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Redação NC News
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Donald Trump confirma que abandonou o Air Force One em segredo após uma ameaça do Irã e deixa para trás mais de 100 pessoas, entre elas Marco Rubio e membros do gabinete. O grupo segue viagem sem ser avisado do risco, e a operação passa a ser acusada de usar autoridades e jornalistas como “isca”.

O episódio vem à tona nesta semana, quando Trump admite que a manobra ocorre no início de julho, durante trajeto da Turquia ao Reino Unido. Após a revelação por jornais americanos, o ex-presidente confirma que deixa o avião presidencial de forma clandestina.

Relatos indicam que Trump sai por uma porta lateral do Air Force One, escondido em um caminhão do serviço de bordo, e embarca em uma aeronave menor da Força Aérea estacionada ao lado. A justificativa é uma ameaça iraniana considerada verossímil por autoridades de segurança dos Estados Unidos.

Enquanto o presidente muda de aeronave, mais de 100 passageiros permanecem no Air Force One original. A lista inclui assessores de alto escalão, integrantes do gabinete, diplomatas e o pool de jornalistas credenciados para cobrir a viagem.

Rubio fica a bordo; equipe e imprensa seguem no escuro

Entre os que seguem no avião está o secretário de Estado e senador Marco Rubio, responsável pela política externa e figura central na diplomacia americana. Ele ganha projeção internacional com declarações duras contra governos latino-americanos, incluindo críticas recorrentes ao Brasil e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Rubio sabe da ameaça, segundo o que apuram veículos americanos, mas não está claro se compartilha a informação com outros passageiros de alto escalão. Também permanecem a bordo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, o assessor presidencial Stephen Miller e o diretor de comunicações da Casa Branca, Steven Cheung.

Jornalistas que acompanham o voo relatam apenas uma orientação inusitada: durante a decolagem, o Serviço Secreto manda baixar todas as persianas das janelas. A ordem, comum em zonas de combate, causa estranheza em um trajeto que, oficialmente, não é descrito como de alto risco.

Acusações de “isca humana” e falha ética

Com a revelação de que Trump troca de avião enquanto assessores e repórteres seguem no Air Force One, o debate nos Estados Unidos passa do sigilo operacional para o campo ético. A principal crítica é que vidas de autoridades e jornalistas são colocadas em risco sem qualquer aviso.

O ex-agente da CIA Steven Cash resume o desconforto. “Ao que parece, a ideia era reduzir o perigo para o presidente Trump oferecendo cerca de 100 pessoas para serem mortas pelos iranianos em seu lugar”, afirma. A frase circula em Washington como símbolo da indignação com o desenho da operação.

O senador democrata Richard Blumenthal, de Connecticut, classifica a manobra como “sem precedentes e surreal” e cobra explicações formais. “É preciso haver um informe ao Congresso, pois a questão não envolve apenas a segurança do presidente. Quero saber quais precauções foram tomadas para garantir a segurança de todos os passageiros daquele Air Force One — aeronave considerada perigosa demais para o transporte do presidente —, protegendo assim a equipe e os jornalistas a bordo”, diz.

Liberdade de imprensa e transparência em xeque

O escândalo atinge em cheio a relação do governo com a imprensa. As principais emissoras americanas protestam contra o fato de seus profissionais terem embarcado em um voo sob ameaça sem qualquer possibilidade de decidir se aceitariam o risco.

Jake Tapper, apresentador da CNN, lembra que estratégias de despiste fazem parte do protocolo, mas vê um limite ultrapassado. “Obviamente, a vida do presidente é primordial, e administrações anteriores da Casa Branca já recorreram a estratagemas para protegê-la. No entanto, nenhuma das autoridades com quem conversei jamais ouviu falar do uso de um Air Force One lotado de funcionários da Casa Branca e jornalistas como isca diante de uma ameaça iminente”, afirma.

Organizações de defesa da liberdade de imprensa reforçam o alerta. José Zamora, diretor regional para as Américas do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, aponta a falha de comunicação como centro do problema. “Os repórteres devem ser informados sobre ameaças reais à segurança para que possam tomar decisões conscientes sobre sua própria integridade. A transparência deve ser a regra para qualquer governo, especialmente quando a segurança está em jogo”, diz.

Pressão por investigações e impacto político

No Congresso americano, cresce a pressão por audiências públicas e por um relatório detalhado sobre cada decisão tomada durante o voo entre Turquia e Reino Unido. Parlamentares querem saber quem sabia da ameaça, quem decidiu manter os demais passageiros no escuro e qual foi o papel do secretário de Estado na condução da crise.

A posição de Marco Rubio torna-se particularmente sensível. Ele aparece ao mesmo tempo como potencial alvo colateral da ameaça e como uma das poucas autoridades informadas a bordo. A oposição já sinaliza que pretende questionar se o secretário poderia ter exigido outro plano de evacuação ou, ao menos, informações claras para o restante da comitiva.

O caso também ecoa além das fronteiras americanas. A revelação de que o Irã mira diretamente Trump, e que a resposta de Washington envolve uma operação com alto potencial letal para dezenas de civis, tende a acentuar a tensão diplomática. Aliados observam com atenção a capacidade do governo americano de proteger sua própria linha de comando sem transformar auxiliares e imprensa em escudo humano.

Nos bastidores, a expectativa é de que a Casa Branca revise protocolos de segurança presidencial e de comunicação de risco. A tendência é que futuras viagens incluam regras mais rígidas para informar autoridades e repórteres sempre que uma ameaça concreta estiver em curso, ainda que isso limite o grau de sigilo das operações.

Enquanto o Congresso prepara suas próximas movimentações e organismos de imprensa organizam uma reação conjunta, o episódio já se impõe como um divisor de águas. A questão que permanece em aberto é até onde um governo pode ir para proteger o chefe de Estado sem romper o pacto básico de confiança com aqueles que viajam a seu lado.

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