Ciro Nogueira barra uma coligação com Flávio Bolsonaro na corrida de 2026 e escolhe a neutralidade como estratégia para preservar o poder da federação União-PP.
No centro da decisão está um ativo político e financeiro robusto: a maior bancada da Câmara, com 98 deputados, e um fundo eleitoral próximo de R$ 1 bilhão. Ciro calcula que uma aliança explícita com o bolsonarismo, neste momento, ameaça esse patrimônio e pode custar cadeiras decisivas em estados onde a disputa se acirra.
Federação bilionária, risco alto
O raciocínio do senador piauiense é simples e duro. Em um ambiente de polarização entre bolsonaristas e lulistas, qualquer passo em falso nacional respinga nas disputas locais. Em bastidores, aliados descrevem a conta feita por Ciro estado a estado, com base nas pesquisas mais recentes.
“A federação União-PP tem hoje a maior bancada da Câmara dos Deputados, com 98 parlamentares, o que reflete em um fundo eleitoral de quase R$ 1 bilhão em 2026. Garantir que esse poderio continue intacto é a prioridade, e, para isso, é preciso, além de não sofrer com mais operações da Polícia Federal (PF), fazer uma boa gestão das alianças”, afirma o senador, ao explicar a resistência a Flávio.
A preocupação com a Polícia Federal entra no cálculo como fator de risco político. A leitura na cúpula do União-PP é que associações mais explícitas com o núcleo duro do bolsonarismo podem reacender investigações e desgastar campanhas em pleno período pré-eleitoral. Ao se manter neutra na disputa nacional, a federação tenta reduzir a temperatura e blindar candidaturas-chave.
Pernambuco e Piauí no mapa do veto
Pernambuco e Piauí aparecem como linhas vermelhas no mapa traçado por Ciro. Em Pernambuco, o deputado Eduardo da Fonte busca uma vaga no Senado enfrentando adversários que orbitam o Palácio do Planalto. De um lado está o ex-prefeito do Recife João Campos, do PSB, herdeiro direto do capital político de Lula no estado. De outro, a governadora Raquel Lyra, do PSD, que tenta consolidar sua própria base regional.
Nesse cenário, a leitura do União-PP é que subir oficialmente no palanque de Flávio Bolsonaro afastaria parte do eleitorado moderado e entregaria o terreno a candidatos vinculados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O discurso contra “carregar o peso de Flávio” resume a avaliação de que o bolsonarismo ajuda em nichos, mas atrapalha em disputas amplas de maioria simples.
No Piauí, Ciro cuida do próprio futuro. Ele tenta garantir a reeleição ao Senado enquanto assiste o governador Rafael Fonteles, do PT, liderar a corrida local pela reeleição. Na mesma praça concorrem o senador Marcelo Castro, do MDB, e o deputado federal Júlio César, do PSD, todos ancorados em estruturas tradicionais de poder no estado. Uma guinada aberta para Flávio Bolsonaro, nesse tabuleiro, poderia isolar Ciro num campo ideológico minoritário entre os piauienses.
Neutralidade como negócio
O veto à coligação não significa rompimento com a direita, mas um recado de que o União-PP joga em outro campeonato. A federação quer chegar às urnas com musculatura para negociar com qualquer governo que saia vencedor, como já fez nos mandatos de Jair Bolsonaro e agora com Lula. Quanto maior a bancada, maior o preço de entrada na base aliada.
Aliados de Ciro repetem, em conversas reservadas, o mantra que guia a estratégia: estar em qualquer governo, desde que a bancada seja grande. É o pragmatismo clássico do centrão, agora turbinado por quase R$ 1 bilhão em recursos eleitorais. O partido sabe que, com 98 deputados, entra em qualquer composição ministerial e comanda fatias relevantes do Orçamento.
Ao rejeitar Flávio, Ciro envia outra mensagem: quem precisa de palanque é o deputado bolsonarista, não o União-PP. A campanha de Flávio enfrenta críticas internas, troca marqueteiros e tenta encontrar um discurso que empolgue além do núcleo radical. Sem a federação, o caminho fica mais estreito para atrair siglas médias e ampliar o tempo de TV.
Impacto na direita e pressão sobre Flávio
O revés para Flávio Bolsonaro é evidente. A aliança com o União-PP poderia entregar capilaridade em redutos do Nordeste, acesso a prefeitos e vereadores e, sobretudo, o selo de um partido acostumado a governar com vencedores. Sem esse apoio, a campanha de direita perde um eixo central do centrão e precisa buscar saídas em legendas menores.
Setores ligados ao bolsonarismo avaliam que a recusa de Ciro enfraquece o discurso de que a direita se unifica em torno de Flávio. Também dificulta a narrativa de que a federação estaria “voltando” para o campo conservador depois de colaborar com o governo Lula. Na prática, o União-PP tenta exatamente o oposto: esvaziar a ideia de pertencimento a qualquer polo fixo.
Para Lula e seus aliados, a decisão traz um misto de alívio e alerta. A ausência de um alinhamento automático do centrão com Flávio reduz o risco de uma frente única da direita. Ao mesmo tempo, mantém aberta a porta para que o União-PP siga barganhando espaço no governo atual, usando como argumento o tamanho da bancada e o peso na aprovação de projetos no Congresso.
O que vem agora para o União-PP
Nas próximas semanas, a federação amplia o foco em campanhas regionais e no desenho de chapas proporcionais. Em cada estado, dirigentes medem com lupa o potencial de votos para deputados federais, objetivo central de uma legenda que vive da influência no Congresso. A palavra de ordem é reduzir arestas, manter a máquina unida e evitar surpresas judiciais.
O desafio de Ciro Nogueira é equilibrar ambição e cautela. Precisa defender o próprio mandato no Piauí, fortalecer nomes como Eduardo da Fonte em Pernambuco e, ao mesmo tempo, administrar pressões de setores mais bolsonaristas dentro da federação. Se a estratégia de neutralidade render nova bancada robusta e preservar o fundo eleitoral bilionário, o União-PP entra em 2027 com poder de fogo para seguir no centro da arena política, independentemente de quem ocupe o Planalto.