O Brasil caminha para cortar a taxa básica de juros enquanto boa parte do mundo ainda aperta o freio. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reúne nesta quarta-feira, 5, e o mercado projeta redução de 0,25 ponto percentual na Selic, dos atuais 14,25% para 14%.
A decisão coloca o país na contramão de grandes economias, pressionadas pela inflação persistente e pela guerra dos Estados Unidos contra o Irã, que eleva o preço do petróleo e de outras commodities. Em um cenário global mais duro, o espaço para afrouxar a política monetária se torna raro — e isso aumenta o peso da escolha brasileira.
Brasil vira exceção em mapa global de juros em alta
Levantamento do Goldman Sachs com 37 das maiores economias mostra que apenas seis devem encerrar 2026 com juros menores do que hoje. O Brasil está nesse grupo restrito e é o único grande país da América Latina com corte projetado ainda neste ano.
Na região, Chile, México e Peru devem manter as taxas onde estão, segundo o banco. A Colômbia aparece na direção oposta, com perspectiva de aumento. A fotografia contrasta com a do Brasil, que hoje tem o quinto maior juro entre as 37 economias analisadas, um patamar considerado altamente restritivo e já suficiente para frear a atividade.
O diagnóstico global é de aperto. Das 37 economias, 21 devem manter os juros parados até o fim de 2026 e nove devem elevar as taxas. A média global, de 4,6% hoje, deve subir para 4,7% ao final do período, ainda de acordo com o Goldman Sachs. “Os bancos centrais ficaram mais agressivos por conta da guerra no Irã”, escreve o banco em relatório a clientes.
No mundo desenvolvido, nenhum banco central corta juros nos últimos três meses, e 39% deles elevam as taxas. Entre os emergentes, 16% reduzem juros e 13% aumentam, um quadro que reforça o isolamento brasileiro entre os que se permitem afrouxar a política monetária.
Inflação em desaceleração abre espaço para o Copom
O que sustenta a aposta em corte da Selic é a combinação de inflação em desaceleração com um nível de juros considerado já suficientemente alto. Analistas apontam que o aperto acumulado nos últimos trimestres “colocou gordura” na taxa, permitindo agora um ajuste para baixo sem, em tese, perder o controle da inflação.
O Copom se vê diante de uma equação delicada. De um lado, pressões externas puxam para cima os preços de energia e de insumos, num ambiente em que bancos centrais parceiros ainda falam em aperto. De outro, indicadores internos mostram inflação em trajetória mais benigna e atividade fraca, o que justificaria um alívio, mesmo que tímido, de 0,25 ponto percentual.
Além disso, o patamar de 14,25% figura entre os mais altos do mundo e é visto por economistas como “altamente restritivo”. Em linguagem simples, significa um juro tão elevado que encarece o crédito, desestimula o consumo e o investimento e, por consequência, esfria a economia para conter a alta de preços.
Crédito mais barato e economia em foco
Um corte para 14% não representa uma revolução, mas sinaliza mudança de direção. Se o movimento se consolidar nas próximas reuniões do Copom, o impacto tende a aparecer no custo do crédito para famílias e empresas, hoje pressionado pela Selic em dois dígitos.
Em primeiro plano, setores dependentes de financiamento devem sentir o alívio. O mercado imobiliário, com seus financiamentos de longo prazo, pode ganhar fôlego adicional. O setor automotivo, dependente de crédito direto ao consumidor, também vê na queda dos juros uma chance de reanimar as vendas. O varejo, por sua vez, se beneficia de prestações mais baixas e maior disposição das famílias para parcelar compras.
Do outro lado, investidores acostumados a ganhos elevados em títulos públicos atrelados à Selic tendem a ver a rentabilidade recuar. Bancos e instituições financeiras precisarão calibrar suas margens de lucro em operações de crédito, que rendem menos em ambiente de juros mais baixos, e buscar novas fontes de receita em serviços e produtos de maior risco.
No câmbio, a posição relativa do Brasil ainda é confortável. Mesmo com cortes, o país segue oferecendo juros bem acima da média global de 4,6% projetada para subir a 4,7%. Essa diferença pode seguir atraindo capital estrangeiro em busca de rendimento em moeda forte, desde que a percepção de risco fiscal e político permaneça sob controle.
Risco externo e próximos passos do Banco Central
A guerra no Irã segue como principal fator de incerteza. O conflito mantém a inflação global em estado de alerta, com choques de oferta em energia e logística. Se a alta dos preços se intensificar, o espaço para novos cortes na Selic se estreita rapidamente, obrigando o Banco Central a recalibrar o discurso e, possivelmente, interromper o ciclo de redução.
O Goldman Sachs ressalta que o ambiente de reação mais dura dos bancos centrais é, em grande parte, resposta a esse contexto geopolítico. O Brasil tenta se mover em direção contrária, amparado na inflação doméstica mais controlada, mas permanece vulnerável a qualquer deterioração do cenário externo.
O mercado financeiro acompanha de perto não apenas a decisão desta quarta, mas também o comunicado e a ata do Copom, que vão indicar se o corte de 0,25 ponto é um gesto isolado ou o início de um ciclo mais longo de afrouxamento. A trajetória da inflação nos próximos meses, o comportamento do câmbio e a intensidade da guerra no Oriente Médio vão definir se o plano de levar a Selic abaixo de 14% até o fim de 2026 permanece de pé.
Enquanto isso, empresas e consumidores ajustam suas expectativas. Se a redução de juros ganhar tração, a economia brasileira pode encontrar algum fôlego para crescer em meio a um mundo de juros mais altos. Se o cenário piorar lá fora, o Banco Central terá de escolher entre proteger a atividade ou reforçar o escudo contra a inflação.