Exclusivo: Crescimento das corridas de rua em SP impulsiona novas medidas para proteger atletas

Em 2025, São Paulo registrou 1.311 corridas de rua oficiais, o que representa um crescimento de 79% em relação ao ano anterior. Poucos dias após a morte de um corredor de 50 anos, a Prefeitura de São Paulo anunciou um grupo para criar protocolo de segurança com foco em atendimento médico e estrutura de emergência nas provas
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

As corridas de rua vivem uma expansão sem precedentes no Brasil. O aumento no número de eventos e participantes transformou as provas em uma das principais práticas esportivas do país, reunindo atletas profissionais e amadores de diferentes faixas etárias.

Um levantamento oficial da ABRACEO (Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor) mostra a dimensão desse avanço. Em 2025, o estado de São Paulo registrou 1.311 corridas de rua oficiais, o que representa um crescimento de 79% em comparação com o ano anterior. O Paraná apareceu na segunda posição, com 645 eventos e alta de 93%, enquanto Santa Catarina fechou o pódio na terceira posição, com 478 provas e avanço de 71%.

Ao todo, o Brasil registrou cerca de 2 milhões e 180 mil inscrições em corridas de rua no último ano, um cenário que também aumentou o debate sobre a estrutura necessária para garantir a segurança dos participantes.

A discussão ganhou ainda mais força após a morte do corredor Júlio Barreto, de 50 anos, durante uma prova em São Paulo. Poucos dias depois, a Prefeitura de São Paulo anunciou a criação de um grupo de trabalho para elaborar um protocolo de segurança voltado às corridas de rua realizadas na cidade.

Segundo a portaria assinada pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB), o grupo terá 20 dias para concluir os trabalhos e apresentar uma proposta com parâmetros mínimos de segurança e atendimento à saúde para esse tipo de evento. A proposta deve estabelecer parâmetros mínimos relacionados à estrutura médica, tempo de resposta em emergências, presença de desfibriladores e procedimentos necessários para proteger corredores durante todo o percurso.

Segurança nas corridas

Em exclusiva concedida ao NC News, o Diretor de Operações da Track&Field, Rafael Yanes explica que a segurança de uma corrida não está apenas no atendimento feito após uma emergência. Segundo ele, o planejamento envolve todo o evento, desde o percurso até a chegada dos atletas. “A gente tem a segurança como um todo. Começa na segurança do percurso até  a chegada dos atletas. Então, o fato do nosso circuito ser no shopping propicia um conforto maior. E tem a parte da segurança de saúde, que obviamente é a principal”, explica.

Segundo Rafael, cada cidade possui regras próprias para autorização das provas. Em São Paulo, existe um protocolo definido pela Secretaria de Saúde, por meio do Grupo de Planejamento de Ações Estratégicas para Eventos (GPAE), que estabelece diretrizes para a estrutura médica necessária. Além das exigências oficiais, o diretor afirma que algumas organizações adotam medidas extras para ampliar a proteção dos participantes.

“Dentro da Track&Field e da TFSports, sempre pensamos além do protocolo. É uma prática que a gente tem já de muitos anos. Até pela característica do circuito ser muito grande, de ter um deslocamento do shopping até o local de largada. Então a gente acaba atendendo até um pouco além do protocolo”, explicou.

Estrutura médica

A quantidade de ambulâncias, equipes médicas e equipamentos varia de acordo com o tamanho da prova, número de participantes e exigências dos órgãos responsáveis. Rafael Yanes explica que a organização segue as determinações oficiais, mas amplia a estrutura em alguns eventos para reduzir o tempo de atendimento em situações de emergência.

“Dentro do protocolo, a gente tem o protocolo mínimo. Quando a gente diz o mínimo, é dentro do quantitativo de pessoas em conjunto com o permito. E ele é feito tanto na área quanto dentro do percurso”, disse.

Na corrida realizada pela Track&Field, a estrutura contou com quatro UTIs móveis, uma unidade básica e um serviço de moto circulando durante o trajeto. “Hoje nós estamos aqui com quatro UTIs móveis, mais uma unidade básica, mais um serviço de moto circulando pelo percurso. O protocolo exigia uma UTI básica dentro do quantitativo. A gente tem hoje seis distribuidores, o protocolo exigiria três”, afirmou.

