Mundial encontra em vários circuitos do calendário. O objetivo é reduzir surpresas, aumentar a segurança e, se possível, entregar corridas mais abertas taticamente.
Os testes continuam hoje, novamente no Hungaroring. Gabriel Bortoleto e Franco Colapinto seguem na pista, enquanto Jak Crawford encerra sua participação, já com o programa concluído. A partir daqui, a etapa passa a ser menos visível, mas mais decisiva: engenheiros da Pirelli vão mergulhar em telemetria e análises para desenhar os compostos que estarão nos carros em 2027.
O que sai do asfalto húngaro nesta semana tende a definir o ritmo das corridas, a agressividade das estratégias e boa parte das conversas de box na próxima temporada. Para Bortoleto, fica a marca de um teste em que ele deixa de ser apenas coadjuvante e passa a influenciar diretamente o futuro da principal categoria do automobilismo.