Trabalhadores sofrem com a greve dos trens, veja relatos

Paralisação nas linhas 11, 12 e 13 da CPTM afeta o deslocamento de milhares de trabalhadores na capital paulista.
Redação NC News
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Uma greve de ferroviários nas linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da CPTM paralisa o transporte sobre trilhos na Zona Leste e no Alto Tietê e embaralha a rotina de milhares de trabalhadores nesta terça-feira, 4 de agosto. A categoria reage à concessão das linhas à empresa privada Trivia Trens e exige garantia de emprego para 4.700 funcionários.

Pela manhã, filas extensas, ônibus lotados e gastos extras marcam a tentativa de chegar ao trabalho ou voltar para casa. A paralisação começou à 0h e segue por tempo indeterminado, sem previsão de acordo.

Trabalhadores presos no trajeto e no orçamento

Na estação Guaianases, na Linha 11-Coral, a volta para casa vira uma equação de tempo e dinheiro. Jonatan, morador de Ferraz de Vasconcelos, soma uma passagem a mais no orçamento já apertado. “É um gasto a mais para chegar em Ferraz. Espero que se resolva o mais rápido possível, porque amanhã preciso trabalhar e levar o sustento para casa”, diz.

No mesmo ponto, um vigilante encara outra fila depois de cumprir um turno de 12 horas. Ele tenta embarcar em um ônibus rumo a Ferraz, sem saber como será o dia seguinte. “Estou voltando para casa. Acho que a maior batalha é de quem está indo. Trabalhei a noite, de madrugada. Agora o perigo é saber se isso vai ficar assim ou se amanhã vai estar pior”, afirma.

Quem vem de ainda mais longe enfrenta um labirinto urbano. Ednalva saiu de Nazaré Paulista para tentar chegar à Avenida Paulista e se vê perdida entre conexões de ônibus e metrô. “Hoje está muito difícil para os trabalhadores de São Paulo. Está muito difícil, os trens parados. Vou tentar chegar na Avenida Paulista. Não sei como, mas estou indo. O trabalhador acorda 4h30 e está aí sofrendo como sempre. Não é certo fazer isso com a população”, critica.

Rotas improvisadas e sistema no limite

Em Poá, na estação Calmon Viana, as filas para o ônibus substituto, o Paese, dobram esquinas. Brenda, que precisa ir até o Morumbi, calcula um trajeto com várias baldeações. “Vou tentar ir de Paese, tentar porque a situação está bem crítica. Está enchendo demais, Paese não está dando. Vou tentar ir até Itaquera e pegar linha 3-Vermelha para ir para o Brás. Depois do Brás pegar outra linha para ir até a Luz e pegar a linha 4-Amarela”, explica.

A cena se repete em diferentes pontos da Grande São Paulo. Sem trens nas linhas 11, 12 e 13, o fluxo se concentra em ônibus municipais, intermunicipais e metrô, com superlotação já nas primeiras horas da manhã. Passageiros relatam viagens que dobram ou triplicam de duração e custo, sobretudo em regiões periféricas como Ferraz de Vasconcelos, Poá e cidades do entorno.

Na prática, a CPTM opera hoje apenas a Linha 10-Turquesa, depois de ter controlado sete linhas de trem na região metropolitana antes do avanço das concessões. As demais estão sob administração privada ou em transição, o que pressiona toda a malha e limita a capacidade de resposta em momentos de crise.

Disputa por 4.700 empregos e futuro da CPTM

O estopim da greve é a transferência da operação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade para a Trivia Trens. Segundo o Sindicato dos Ferroviários da Central do Brasil, que representa os trabalhadores, 4.700 empregados da CPTM ligados a essas linhas vivem um impasse. A entidade afirma que apenas 11% desse contingente foi de fato absorvido pela nova concessionária.

Os grevistas pedem a reestatização definitiva das três linhas, a garantia de todos os empregos na CPTM e a aprovação, na Assembleia Legislativa, do Projeto de Lei nº 730/2025. A proposta, de autoria do deputado Guilherme Cortez (PSOL), determina que funcionários de estatais atingidas por concessões sejam absorvidos por órgãos da administração pública estadual.

Ao mesmo tempo, a CPTM passa por um plano de demissão voluntária para encerrar contratos “em comum acordo” com parte do quadro. A estatal admite estar em reestruturação profunda depois de ter ficado restrita a uma única linha. No outro lado, a Trivia Trens afirma contar com cerca de 2.400 colaboradores, dos quais 2.100 atuam diretamente na operação e manutenção das linhas concedidas, e diz ter dedicado mais de 1.300 horas de treinamento a um time majoritariamente novo.

Governo critica greve e aciona plano de contingência

A gestão estadual e a direção da CPTM afirmam lamentar a manutenção da paralisação “mesmo após a apresentação de compromissos concretos”. O governo diz ter reiterado, em reunião com o sindicato, o compromisso de preservar postos de trabalho e de analisar projetos de lei que interessem à categoria, entre eles o que trata da absorção de empregados por outros órgãos públicos.

O Palácio dos Bandeirantes também cita a discussão sobre a incorporação da Estrada de Ferro Campos do Jordão pela CPTM e a inclusão dos ferroviários no Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe). Na nota, a gestão Tarcísio sustenta que “a paralisação não contribui para a negociação e seu único efeito será o de prejudicar milhares de trabalhadores, estudantes e passageiros” e classifica como “inaceitável que a categoria use a população como instrumento de pressão política”.

O sindicato rebate e diz que a greve só ocorre porque não há compromisso formal de manutenção dos empregos diante das concessões. A entidade afirma que buscou alternativas de negociação desde o início do processo, mas que a categoria decidiu cruzar os braços para “defender os postos de trabalho e o futuro de milhares de famílias”. O movimento, garante, segue aberto ao diálogo.

Rodízio suspenso, ônibus reforçado e incerteza

Para aliviar os efeitos da paralisação sobre quem precisa trabalhar, a Prefeitura de São Paulo suspende o rodízio municipal de veículos e coloca em prática um plano de contingência. A medida inclui reforço de ônibus, maior oferta no metrô e apoio de trens já privatizados, além da ampliação do uso do Paese nas áreas mais atingidas.

Mesmo com os ajustes, a capacidade extra não dá conta do volume de passageiros despejados das três linhas paradas. Ônibus municipais circulam cheios desde o início da manhã, e as estações de metrô em áreas como Brás, Luz, Itaquera e Paulista operam no limite, com plataformas tomadas por usuários em busca de qualquer alternativa.

O impasse se projeta para além do cotidiano imediato. A disputa em torno da concessão, da reestatização e da aprovação do PL 730/2025 tende a alimentar o debate sobre o papel do Estado no transporte público paulista. Enquanto se definem os rumos da CPTM, trabalhadores seguem somando horas extras no deslocamento e no custo de cada viagem.

Sem prazo para acabar, a greve se converte em teste de resistência para funcionários, governo, empresa privada e, sobretudo, para a população que depende do trem para garantir o próprio sustento.

 

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