Segundo Rafael, a estratégia é justamente diminuir o tempo de resposta caso algum atleta apresente uma intercorrência. “Como as nossas provas geralmente ocorrem no shopping e têm um trajeto de deslocamento, a gente quase sempre duplica esse atendimento médico”, finaliza.

Protocolos 

Após o debate sobre a segurança nas corridas de rua, um dos pontos levantados é entender como funciona a divisão de responsabilidades entre o poder público e os organizadores dos eventos. O Diretor explica que a Prefeitura estabelece as diretrizes e os requisitos mínimos para a estrutura médica, enquanto a organização da prova fica responsável pela contratação e operação das equipes de atendimento.

“A Prefeitura tem um protocolo elaborado pela Secretaria de Saúde, que estabelece os requisitos necessários de estrutura médica. Isso, em conjunto com a organização, define uma unidade de atendimento para onde você se desloca caso tenha alguma necessidade”, explicou.

Ainda segundo o diretor, a montagem da equipe médica, a contratação dos profissionais e a execução do atendimento durante a corrida são responsabilidades da organização responsável pelo evento.

Cuidados com o coração antes de uma maratona

Para o cardiologista clínico e intervencionista Mohamad Said Ghandour, provas como meia maratona e maratona representam um grande desafio para o organismo. Durante horas de esforço intenso, o coração trabalha em alta frequência para aumentar o fluxo sanguíneo aos músculos e manter o desempenho do atleta.

O especialista explica que o exercício físico regular é uma das principais formas de prevenção contra doenças cardiovasculares, mas alerta que atividades de alta intensidade podem revelar problemas cardíacos silenciosos.

Segundo Mohamad, a corrida não provoca uma doença cardíaca, mas pode expor condições pré-existentes que ainda não apresentavam sintomas. “Muitas doenças cardíacas são completamente assintomáticas até o esforço máximo. Por isso, corredores que pretendem participar de provas longas, principalmente acima dos 35 ou 40 anos, devem passar por avaliação médica”, enfatiza.

A avaliação considera fatores como histórico familiar, pressão alta, diabetes, colesterol, tabagismo e outros riscos. Dependendo do perfil do corredor, exames como eletrocardiograma, teste ergométrico e ecocardiograma podem ser indicados.

Além da preparação dos atletas, o cardiologista destaca que a estrutura médica dos eventos é fundamental para reduzir riscos em situações de emergência. Segundo Mohamad, em casos de parada cardíaca, a rapidez no atendimento pode ser decisiva, já que o tempo de resposta influencia diretamente as chances de sobrevivência.

O especialista também orienta que os corredores respeitem os limites do próprio corpo e façam uma preparação progressiva antes de encarar grandes distâncias. “Se você nunca correu 21 quilômetros, não queira começar já com uma meia maratona. Respeite também o seu corpo. Qualquer sintoma, não tente ser um super-herói. Pare a atividade física e procure ajuda”, orientou.

Em nota enviada ao NC NEWS, a Secretaria de Saúde afirmou:

“A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) informa que revisa continuamente os fluxos assistenciais e os critérios técnicos aplicáveis a eventos temporários na cidade. Nesse contexto, foi instituído um grupo de trabalho para aprimorar os procedimentos relacionados à realização de corridas de rua e competições esportivas em vias públicas. A pasta reforça que já existem diretrizes técnicas para o atendimento nessas situações, que são avaliadas e atualizadas com o objetivo de fortalecer as medidas de segurança e assistência à saúde. A análise considera critérios como classificação de risco, número de participantes, extensão e características do percurso, duração da prova e concentração de pessoas. A revisão em andamento não altera, neste momento, o protocolo vigente. Nos eventos esportivos, os organizadores são responsáveis pela infraestrutura e pela assistência médica, conforme previsto na Portaria SMS nº 490/2020. Também devem apresentar ao Grupo de Planejamento e Apoio a Eventos (GPAE), da SMS, um Plano de Atendimento Médico compatível com o porte e as características de cada prova.”

Carregar Comentários