Franco Baresi, um dos maiores zagueiros da história do futebol e ídolo absoluto do Milan, morre nesta sexta-feira, aos 66 anos, em Milão. O clube anuncia a morte do ex-capitão e aciona uma onda imediata de comoção na Itália e no restante do mundo do futebol.
O ex-defensor, campeão mundial pela seleção italiana, lutava contra um câncer no pulmão após uma cirurgia para retirada de um nódulo realizada no ano passado. O Milan informa o falecimento em nota nas redes sociais e fala em “história em lágrimas” pela perda.
Milan em luto e a despedida do eterno capitão
O comunicado do clube resume o tamanho de Baresi para a instituição. “A história do Milan está em lágrimas pela morte de Franco Baresi. Seu exemplo e sua profundidade serão, para sempre como sua camisa número 6, parte integrante e fundamental do DNA e do caminho de todo o clube”, afirma o texto divulgado pelo time rossonero.
O Milan também destaca que a dor ultrapassa a família do ex-jogador. “As condolências que o AC Milan estende à família de Franco Baresi em um momento tão difícil são compartilhadas por todo rossonero, que sente essa perda como sua própria”, completa a nota.

Baresi é tratado em vida como sinônimo de Milan. A trajetória começa ainda adolescente nas categorias de base e cresce até se tornar o rosto de uma das eras mais dominantes do futebol europeu. O clube aposentou a camisa 6 em sua homenagem, um gesto reservado apenas a figuras consideradas insubstituíveis.
Carreira de um clube só e domínio na Europa
Franco Baresi chega ao Milan aos 14 anos e sobe ao time profissional ainda jovem. Assume a braçadeira de capitão aos 22 anos e não a abandona até a despedida dos gramados. Ao todo, disputa 719 partidas com a camisa rossonera, número que sintetiza longevidade e regularidade em alto nível.
Com ele na defesa, o Milan conquista seis Campeonatos Italianos e se afirma como potência continental. Baresi ergue três Copas dos Campeões da Europa, embrião da atual Liga dos Campeões, e ajuda a transformar o clube em referência de jogo coletivo e organização tática. A sala de troféus que leva sua assinatura direta inclui ainda duas Copas Intercontinentais, três Supercopas da Europa e quatro Supercopas da Itália.

Em campo, Baresi redefine o papel do zagueiro. Combina leitura de jogo, antecipação e liderança silenciosa. É o jogador que corrige, orienta e comanda a linha defensiva a poucos metros do meio-campo, marca registrada de um Milan que intimida adversários antes mesmo do apito inicial.
Da glória com a Itália ao drama nos pênaltis
Pela seleção italiana, Baresi soma 81 partidas. Integra o elenco que conquista o título mundial em 1982, ainda jovem, e mais tarde se consolida como referência da defesa azzurra em torneios seguintes.

Volta a ganhar protagonismo no Mundial de 1990, em casa, e, sobretudo, na edição disputada nos Estados Unidos quatro anos depois. Naquele Mundial, lidera a defesa italiana até a final contra o Brasil. Joga a decisão mesmo recém-recuperado de uma lesão no joelho, atuação que se torna símbolo de entrega e resiliência.
A história, porém, termina em frustração. Após empate sem gols no tempo normal e na prorrogação, a taça vai para os brasileiros nos pênaltis. Baresi é um dos que desperdiçam a cobrança, cena que marca a carreira, mas não apaga o respeito conquistado. O zagueiro passa a ser visto como exemplo de quem assume responsabilidade máxima em momentos de pressão extrema.

Saúde, Olimpíada de Inverno e debate sobre ex-atletas
Já fora dos gramados, Baresi segue ligado ao Milan e ao esporte italiano. A trajetória recente, porém, é atravessada pela doença. No ano passado, ele passa por cirurgia para retirada de um nódulo no pulmão e inicia tratamento oncológico contínuo. A batalha contra o câncer corre em paralelo à presença constante em eventos oficiais.
Mesmo em tratamento, Baresi participa neste ano da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina como um dos condutores da chama olímpica. A imagem do ex-capitão conduzindo o fogo, sob aplausos, reforça seu status de patrimônio da cultura esportiva italiana, para além do futebol.
A notícia de sua morte reacende discussões sobre a saúde de ex-jogadores de elite. O caso expõe a necessidade de acompanhamento médico prolongado e de suporte psicológico para atletas após a aposentadoria, fase em que muitos deixam a rotina intensa de treinos e competições, mas seguem lidando com sequelas físicas e, em alguns casos, doenças graves.

Legado, identidade e o raro compromisso com um só escudo
A perda de Baresi produz um impacto mais simbólico do que prático no futebol atual, já que ele deixa os gramados como jogador há quase três décadas. O efeito real se mede na identidade de um clube e na memória coletiva de torcedores e profissionais do esporte.
No Milan, o ex-zagueiro funciona como ponto de referência para gerações sucessivas. Jovens atletas crescem cercados de relatos sobre a maneira como ele treinava, liderava vestiários e encarava derrotas e vitórias. A camisa 6 pendurada, as imagens com a faixa de capitão e os troféus erguidos alimentam o imaginário de quem chega ao clube hoje.
O futebol, em um tempo de transferências milionárias e carreiras marcadas por passagens breves, perde um símbolo raro de fidelidade. Baresi constrói história inteira com um único escudo, do primeiro contrato profissional ao último jogo. O gesto inspira dirigentes que defendem a preservação da memória dos clubes e serve de contraponto a uma indústria cada vez mais acelerada.
A morte do ex-capitão também estimula a criação de iniciativas de memória. O Milan estuda cerimônias de despedida abertas ao público em seu estádio e pode instituir eventos anuais, exposições e ações sociais em nome de Baresi. A seleção italiana, federações e clubes de outros países já se mobilizam para homenagens em jogos oficiais, com minutos de silêncio e faixas em arquibancadas.
Nos próximos dias, Milão deve se transformar em ponto de peregrinação de torcedores em luto. A cidade que vê Baresi crescer, dominar a Europa e conduzir a chama olímpica agora se prepara para o último adeus. O legado, porém, permanece: em cada zagueiro que sai jogando de cabeça erguida, em cada clube que decide honrar seus ídolos e em cada jovem atleta que entende que liderança e lealdade ainda podem valer tanto quanto qualquer título.