Senado avalia venda de gasolina sem etanol e impacta preço hoje

Proposta no Senado pode alterar composição da gasolina e afetar os preços nas bombas ainda hoje.
Redação NC News
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Uma proposta popular para liberar a venda opcional de gasolina sem etanol e com diferentes misturas recebe 21.216 apoios no site do Senado e entra na pauta da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH). A iniciativa, de autoria do cidadão Felipe O. L. D. R., mira diretamente a política atual que determina 32% de etanol anidro em toda gasolina vendida no país.

O avanço da ideia abre uma disputa sobre o futuro da matriz de combustíveis brasileira, contrapondo a liberdade de escolha de nichos específicos de consumidores aos interesses da cadeia do etanol e às metas ambientais do governo.

Do site do Senado à comissão: como a proposta avança

A sugestão nasce como Ideia Legislativa no portal do Senado em 19 de julho e atinge o mínimo de 20 mil apoios exigidos para sair da gaveta. Em poucos dias, ultrapassa essa marca e chega a 21.216 manifestações favoráveis, o que obriga a Casa a transformá-la em Sugestão Legislativa e enviá-la à CDH.

Na comissão, um senador relator será designado para analisar o texto, colher contribuições técnicas e políticas e, ao final, apresentar um parecer. O documento poderá recomendar a rejeição ou a transformação da proposta em projeto de lei, que então seguiria o rito normal de tramitação no Senado e, depois, na Câmara.

O texto que chega à CDH é objetivo: quer garantir a oferta adicional de três produtos nos postos brasileiros. A gasolina pura, sem etanol. A gasolina E10, com 10% de etanol fixo. E a manutenção da mistura atual de 32%, que seguiria disponível ao consumidor que desejar.

Choque com a política atual de etanol na gasolina

A proposta surge em meio à decisão recente do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), presidido pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que eleva temporariamente o teor obrigatório de etanol anidro para 32% por 180 dias, com vigência iniciada em 1º de janeiro. A medida atende à pressão de produtores de etanol e se apoia em testes técnicos do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT).

Os estudos do IMT avaliam misturas de 30% e 32% de etanol em motores que não são flex e concluem que, nos veículos testados, não há alteração relevante de desempenho com a proporção mais alta. O CNPE usa esse relatório como base para autorizar a nova especificação.

O Ministério Público Federal em Minas Gerais, porém, contesta o movimento na Justiça. Em ação civil pública, pede a suspensão da mistura de 32%, sob o argumento de que a norma abre espaço para combustíveis com até 34% de etanol, sem validação técnica específica para esse limite máximo.

Consumidor de nicho x cadeia do etanol

O embate chega ao Senado pelo flanco do consumidor especializado. O texto da ideia legislativa sustenta que a política de mistura elevada “prejudica veículos importados, clássicos, motos de baixa cilindrada, geradores, equipamentos agrícolas, embarcações e carros de competição, não projetados para altos teores de etanol”.

Esses segmentos reclamam de desgaste prematuro de componentes, maior risco de corrosão, instabilidade de funcionamento e dificuldades em manter máquinas que não foram desenhadas para operar com 32% de etanol. Em muitos casos, são veículos sem tecnologia flex, comuns em coleções, em frotas náuticas ou em aplicações industriais específicas.

Do outro lado, a indústria da cana reage à tentativa de frear o E32. Entidades do setor defendem que o aumento de etanol na gasolina diminui a dependência de importações, reduz emissões de carbono e fortalece o papel dos biocombustíveis na matriz energética. A União das Indústrias de Cana-de-Açúcar e Bioenergia afirma que a regulamentação “preserva o teor nominal de 32% de etanol anidro na gasolina, eliminando qualquer tolerância detectável pelos testes na fiscalização”.

Na avaliação da entidade, a gasolina vendida permanece dentro da especificação técnica considerada nos estudos do IMT, sem autorização para percentuais acima de 32%. A Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil reforça que, nos ensaios realizados, “não foram identificadas evidências de impactos negativos no desempenho dos motores, na durabilidade ou na segurança dos veículos” com o aumento da proporção de etanol.

Modelo americano inspira proposta e pressiona governo

O autor da ideia usa como referência o modelo dos Estados Unidos, onde a venda de combustíveis contempla diferentes misturas. Lá, é comum encontrar nas bombas gasolina E10, E15 e até gasolina sem etanol, com rótulos claros e preços variados. O argumento é que o consumidor brasileiro deveria ter a mesma liberdade de escolha.

