A negativa da defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) de que ele tenha autorizado o uso de sua imagem e voz em um vídeo produzido com inteligência artificial durante a convenção nacional do PL abriu um novo capítulo na disputa eleitoral de 2026. Com a manifestação dos advogados, a responsabilidade pela produção e divulgação do material pode recair diretamente sobre a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O caso agora está sob análise da Justiça Eleitoral, que deverá decidir se o conteúdo caracteriza o uso de deepfake — tecnologia capaz de criar vídeos ou áudios sintéticos extremamente realistas por meio de inteligência artificial e cujo uso é proibido em determinadas situações durante o processo eleitoral.

O que motivou a investigação?
A polêmica começou durante a convenção do Partido Liberal que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência da República.
No evento, foi exibido um vídeo em que Jair Bolsonaro aparece afirmando estar “preso e calado por uma decisão arbitrária”, além de pedir que os eleitores recebam o filho “de braços abertos” na disputa pelo Palácio do Planalto.
Após a divulgação do material, o PT acionou a Justiça Eleitoral alegando possível uso irregular de inteligência artificial na campanha. O processo tem como relator o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Nunes Marques.
Por que a resposta da defesa muda o cenário?
Inicialmente, uma das principais dúvidas era saber se Jair Bolsonaro havia autorizado a utilização de sua imagem.
Depois de ser intimada, a defesa informou que o ex-presidente não autorizou a produção nem a divulgação do vídeo.
Com isso, a discussão jurídica muda de foco. Caso a Justiça considere que Bolsonaro realmente não participou da criação do material, a campanha de Flávio deverá explicar quem produziu o vídeo, quem autorizou sua divulgação e se houve respeito às normas eleitorais sobre o uso de inteligência artificial.

O que a campanha de Flávio deve alegar?
Nos bastidores, a expectativa é que os advogados do senador sustentem que:
- o vídeo foi divulgado durante o período de pré-campanha, quando as regras seriam diferentes da propaganda eleitoral oficial;
- o conteúdo não configuraria uma infração capaz de gerar punição;
- campanhas de outros grupos políticos também utilizam recursos de inteligência artificial em publicações nas redes sociais.
A Justiça Eleitoral deverá analisar se esses argumentos afastam ou não eventual irregularidade.
Moraes também apura possível descumprimento de medidas cautelares
Paralelamente à discussão eleitoral, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que Jair Bolsonaro explicasse se havia autorizado o uso de sua imagem.

Na decisão, o magistrado lembrou que o ex-presidente está submetido a medidas cautelares impostas pela Justiça, entre elas restrições relacionadas ao uso das redes sociais e à participação indireta em publicações digitais.
Caso tivesse ficado comprovado que Bolsonaro autorizou o vídeo, poderia haver discussão sobre eventual descumprimento dessas determinações.
Com a manifestação da defesa negando qualquer autorização, essa hipótese passa a depender da análise das provas reunidas no processo.
Uso da imagem de Bolsonaro segue estratégico para campanha
Mesmo sem participação direta na campanha, Jair Bolsonaro continua sendo considerado um dos principais ativos políticos de Flávio Bolsonaro.

O vídeo exibido na convenção reforça a estratégia de aproximar a candidatura do senador da imagem do ex-presidente, buscando mobilizar o eleitorado bolsonarista.
A situação lembra um episódio ocorrido semanas antes, quando Flávio divulgou uma carta atribuída ao pai. Na ocasião, a defesa também afirmou que Bolsonaro não sabia que o conteúdo seria publicado nas redes sociais.
Depois daquele caso, Alexandre de Moraes determinou novas restrições envolvendo o contato político entre pai e filho, citando possível reincidência no descumprimento de medidas cautelares.
O que acontece agora?
A ação segue em tramitação na Justiça Eleitoral.
O Tribunal deverá analisar:
- se o vídeo caracteriza o uso de deepfake;
- quem autorizou sua produção e divulgação;
- se houve infração às regras eleitorais;
- e se existe responsabilidade da campanha de Flávio Bolsonaro pelo material.
A decisão poderá influenciar não apenas esse episódio, mas também servir de referência para outros casos envolvendo o uso de inteligência artificial durante a campanha eleitoral de 2026.
ENTENDA O CONTEXTO
A legislação eleitoral brasileira passou a prever regras mais rígidas para o uso de inteligência artificial em campanhas, especialmente diante do avanço das chamadas deepfakes, capazes de reproduzir com alto grau de realismo a imagem e a voz de pessoas. O objetivo é evitar a disseminação de conteúdos enganosos que possam influenciar o eleitorado. No caso envolvendo a campanha de Flávio Bolsonaro, a Justiça agora analisa se o vídeo exibido na convenção do PL violou essas normas e quem poderá responder pela produção e divulgação do material.