O corpo da fotógrafa Ana Paula Silveira Cardoso, 29, é encontrado no Salto das Orquídeas, em Sapopema, após cinco dias de buscas nas cachoeiras do norte do Paraná. Ela desaparece ao tentar atravessar um rio com correnteza forte durante uma trilha e morre depois de ser arrastada pela água.
A amiga que a acompanhava, Ana Carolyne Camilo, sofre fratura na coluna, sobrevive e recebe alta hospitalar nesta semana. O caso expõe, de forma brutal, os riscos do ecoturismo em períodos de cheia e reacende o debate sobre segurança em áreas naturais que atraem turistas de todo o estado.
Travessia proibida, alertas ignorados e queda na correnteza
Ana Paula e Ana Carolyne saem para uma trilha no complexo de cachoeiras do Salto das Orquídeas, a cerca de 300 km de Curitiba, em uma propriedade privada que cobra entrada de visitantes, oferece camping e estrutura de restaurante na área rural de Sapopema. O destino é um mirante próximo à maior queda d’água do local, com 45 metros.
Para chegar ao mirante, as duas precisam cruzar o rio Lajeado Liso, onde o nível da água está cerca de 40 centímetros acima do normal, segundo os administradores. Funcionários alertam para o perigo e informam que o trecho está interditado por causa da cheia.

O delegado Thiago Luiz dos Santos, responsável pelo inquérito, afirma que as orientações são claras. “Elas foram orientadas que realmente no dia não dava pra tentar essa travessia por conta do nível do rio. A turma que estava aqui com excursão foi até lá e realmente comprovou isso, e mesmo assim elas teriam ido. Elas tinham o conhecimento, estavam alojadas aqui no camping, assinaram o termo de responsabilidade e teriam ido por livre e espontânea vontade, sabendo desse risco”, diz.
O dono da propriedade, Luiz Busqueti, relata que reduz o trajeto aberto aos turistas justamente por causa da condição do rio. “A gente limitou o passeio pela metade: só em partes de trilha seca, não em partes de trilha na água, que é o que é costume aqui. Então, no sábado estava proibido acessar, principalmente a última cachoeira”, afirma.
Resgate difícil em área de mata fechada
Apesar da interdição, as amigas decidem seguir até o ponto de travessia. Usam cordas para tentar cruzar o Lajeado Liso, em um trecho de água gelada, pedras escorregadias e corredeiras. Em meio à passagem, Ana Paula perde o equilíbrio, escorrega e cai na correnteza. Ana Carolyne tenta ajudar, também cai e se machuca.
A sobrevivente consegue se agarrar a uma pedra que ainda não está submersa e permanece sozinha, na mata fechada, até o dia seguinte, quando é localizada por um funcionário do Salto das Orquídeas que checa regularmente o nível do rio. O resgate conta com apoio de policiais militares. Levado ao hospital, o quadro dela revela fratura em uma vértebra da coluna. A família informa que, após dias internada, ela recebe alta.

Ana Paula desaparece no mesmo trecho. Bombeiros acreditam que ela seja arrastada pela força da água e fique presa entre pedras, em área próxima à queda principal. As buscas mobilizam equipes especializadas e se concentram em um raio de corredeiras, poços profundos e vegetação fechada.
O capitão Jackson Alexandre Machado opera o drone que, nesta quinta-feira de manhã, finalmente identifica o corpo da fotógrafa. O equipamento a localiza a 123 metros da queda da maior cachoeira. “Ela possivelmente ficou ali, enroscada numa dessas pedras. E com a diminuição do fluxo da água, com o tempo que passou também, ela pode ter boiado um pouco e isso facilitou bastante a visualização dela hoje”, explica o oficial.
Salto das Orquídeas sob pressão e inquérito de 30 dias
O complexo do Salto das Orquídeas, conhecido pelas trilhas em mata preservada, pelas imagens de cachoeiras cristalinas e pelo camping voltado a esportes de aventura, entra no centro de uma investigação que deve durar ao menos 30 dias. O delegado Thiago Luiz dos Santos já começa a ouvir turistas que estavam no local, funcionários da pousada e o próprio proprietário.
A polícia pretende extrair dados de celulares e relógios inteligentes das duas jovens para reconstruir o passo a passo da trilha, confirmar horários e checar eventuais registros em fotos e vídeos. O corpo de Ana Paula é encaminhado à Polícia Científica de Londrina, que vai definir a causa exata da morte.
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A linha de apuração segue, por enquanto, como acidente. A existência do termo de responsabilidade assinado pelas visitantes não afasta a análise sobre a eficácia das medidas de segurança. O inquérito deve avaliar se a sinalização de risco nas trilhas é suficiente, se o bloqueio do trecho perigoso é efetivo e se os avisos verbais, citados pelo delegado e pelo dono da área, atendem ao padrão esperado para um ponto turístico de grande movimento.
O Salto das Orquídeas, que há anos aparece em fotos de influenciadores, anúncios de camping e cardápios de pizzaria e restaurante voltados a viajantes de fim de semana, agora tenta administrar o impacto da tragédia na imagem do destino. Moradores, guias e empresários do entorno relatam luto e temem queda no número de visitantes nos próximos meses.
Risco no ecoturismo e cobrança por regras mais claras
O acidente expõe a tensão permanente entre o desejo de aventura e os limites impostos pela natureza. Em dias de chuva recente, rios de corredeira, como o Lajeado Liso, respondem rápido, com aumento brusco de volume e força da água. Em ambientes assim, travessias que parecem simples se transformam em armadilhas.
Para o Corpo de Bombeiros, o caso reforça a necessidade de planejamento mais rigoroso para quem busca trilhas com trechos de rio, sobretudo em áreas com grandes quedas, como a de 45 metros que marca o Salto das Orquídeas. O uso de tecnologia, como os drones empregados na localização do corpo, mostra avanço nos métodos de busca, mas também evidencia o custo de operações longas, que mobilizam equipes por vários dias.
Proprietários de áreas de ecoturismo na região norte do Paraná acompanham com atenção. A pressão por reforço de sinalização, fiscalização mais firme em trilhas de água e protocolos claros de fechamento em períodos de cheia tende a aumentar. A discussão inclui desde o controle de acesso em campings até a forma como informações de risco são apresentadas a visitantes acostumados a ver o local em fotos idílicas de cachoeiras e piscinas naturais.
No curto prazo, o turismo em Sapopema pode sentir o baque, tanto em pousadas e áreas de camping quanto em restaurantes e pizzarias que vivem do movimento de fins de semana. No médio prazo, porém, a tragédia pode servir de gatilho para uma revisão ampla das regras de segurança, com campanhas educativas, placas mais visíveis e monitoramento constante do nível dos rios.
Enquanto a família de Ana Paula se prepara para a despedida e a amiga se recupera da fratura na coluna, o inquérito policial e a discussão pública sobre a gestão de áreas naturais seguem em curso. A pergunta que ecoa na comunidade de Sapopema é se, a partir desta morte, o Salto das Orquídeas e outros roteiros de aventura do Paraná conseguirão oferecer a mesma beleza com menos risco — ou se novas vidas ainda serão colocadas à prova entre pedras, corredeiras e quedas d’água.