O primeiro grande debate ao vivo entre candidatos ao governo do Rio, na Band Rio, transforma a ausência de Eduardo Paes em munição de ataque e escancara o esforço de rivais para se descolar de aliados investigados por envolvimento com milícias e facções criminosas.
No estúdio, dividem o palco o deputado estadual Douglas Ruas (PL), o ex-governador Anthony Garotinho, o vereador carioca William Siri (PSOL) e o humorista André Marinho (Novo). Fora das câmeras, mas presente em quase todos os blocos, está o ex-prefeito Eduardo Paes, que recusa o convite e vira alvo recorrente.
Ausência de Paes reorganiza o ringue
A cadeira vazia de Paes muda o eixo do confronto. Sem o principal nome da disputa para polarizar o debate, os ataques circulam entre os presentes, enquanto o ex-prefeito vira espécie de fantasma da eleição, lembrado como herança da campanha de 2018 e da política tradicional fluminense.
Cada candidato tenta ocupar esse vácuo. Garotinho insiste em questionar o patrimônio declarado de Paes e suas ligações econômicas. André Marinho explora a imagem de “fujão”, imita a voz do ex-prefeito e o acusa de ter abandonado a promessa de não largar a prefeitura para disputar o governo estadual.

Douglas Ruas escolhe outro flanco: resgata episódios de desrespeito a mulheres atribuídos a Paes e promete endurecer a resposta estatal contra agressões. “Quero dizer ao Paes que, no meu governo, agressor de mulher vai para a cadeia”, afirma, ao acusar o adversário de se cercar de homens com histórico de violência.
Ruas tenta se livrar da sombra de Castro e Bacellar
Enquanto ataca o ausente, Ruas enfrenta fogo cruzado dentro do próprio campo político. Ligado ao PL, ele é cobrado por sua proximidade com o ex-governador Cláudio Castro e com o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, ambos alvos de operações policiais e símbolos do desgaste do grupo que comandou o estado até recentemente.
William Siri abre o ataque no primeiro bloco, ao dizer que os aliados de Ruas governam o Rio “há muito tempo” e chamá-lo de “pupilo” de Bacellar. Em seguida, ele mira no ponto mais sensível da campanha do deputado: “Você disse que seu sonho era ver Rodrigo Bacellar governador. Se nós não tivéssemos uma operação da PF colocando Bacellar na cadeia, ele seria o governador. Isso indica que o Comando Vermelho seria o governador”, dispara o vereador do PSOL.

Ruas reage tentando apagar a marca de apadrinhado político. Repete que tem “identidade própria” e dispara a frase que vira bordão da noite: “Nunca escolhi chefe, escolhi missão”. A estratégia busca preservar seu eleitorado bolsonarista sem carregar, junto, o desgaste das investigações que cercam Castro e Bacellar, os dois principais nomes citados na mira da polícia.

O candidato do PL tenta ainda inverter o jogo, ao acusar o PSOL de ter sido “grande aliado” de Bacellar em votações na Alerj. Siri devolve perguntando como Ruas vota após a prisão do ex-presidente da Assembleia. O deputado alega não estar presente na Casa no dia da votação decisiva, num esforço para evitar novas ligações formais.
Garotinho mira milícias, facções e o sistema
Garotinho entra no debate como veterano e se posiciona como especialista em segurança pública. Desde antes do programa, promete tratar do tema e cumpre o roteiro. Critica todos os adversários, afirma que “ninguém entende nada” de combate ao crime e cita o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, como modelo de endurecimento penal.

Mais do que vender propostas, ele tenta colar em rivais a pecha de conivência com o crime organizado. Ao relacionar adversários a políticos sob investigação por envolvimento com milícias e facções, reforça a ideia de que uma parte expressiva do sistema político fluminense está contaminada por interesses criminosos. O recado mira tanto o grupo de Paes quanto o de Ruas.
Esse enquadramento agrava a tensão na disputa. Em um estado em que segurança pública aparece de forma recorrente entre as principais preocupações do eleitor, a associação entre campanhas, milícias e facções ganha potencial para redesenhar apoios, afastar eleitores moderados e consolidar nichos mais radicalizados.
Estratégia: disputa fica local, Bolsonaro quase some
O debate também expõe uma escolha estratégica: evitar a nacionalização da corrida ao Palácio Guanabara. Mesmo com um candidato do PL na bancada, nomes como Lula e Flávio Bolsonaro surgem pouco. A preferência é por um roteiro centrado em temas locais e nas biografias dos próprios concorrentes.
Ruas, que orbita o bolsonarismo fluminense, praticamente não cita o ex-senador. A menção mais explícita à direita nacional vem de André Marinho. Filho de Paulo Marinho, suplente de Flávio no Senado, o candidato do Novo declara voto em Romeu Zema para a Presidência e, na sequência, acena à união conservadora. “Zema terá meu voto no primeiro turno. No segundo turno, é a direita unida, seja Flávio Bolsonaro ou quem for”, afirma.
William Siri segue direção oposta. Amarra sua candidatura ao campo progressista, pede apoio à reeleição de Lula e menciona nomes da esquerda para o Senado, como Monica Benício e Benedita da Silva, aliadas na chapa de Paes. Ainda assim, mantém o foco das críticas no PL fluminense e em Eduardo Paes, numa tentativa de se posicionar como alternativa ética às duas máquinas.

Campanha entra em fase de ataque permanente
O pós-debate começa com um tabuleiro mais fragmentado e um clima de ataque permanente. A ausência de Paes alimenta especulações sobre seu cálculo político e abre espaço para que adversários tentem desgastá-lo antes mesmo de um confronto direto, sobretudo em temas de ética, violência de gênero e alianças econômicas.
Para Douglas Ruas, o desafio passa a ser duplo: crescer entre eleitores conservadores que ainda olham para a família Bolsonaro como referência e, ao mesmo tempo, se provar distante das suspeitas que rondam Cláudio Castro e Rodrigo Bacellar. Se novas fases das investigações avançarem, a linha que ele tenta traçar entre “chefe” e “missão” tende a ser testada diariamente.
Garotinho e William Siri saem do estúdio com um roteiro claro para os próximos dias: reforçar o discurso anticorrupção, associar rivais ao crime organizado e disputar o eleitor cansado do ciclo de escândalos no Rio. Nas redes sociais e em novos programas de TV e rádio, a tendência é de intensificação de dossiês, recortes de fala e vídeos de confronto.
A campanha fluminense entra, assim, numa fase em que a segurança pública e a ética na política se consolidam como eixos centrais. A volta de Eduardo Paes a um debate será acompanhada de lupa, e a pressão sobre políticos investigados tende a aumentar. Com o estado ainda marcado pela presença de milícias e pelo avanço de facções, a linha que separa disputa eleitoral e disputa pelo controle do território se torna o principal ponto de interrogação desta corrida.