A campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) entrega hoje a comunicação ao publicitário Duda Lima, na segunda troca de comando em pouco mais de um mês.
Ele substitui Alexandre Oltramari e Eduardo Fischer, que deixam a função em meio à repercussão negativa do vídeo com inteligência artificial que simulou Jair Bolsonaro na convenção do PL.
Crise do vídeo com IA acelera reviravolta
A mudança ocorre em um dos momentos mais delicados da corrida eleitoral. A convenção do PL exibiu um vídeo que recriava Jair Bolsonaro por meio de inteligência artificial, em cenário de prisão domiciliar, e gerou imediata reação jurídica e política.
O material levou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a pedir explicações à campanha. Desde então, aliados de Flávio Bolsonaro discutem uma reorientação da estratégia de comunicação para conter danos e reduzir riscos legais.
Nesse contexto, a chegada de Duda Lima é apresentada internamente como tentativa de profissionalizar o discurso, controlar crises e afastar a narrativa da campanha de experimentos de alto risco com tecnologia, especialmente em um ambiente de crescente escrutínio sobre o uso da inteligência artificial em eleições.
Nota oficial tenta mostrar transição sem ruptura
A troca é oficializada por meio de nota assinada pelo senador Rogério Marinho (PL), aliado de Flávio Bolsonaro. O texto agradece Oltramari e Fischer e busca enquadrar a saída como parte de um ciclo natural, não como ruptura.
“As contribuições dos dois foram importantíssimas e valiosas em uma etapa considerada estratégica da campanha. Que continuem colaborando para o aperfeiçoamento de nossa democracia, com toda a sua competência e profissionalismo”, diz o comunicado.
Interlocutores da campanha admitem, porém, incômodo com a instabilidade na área. Em maio, o publicitário Marcello Lopes, o Marcellão, já havia desistido do comando da comunicação antes mesmo de assumir oficialmente. “A decisão partiu dele próprio e alegou que pretendia se dedicar à sua empresa”, registra a versão oficial.
Depois da saída de Marcellão, Eduardo Fischer assumiu em meio à crise provocada pela divulgação da relação de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Pouco mais de um mês depois, ele e Oltramari deixam o posto, o que reforça a percepção de que o núcleo de marketing ainda não encontra estabilidade.
Duda Lima volta atrás na aposentadoria e retoma protagonismo
Duda Lima atuou por mais de duas décadas em campanhas eleitorais e foi um dos nomes mais influentes do marketing político profissional no país. Ganhou projeção ao comandar a estratégia de reeleição de Jair Bolsonaro, quando tentou suavizar a imagem radical do então presidente e aproximá-lo de setores moderados do eleitorado.
Após essa trajetória, anunciou publicamente uma espécie de aposentadoria da política. Em entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, declarou: “Não assino mais campanha. Eu nunca me vi sendo marqueteiro, as coisas foram acontecendo, mas eu nunca me vi fazendo isso. […] É uma decisão minha, deu. Assinar campanha eu não vou assinar mais”.
O afastamento durou pouco. Em 2024, Duda voltou à linha de frente ao coordenar a campanha de Ricardo Nunes (MDB) à Prefeitura de São Paulo, disputa marcada por ataques pessoais, judicialização e forte uso das redes sociais. A eleição terminou com a vitória do emedebista e consolidou o publicitário como referência em gestão de crises.
Durante a campanha paulistana, ele também virou notícia ao levar um soco de Nahuel Medina, assessor da equipe de Pablo Marçal, nos bastidores de um debate. O caso foi parar na delegacia, com registro de boletim de ocorrência por lesão corporal, e expôs o clima de animosidade que cercou disputas polarizadas.
Alinhamento com Valdemar e efeito dentro do PL
A escolha de Duda Lima não é apenas técnica. Ele é próximo de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, que patrocina seu nome para o comando da comunicação de Flávio Bolsonaro. O movimento reforça o peso do diretório nacional na campanha e indica alinhamento mais rígido às diretrizes partidárias.
Na prática, o PL aposta em um profissional com histórico de atuação em pleitos nacionais e municipais, que conhece o funcionamento interno da legenda e tem trânsito com a família Bolsonaro. A expectativa é que isso reduza ruídos entre campanha, partido e aliados regionais.
Para Flávio Bolsonaro, a chegada de Duda oferece a chance de reposicionar sua imagem, ainda muito associada à figura do pai e a pautas de alta polarização. A tendência é que a comunicação passe a testar discursos mais voltados a economia, segurança pública e gestão, com menos espaço para experimentos de risco como o vídeo com inteligência artificial.
Riscos jurídicos e disputa pelo campo digital
O episódio do vídeo com IA, porém, continua a assombrar a campanha. O pedido de explicações de Alexandre de Moraes mantém o tema sob investigação e abre espaço para eventuais sanções se a Justiça Eleitoral entender que houve desinformação ou uso indevido de tecnologia para enganar o eleitor.
Especialistas em direito eleitoral e comunicação política acompanham o caso como um teste de limites para o uso de inteligência artificial em campanhas brasileiras. Decisões que saírem desse processo podem balizar o que será permitido ou proibido no uso de imagens sintéticas de figuras públicas.
Enquanto isso, adversários observam o reposicionamento de Flávio Bolsonaro e de seu entorno digital. A entrada de um marqueteiro com histórico robusto em redes sociais e propaganda segmentada tende a elevar o nível da disputa on-line, empurrando outras candidaturas a revisar planos de mídia, conteúdo e reação rápida a crises.
A troca, portanto, não afeta apenas uma equipe de marketing. Redesenha o eixo de comunicação de um dos principais candidatos ao Planalto e pressiona o sistema político a enfrentar, em tempo real, o impacto da inteligência artificial nas campanhas.
Os próximos dias devem trazer os primeiros sinais da nova fase: ajustes no tom dos discursos, mudanças nas peças de TV e redes sociais e, sobretudo, a tentativa de enterrar a imagem do vídeo polêmico. A capacidade de Duda Lima de conter danos e reconstruir narrativas pode definir não só o fôlego de Flávio Bolsonaro na disputa, mas também o rumo do debate sobre tecnologia, ética e poder na eleição que se aproxima.