Caso a sugestão avance e vire lei, postos e distribuidoras teriam de redesenhar sua logística para oferecer ao menos três tipos de gasolina: a atual com 32% de etanol, a E10 e a pura. A mudança exigiria investimentos em tanques, bombas, sistemas de controle de estoque e comunicação visual, além de autorizações regulatórias da Agência Nacional do Petróleo (ANP).

A flexibilização tende a beneficiar diretamente donos de veículos importados, colecionadores de clássicos, pilotos amadores, pescadores, produtores rurais com maquinário antigo e usuários de geradores estacionários. Para esse público, o acesso a gasolina pura ou E10 pode significar maior confiabilidade mecânica e menor custo de manutenção a longo prazo.

Na outra ponta, produtores de etanol temem uma redução da demanda. Hoje, a obrigatoriedade dos 32% funciona como uma trava que garante escoamento da safra de cana para o anidro. Se parte dos motoristas migrar para gasolina pura ou com 10% de etanol, a indústria pode enfrentar pressão sobre preços, margens e investimentos futuros em expansão.

O que pode mudar na bomba e no bolso

Ainda não há estimativa oficial de impacto nos preços, mas o desenho é complexo. A gasolina pura tende a ser mais cara por litro na bomba, por ser derivada fóssil e, em boa medida, importada. Em contrapartida, veículos que rendem mais com combustível sem etanol podem percorrer distâncias maiores por tanque, o que dilui a diferença no custo por quilômetro rodado.

A gasolina com 32% de etanol, por sua vez, conta com o apoio da cadeia sucroenergética, que argumenta que substituir parte da gasolina por etanol nacional é “econômica, energética e ambientalmente racional”. O setor repete que retirar espaço do E32 significaria retroceder na participação dos biocombustíveis em um cenário global que busca reduzir a pegada de carbono do transporte.

No plano regulatório, o debate na CDH tende a atrair não só o ministro Alexandre Silveira e representantes do CNPE, mas também técnicos do IMT, da ANP e ambientalistas. Audiências públicas e notas técnicas devem pautar a discussão sobre segurança veicular, emissões, qualidade do ar urbano e competitividade do agronegócio da cana.

O desfecho ainda é totalmente aberto. Se a comissão decidir transformar a Sugestão Legislativa em projeto de lei, o texto seguirá para comissões temáticas e, depois, para o plenário. Caso seja engavetado, o recado político permanece: há um grupo organizado de consumidores disposto a desafiar a atual política de misturas.

Enquanto isso, motoristas seguem abastecendo com gasolina de 32% de etanol, sob disputa judicial e política. O próximo passo concreto está na CDH, que definirá o relator e o calendário de debates. A forma como o Senado equilibrar interesses econômicos, ambientais e de nichos de consumidores indicará qual espaço a gasolina pura terá — ou não — no futuro da bomba brasileira.

O que diz a proposta de lei que permite vender gasolina sem etanol?

A ideia legislativa pede que os postos possam vender, de forma opcional e adicional, gasolina pura, gasolina E10 (10% de etanol) e manter a gasolina com 32% de etanol.

Quando a proposta sobre gasolina sem etanol será votada no Senado?

Neste momento, a ideia ainda será transformada em Sugestão Legislativa e discutida na CDH. A comissão definirá relator e calendário; não há data de votação.

Como a venda de gasolina sem etanol pode impactar o preço da gasolina?

Gasolina pura tende a ser mais cara por litro, por ser fóssil e em parte importada, mas pode render mais por quilômetro. Os efeitos finais dependerão da concorrência e da tributação.

Quais estados podem ser mais afetados pela venda de gasolina sem etanol?

Estados com forte produção de cana e etanol, especialmente das regiões Centro-Sul e Nordeste canavieiro, sentem mais o impacto na demanda. Grandes centros urbanos sentem na oferta e preços.

A proposta de gasolina sem etanol pode alterar a qualidade do combustível?

Se aprovada, a mudança não reduz exigências da ANP. Cada tipo de gasolina terá de seguir especificações rígidas. A dúvida recai mais sobre impacto em emissões e no desempenho dos motores.

Por que o etanol é adicionado à gasolina atualmente?

O etanol eleva a octanagem, reduz a necessidade de gasolina fóssil, ajuda a diminuir emissões de carbono e garante mercado ao setor sucroenergético brasileiro.


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