59% dos trabalhadores precisarão se requalificar até 2030; veja as áreas em alta

Fórum Econômico Mundial aponta mudanças nas habilidades exigidas pelo mercado e prevê novas oportunidades de emprego nos próximos anos
Redação NC News
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O mercado de trabalho entra em uma corrida contra o tempo. Em plena aceleração tecnológica, 59% da força de trabalho mundial precisa se requalificar até o fim da década, segundo o relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial. A mudança atinge empresas de todos os portes e já aparece com força nas vagas abertas no Brasil.

O estudo projeta uma troca profunda de competências: 39% das habilidades hoje exigidas tendem a ser transformadas ou tornar-se obsoletas até 2030. Enquanto 170 milhões de novas vagas devem surgir no mundo, outras 92 milhões desaparecem, pressionando profissionais e empregadores a rever planos de carreira, investimentos em treinamento e estratégias de contratação.

Tecnologia puxa novas vagas, tarefas repetitivas encolhem

A combinação de inteligência artificial, análise de dados, automação e transição energética redesenha o mapa das oportunidades. Funções ligadas a tecnologia, IA, dados, cibersegurança, saúde e sustentabilidade aparecem entre as que mais crescem, impulsionadas por investimentos em digitalização e metas ambientais mais rígidas.

O movimento oposto ocorre em atividades repetitivas e administrativas. Caixas, assistentes de entrada de dados e operadores de telemarketing estão entre os postos mais ameaçados pela automação. Esses cargos concentram tarefas padronizadas, facilmente substituídas por sistemas de autoatendimento, robôs de atendimento e softwares capazes de processar grandes volumes de informação em segundos.

No Brasil, essa reconfiguração já é mensurável. Dados do Infojobs, plataforma líder em recrutamento e seleção, mostram 3.108 vagas abertas para analista de dados, 1.463 para funções em TI e tecnologia e 1.328 para analista de marketing. As descrições das oportunidades indicam uma convergência clara: cresce a demanda por habilidades digitais e analíticas, mesmo em cargos tradicionalmente ligados à comunicação e vendas.

Requalificação deixa o RH e entra na estratégia

Para Ana Paula Prado, CEO da Redarbor Brasil, grupo que controla o Infojobs, a disputa não gira mais apenas em torno de qual tecnologia adotar. A chave passa a ser a velocidade de aprendizagem das equipes. “As ferramentas mudam rapidamente, mas a capacidade de aprender precisa permanecer dentro da organização. O diferencial competitivo não será quem adotar uma tecnologia primeiro, mas quem conseguir preparar suas equipes para acompanhar essa transformação continuamente”, afirma.

O relatório do Fórum mostra um descompasso entre a urgência da mudança e a resposta prática das empresas. Apenas metade dos trabalhadores que precisam de requalificação tem hoje acesso a programas de treinamento oferecidos pelos empregadores. A lacuna empurra parte da responsabilidade para o indivíduo, mas, na avaliação de Ana Paula, o recado também é claro para as organizações.

“O que os dados mostram é que as empresas estão contratando para funções que, em muitos casos, não existiam há cinco anos. Isso coloca uma responsabilidade direta sobre os profissionais em relação à sua atualização constante, mas também sobre as organizações: não dá para esperar que o mercado entregue profissionais prontos para funções que o próprio mercado está criando agora. Requalificação deixou de ser uma política de RH e passou a ser uma decisão de negócio”, diz.

A executiva argumenta que seguir dependendo apenas do mercado para preencher lacunas de competências sai caro e reduz a agilidade. Em áreas como tecnologia e dados, a escassez de profissionais qualificados já encarece salários de entrada, alonga processos seletivos e atrasa projetos estratégicos.

Desenvolver gente dentro de casa vira vantagem competitiva

Empresas que apostam em formar talentos internamente começam a ganhar terreno. Programas de treinamento contínuo, trilhas de carreira voltadas a novas funções e parcerias com instituições de ensino ajudam a reduzir a dependência de reposição externa e a retenção de conhecimento crítico.

“Desenvolver talentos internamente reduz a dependência de repor profissionais escassos vindos de mercado e torna o negócio mais resiliente”, afirma Ana Paula. Ela destaca que, além do custo financeiro de substituição — que inclui de meses de salário ao tempo de adaptação —, há a perda de cultura e de entendimento dos processos, fatores difíceis de recompor rapidamente.

Na visão da executiva, as organizações que se antecipam a esse movimento criam um ativo intangível decisivo. “As empresas que investem agora no desenvolvimento das pessoas que já têm dentro de casa chegam ao próximo ciclo com times mais preparados e com um ativo que o dinheiro sozinho não compra: capacidade de adaptação”, diz.

A mudança também exige outro tipo de liderança. Gestores deixam de atuar apenas como cobradores de metas e passam a ser responsáveis por criar ambientes de aprendizado permanente. Em um cenário em que tecnologias, ferramentas e modelos de negócio mudam em ciclos cada vez mais curtos, aprender se torna parte da entrega, não um extra.

Pressão sobre políticas de educação e sobre o trabalhador

A transformação das habilidades tem efeito direto sobre políticas públicas e decisões individuais de carreira. A necessidade de requalificar 59% da força de trabalho até 2030 pressiona governos, empresas e instituições de ensino a revisar currículos, ampliar programas de formação técnica e fortalecer parcerias com o setor produtivo.

Para o profissional, a mensagem é pouco confortável, mas objetiva: a formação inicial já não garante estabilidade por décadas. Atualização constante, domínio de competências digitais básicas, capacidade analítica, comunicação clara e disposição para aprender em ciclos curtos entram no centro da empregabilidade.

Do lado das empresas, cresce a percepção de que treinar não é apenas custo. Ao investir em qualificação contínua, organizações preservam conhecimento interno, ganham velocidade na implementação de novas tecnologias e reduzem o risco de ficar para trás em mercados cada vez mais competitivos.

O relatório do Fórum e os dados de contratações no Brasil sugerem um cenário em que o emprego não desaparece, mas muda de lugar. Profissionais que conseguirem migrar de tarefas repetitivas para funções mais analíticas e digitais ampliam suas chances. Companhias que estruturarem planos claros de desenvolvimento interno tendem a ocupar espaço em setores em expansão, enquanto as demais podem enfrentar gargalos de mão de obra e dificuldades para executar projetos-chave.

A próxima década se desenha como um teste de adaptação coletiva. A velocidade com que empresas e trabalhadores encararem a requalificação deve determinar quem lidera — e quem fica à margem — na nova economia movida por dados, tecnologia e sustentabilidade.

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