ANPD suspende transmissões ao vivo do Discord no Brasil por falhas na proteção de crianças

Medida preventiva não bloqueia a plataforma no país; recurso de lives deverá ficar suspenso até que empresa comprove adoção de mecanismos considerados eficazes pela agência
Redação NC News
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A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou, nesta quarta-feira (12), a suspensão das transmissões ao vivo do Discord no Brasil. A decisão tem caráter preventivo e estabelece prazo de três dias úteis para que a plataforma cumpra a determinação.

A medida, porém, não significa que o Discord será bloqueado no país. A decisão atinge especificamente a ferramenta de transmissões ao vivo, conhecida como “Go Live”, utilizada para transmitir vídeos em servidores da plataforma.

A suspensão será mantida até que a empresa demonstre ter adotado medidas consideradas efetivas para proteger crianças e adolescentes contra riscos associados ao uso do serviço.

Por que a ANPD suspendeu as lives?

Segundo a agência, a decisão foi tomada após a identificação de falhas nos mecanismos utilizados pelo Discord para impedir que crianças e adolescentes sejam expostos a conteúdos ou situações potencialmente perigosas.

ANPD declara guerra ao discord

A ANPD afirmou ter encontrado “evidências robustas” de que a empresa não havia adotado medidas consideradas suficientes para prevenir e reduzir riscos relacionados ao acesso, à exposição e ao contato de menores de idade com conteúdos ou práticas que possam representar violações graves de direitos.

Entre as situações citadas pela agência estão casos relacionados à violência, automutilação e suicídio.

O processo de fiscalização foi instaurado na última sexta-feira (7). Na segunda-feira (10), o Discord apresentou informações à agência e, na terça-feira (11), representantes da empresa participaram de uma reunião com integrantes da ANPD.

A decisão foi tomada após essa sequência de medidas.

“O Discord não está sendo bloqueado. O que a medida preventiva suspende é a funcionalidade ‘Go Live’, utilizada para transmissões ao vivo em servidores fechados”, explicou Fabrício Lopes, superintendente de Fiscalização da ANPD.

Segundo ele, o objetivo da medida é reduzir riscos considerados graves ou de difícil reparação envolvendo crianças e adolescentes.

O que muda para quem usa o Discord?

A determinação não impede o acesso ao Discord no Brasil.

Os usuários continuam podendo utilizar os demais recursos da plataforma, mas a funcionalidade de transmissões ao vivo deverá ser suspensa enquanto a empresa não comprovar o cumprimento das exigências estabelecidas pela ANPD.

Fim das lives é primeira represália ao discord

O Discord é uma plataforma de comunicação bastante utilizada por cGomunidades de jogos eletrônicos, mas também reúne grupos de adolescentes e usuários interessados em diferentes temas.

A preocupação das autoridades está principalmente nos ambientes fechados da plataforma, nos quais usuários podem criar servidores e estabelecer comunicação por texto, áudio e vídeo.

Problema está na fiscalização das transmissões

Um dos pontos destacados pela ANPD é a própria arquitetura tecnológica utilizada pelo Discord.

Segundo a agência, a plataforma não tem acesso ao conteúdo das transmissões de vídeo enquanto elas estão acontecendo. Isso dificulta a utilização de ferramentas capazes de analisar as imagens em tempo real e identificar automaticamente situações potencialmente criminosas.

Na prática, a empresa depende de mecanismos automatizados e de denúncias feitas pelos próprios usuários para identificar conteúdos problemáticos.

Para a ANPD, essa estrutura representa uma dificuldade adicional quando se trata de prevenir situações envolvendo menores de idade.

Denúncias contra o Discord aumentaram

Dados da SaferNet Brasil, citados pela ANPD, também foram considerados no processo de fiscalização.

Segundo os números apresentados pela agência, o Discord recebeu 405 denúncias nos primeiros sete meses de 2026, contra 264 no mesmo período de 2025.

O crescimento é de aproximadamente 54%.

A elevação das denúncias ocorre justamente em um período em que autoridades brasileiras passaram a discutir de maneira mais intensa a responsabilidade das plataformas digitais na proteção de crianças e adolescentes.

Governo já havia cobrado mudanças da plataforma

A decisão da ANPD ocorreu um dia depois de a Advocacia-Geral da União (AGU) informar que havia recebido do Discord uma proposta com medidas para reforçar a proteção de crianças e adolescentes.

O documento foi entregue na segunda-feira (10), após reuniões entre representantes da empresa, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, da AGU e da ANPD.

As discussões começaram depois que um relatório elaborado pela Secretaria Nacional de Direitos Digitais do Ministério da Justiça apontou problemas nos mecanismos de verificação de idade e proteção de menores utilizados pela plataforma.

O governo passou a cobrar medidas relacionadas à verificação etária, à prevenção de riscos e à proteção de usuários menores de idade.

Caso envolvendo adolescente aumentou pressão

A discussão ganhou força nos últimos dias após uma investigação policial envolvendo uma menina de 13 anos que teria sido induzida por adolescentes a cometer suicídio durante uma transmissão realizada na plataforma.

O episódio provocou reações no governo federal.

Na semana passada, a primeira-dama Janja da Silva defendeu publicamente que o Discord fosse retirado do ar, citando o caso e cobrando medidas mais rígidas contra plataformas digitais.

A manifestação ocorreu enquanto autoridades já discutiam mudanças nos mecanismos de proteção de crianças e adolescentes na internet.

O que o Discord precisa fazer?

A suspensão determinada pela ANPD permanecerá em vigor até que a empresa consiga demonstrar que adotou medidas efetivas de proteção de crianças e adolescentes.

Entre as preocupações apresentadas pelas autoridades estão:

Verificação da idade dos usuários;
prevenção do acesso de menores a conteúdos inadequados;
redução da exposição de crianças e adolescentes a situações de risco;
mecanismos de prevenção e resposta a denúncias;
proteção contra violência, automutilação e incentivo ao suicídio;
aprimoramento dos mecanismos de moderação.

A medida tem caráter cautelar e faz parte de um processo de fiscalização mais amplo.

Entenda o contexto

A decisão da ANPD ocorre em meio a uma discussão maior sobre responsabilidade das plataformas digitais na proteção de crianças e adolescentes.

O caso do Discord chama atenção porque a plataforma funciona principalmente por meio de comunidades fechadas, nas quais os próprios usuários criam servidores e controlam parte da dinâmica de interação.

Nas transmissões ao vivo, essa característica cria um desafio adicional para a fiscalização. Como a plataforma afirma não ter acesso ao conteúdo audiovisual em tempo real, a identificação de situações perigosas pode depender de sistemas automatizados e de denúncias.

O aumento de denúncias registrado pela SaferNet e os casos investigados pelas autoridades elevaram a pressão sobre a empresa.

Por enquanto, contudo, o Discord continua funcionando no Brasil. A determinação da ANPD é específica para a ferramenta de transmissões ao vivo. A empresa terá de apresentar evidências de que reforçou seus mecanismos de proteção para que o recurso possa voltar a ser utilizado.

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