Se você passou algum tempo nas redes sociais recentemente, é provável que tenha encontrado algum conteúdo sobre teste de apego. A proposta parece simples: responder a algumas perguntas e descobrir se a pessoa apresenta um padrão de apego seguro, ansioso ou evitativo.
O assunto ganhou força especialmente entre usuários interessados em entender por que determinados relacionamentos funcionam, por que algumas pessoas se afastam diante da intimidade ou por que outras sentem medo de serem abandonadas. O problema aparece quando um teste rápido passa a ser usado como uma explicação definitiva para comportamentos complexos.
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Entenda o que aconteceu
A chamada Teoria do Apego surgiu a partir dos estudos do psiquiatra e psicanalista britânico John Bowlby, que investigou a importância dos vínculos entre crianças e seus cuidadores.
Décadas depois, pesquisadores passaram a estudar como esses padrões poderiam aparecer também nos relacionamentos adultos. Em 1987, Cindy Hazan e Phillip Shaver publicaram um trabalho que ajudou a levar a teoria para o campo dos relacionamentos amorosos adultos.
Foi desse desenvolvimento que surgiram conceitos hoje muito populares na internet, como apego ansioso, apego evitativo e apego seguro.
Nas redes, entretanto, esses conceitos muitas vezes são transformados em rótulos rápidos. Uma pessoa que demora a responder mensagens, por exemplo, pode ser classificada como “evitativa”, enquanto alguém que demonstra preocupação intensa com a relação pode receber o rótulo de “ansioso”.
A psicologia, porém, trabalha com uma realidade mais complexa.
O que é o estilo de apego
O estilo de apego pode ser entendido como um conjunto de padrões relacionados à maneira como uma pessoa estabelece vínculos, lida com intimidade, procura apoio e reage a situações de proximidade ou afastamento.
Pesquisas brasileiras também estudam instrumentos específicos para avaliar o apego adulto. Um estudo publicado na revista Psicologia: Teoria e Prática, por exemplo, avaliou a estrutura da Escala Brasileira de Apego-Adulto 34 (Ebrapeg-A 34) em uma amostra de 808 participantes. A pesquisa identificou quatro fatores — seguro, temeroso, preocupado e desinvestido — e apontou indicadores de confiabilidade para a escala.
Isso ajuda a mostrar que a avaliação científica do apego é diferente de simplesmente responder a um questionário viral encontrado nas redes.
Por que os testes viralizaram
A popularização dos testes está relacionada à facilidade com que conceitos psicológicos podem ser transformados em conteúdos curtos.
Em poucos segundos, vídeos conseguem apresentar situações do cotidiano e associá-las a determinado estilo de apego. O formato facilita a identificação do público: muitas pessoas reconhecem experiências próprias na descrição e compartilham o conteúdo com parceiros, amigos ou seguidores.
A expressão “fase colega de quarto”, por exemplo, também passou a circular nas redes para descrever casais que continuam vivendo juntos, mas praticamente deixam de compartilhar intimidade e conversas pessoais. O fenômeno ajudou a alimentar o interesse por explicações psicológicas sobre relacionamentos.
O risco está em transformar uma ferramenta de reflexão em uma espécie de diagnóstico instantâneo.
Apego ansioso não significa simplesmente “ser carente”
Um dos rótulos mais comuns nas redes é o de apego ansioso.
Ele costuma aparecer associado a medo de abandono, necessidade de confirmação afetiva ou preocupação com mudanças na relação. Mas reduzir esse padrão à ideia de “carência” pode distorcer o conceito.
Da mesma forma, o apego evitativo não significa simplesmente que alguém é frio, indiferente ou incapaz de amar.
Segundo o psicólogo e pós-doutor em psiquiatria Cristiano Nabuco, ouvido pela CNN Brasil, os comportamentos observados são manifestações de padrões mais profundos. Para ele, classificar apenas a atitude visível não necessariamente revela a estrutura que está por trás dela.
O estilo de apego pode mudar?
Essa é uma das questões mais discutidas quando o assunto chega às redes sociais.
A teoria original de Bowlby considera que os padrões de apego se desenvolvem ao longo da vida e têm raízes nas primeiras relações. Mas isso não significa que uma pessoa esteja condenada a repetir exatamente os mesmos comportamentos para sempre.
Relacionamentos significativos podem proporcionar experiências diferentes das vividas anteriormente. Segundo Nabuco, essas experiências podem diluir características do padrão original e favorecer formas mais adaptativas de relacionamento, ainda que isso não signifique simplesmente apagar o padrão anterior.
Pesquisas contemporâneas também tratam os estilos de apego como padrões que podem variar entre diferentes relacionamentos e mudar ao longo do tempo, em vez de funcionarem como tipos rígidos de personalidade.
Um teste de internet pode diagnosticar alguém?
Não.
Responder a um questionário nas redes pode servir como ponto de reflexão, mas não deve ser confundido com uma avaliação psicológica completa.
No Brasil, instrumentos de avaliação psicológica utilizados por profissionais passam por processos específicos de avaliação. O Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI), mantido pelo Conselho Federal de Psicologia, reúne informações sobre instrumentos submetidos à análise e suas condições de utilização profissional.
Por isso, identificar-se com uma descrição encontrada no TikTok ou em outra plataforma não significa que a pessoa tenha recebido um diagnóstico.
O perigo de transformar o rótulo em desculpa
Conhecer padrões de comportamento pode ajudar alguém a perceber como reage diante de situações de intimidade, conflito ou afastamento.
O problema surge quando o rótulo passa a justificar comportamentos que poderiam ser questionados ou modificados.
Em vez de pensar “sou assim porque tenho apego evitativo”, por exemplo, a pessoa pode usar a classificação para encerrar a reflexão. Na avaliação do psicólogo Cristiano Nabuco, o conceito funciona melhor como ponto de partida para o autoconhecimento, e não como um veredito sobre quem alguém é.
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O que observar além do resultado
Mais importante do que descobrir um rótulo é observar como a pessoa se comporta nas relações.
Algumas perguntas podem ajudar nesse processo: existe dificuldade para confiar nos outros? A proximidade provoca desconforto? Há medo constante de abandono? A pessoa consegue falar sobre suas próprias fragilidades? Como reage quando alguém importante se afasta?
Essas questões podem contribuir para a reflexão, mas não substituem uma avaliação profissional quando existe sofrimento significativo ou dificuldades persistentes nos relacionamentos.
Entenda o contexto
O sucesso dos testes de apego nas redes faz parte de um fenômeno maior: a transformação de conceitos da psicologia em conteúdos de consumo rápido.
Termos técnicos passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano e podem ajudar a nomear experiências que antes eram difíceis de explicar. Ao mesmo tempo, quando conceitos complexos são reduzidos a poucas perguntas e três ou quatro categorias, existe o risco de perder justamente aquilo que a avaliação psicológica tenta compreender: o contexto, a história e a individualidade de cada pessoa.
Por isso, o teste viral pode ser um convite à reflexão, mas não deve ser tratado como uma sentença sobre a personalidade ou o futuro de um relacionamento.
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