Os usuários da CPTM devem ficar atentos. Os ferroviários marcaram uma assembleia para esta segunda-feira (3) que vai decidir se a categoria entrará em greve a partir da madrugada de terça-feira (4), em meio a um novo impasse envolvendo o processo de concessão das linhas à iniciativa privada.
Se a paralisação for aprovada, poderão ser afetadas as operações das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, que atendem milhares de passageiros diariamente na Região Metropolitana de São Paulo.
Assembleia define se trens param à meia-noite
O Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Central do Brasil (STEFZCB) conduz ao longo do dia a votação que pode aderir à greve. A decisão vale para as linhas que ligam bairros populosos do extremo leste da capital e cidades vizinhas às áreas centrais de São Paulo.
Se a paralisação for aprovada, a operação das três linhas é suspensa já a partir da primeira viagem de terça-feira. Passageiros que saem antes das 5h para trabalhar ou estudar podem encontrar estações fechadas, plataformas vazias e trens recolhidos aos pátios.
O governo do Estado e a direção da CPTM acompanham a movimentação sindical e buscam evitar a interrupção completa do serviço. A negociação é tratada como urgente, porque qualquer acordo precisa ser fechado antes da virada do dia para ter efeito prático.
Impacto imediato na Zona Leste e em Guarulhos
A eventual greve afeta diretamente quem depende do trem todos os dias para cruzar a cidade. As linhas 11-Coral e 12-Safira concentram fluxos intensos de moradores da Zona Leste em direção ao centro, enquanto a 13-Jade é a ligação ferroviária com o Aeroporto Internacional de Guarulhos.
Sem os trens, milhões de passageiros são empurrados para ônibus, carros de aplicativo e veículos particulares. O sistema viário, que já opera próximo do limite nos horários de pico, tende a travar com a migração forçada. O risco é de congestionamentos prolongados logo no início da manhã.
Em empresas, escolas e serviços de saúde, a expectativa é de atrasos, faltas e remarcações. Funcionários que moram nas áreas atendidas pelas linhas ameaçadas precisam refazer trajetos, muitas vezes com mais baldeações, custos maiores e menos previsibilidade.
Greves anteriores dão dimensão do prejuízo
O histórico recente mostra o tamanho da conta de uma paralisação nos trilhos paulistas. Na greve de outubro de 2023, que atingiu linhas do Metrô e da CPTM, o governo estadual estimou que “cerca de 4,6 milhões de passageiros ficaram sem acesso ao transporte sobre trilhos”.
Na mesma ocasião, o Estado calculou “perdas superiores a 60 milhões de reais para o comércio”, atribuídas à queda na circulação de consumidores e às dificuldades de deslocamento dos trabalhadores. O cenário atual repete parte da equação: menos mobilidade, menos gente nas lojas, menos faturamento.
O sistema metroferroviário chega a esta nova rodada de conflito em situação financeira delicada. Metrô e CPTM acumularam prejuízo de 1,6 bilhão de reais em 2022, reflexo da combinação entre redução de passageiros e aumento dos custos operacionais. A disputa salarial e por condições de trabalho se desenrola sobre esse pano de fundo.
Quem ganha, quem perde e o que está em jogo
Para os ferroviários, a greve aparece como instrumento de pressão num momento em que cobram melhores condições e respostas para a crise do sistema. A aposta é que a paralisação das linhas estratégicas exponha a dependência da cidade em relação aos trilhos e force o governo a negociar.
Os passageiros tendem a ser os primeiros a perder. Famílias com renda mais baixa, que vivem longe do centro e dispõem de menos alternativas de transporte, sentem com mais força o aumento do tempo e do custo de cada deslocamento. Quem depende de conexões com o aeroporto também enfrenta incerteza.
Empresários do comércio, de serviços e da indústria localizados na Zona Leste e no entorno de Guarulhos projetam queda no movimento e dificuldades na escala de funcionários. Em outubro de 2023, as perdas estimadas em 60 milhões de reais para o varejo em um único dia dão a medida do risco atual.
Pressão sobre governo e debate sobre o futuro dos trilhos
O governo do Estado entra pressionado a apresentar saídas que aliviem a crise imediata e enderecem o rombo estrutural de 1,6 bilhão de reais nas contas do sistema. A possibilidade de uma nova paralisação amplia a cobrança por investimentos, revisão de contratos e modelos de gestão que garantam continuidade do serviço.
Uma greve longa tende a acelerar o debate público sobre o futuro do transporte sobre trilhos em São Paulo. Questões como a expansão de concessões à iniciativa privada, a qualidade do serviço, a segurança nas estações e a proteção dos direitos trabalhistas ganham centralidade no embate político local.
Nas próximas horas, a assembleia dos ferroviários e os movimentos do governo definem se a cidade acorda nesta terça-feira com trens parados ou com um acordo de última hora. Qualquer que seja o desfecho, a disputa escancara a fragilidade de um sistema que continua essencial para a economia paulista e para a rotina de milhões de pessoas.