Uma espécie de “impressão digital química” pode ajudar a descobrir de onde veio um pescado. A tecnologia está sendo desenvolvida por pesquisadores que combinaram técnicas de ressonância magnética nuclear (RMN) e metabolômica para identificar biomarcadores químicos capazes de diferenciar amostras de pescado de acordo com sua origem.
O estudo abre uma nova perspectiva para uma questão cada vez mais importante na cadeia do pescado: rastreabilidade.
A lógica é relativamente simples, embora a tecnologia empregada seja sofisticada. Cada ambiente deixa marcas na composição química dos organismos que nele vivem. Água, alimentação, características do ecossistema e condições ambientais podem influenciar o conjunto de moléculas presentes no pescado.
Ao analisar esse conjunto de informações, os pesquisadores conseguem identificar padrões químicos que funcionam como uma assinatura da amostra.
Como funciona a “impressão digital”
A ressonância magnética nuclear é uma técnica capaz de revelar informações sobre a composição química de uma amostra. Já a metabolômica permite analisar, de maneira ampla, os metabólitos presentes em um organismo ou tecido.
Quando essas ferramentas são combinadas, os pesquisadores conseguem trabalhar com uma grande quantidade de informações químicas e procurar padrões que diferenciem as amostras.
É daí que surge a comparação com uma impressão digital.
Em vez de identificar uma pessoa pelas linhas existentes nas pontas dos dedos, a metodologia procura identificar o pescado a partir de sua assinatura química.
O objetivo não é simplesmente saber qual é a espécie. A proposta é avançar na capacidade de determinar a procedência geográfica do produto, criando uma ferramenta complementar aos sistemas tradicionais de rastreabilidade.
Origem passa a ser atributo de valor
A possibilidade de identificar a origem do pescado tem implicações que vão além da pesquisa científica.
Em mercados cada vez mais preocupados com qualidade, segurança dos alimentos, sustentabilidade e procedência, saber onde um produto foi produzido ou capturado pode representar um diferencial comercial.
A rastreabilidade permite acompanhar o caminho do alimento ao longo da cadeia e pode aumentar a confiança entre produtores, indústria, comerciantes e consumidores.
Para produtos associados a determinadas regiões, a informação sobre origem também pode contribuir para a valorização territorial.
Esse aspecto é particularmente relevante para comunidades pesqueiras e cadeias que trabalham com produtos de identidade regional. Quando características próprias de um ambiente podem ser identificadas cientificamente, elas podem ajudar a diferenciar aquele pescado no mercado.
Tecnologia pode fortalecer fiscalização
Outra possibilidade está relacionada ao controle e à fiscalização.
Uma ferramenta capaz de identificar padrões químicos associados à origem pode, no futuro, contribuir para verificar se a informação declarada na comercialização corresponde efetivamente às características do produto.
Isso pode ser especialmente importante em cadeias nas quais a procedência influencia o valor comercial.
A tecnologia também pode complementar outras ferramentas utilizadas na rastreabilidade, em vez de substituí-las. Sistemas de identificação, documentação, registros de captura e movimentação do produto continuam sendo importantes para acompanhar o pescado desde a origem até o consumidor.
A análise química acrescenta uma camada de evidência científica sobre a própria composição do produto.
Pesquisa dialoga com a valorização do pescado brasileiro
O avanço da rastreabilidade ocorre em um momento em que o Brasil busca ampliar a produção e o consumo de pescado e desenvolver mercados de maior valor agregado.
Para isso, não basta aumentar a oferta. É necessário também melhorar os mecanismos de controle de qualidade, segurança e diferenciação dos produtos.
A identificação de uma assinatura química pode contribuir justamente nesse ponto.
A Embrapa já desenvolve pesquisas relacionadas à caracterização físico-química e sensorial de pescados. Em trabalho anterior, pesquisadores organizaram um banco de dados com informações sobre espécies como garoupa, robalo, bijupirá, atuns, camarão e salmão, reunindo dados sobre pH, aroma, cor, textura e outras características importantes para a qualidade e o desenvolvimento de produtos. (Embrapa)
Esses conhecimentos ajudam a compreender como as características químicas e sensoriais do pescado podem ser utilizadas tanto pela indústria quanto pela pesquisa.
Um novo caminho para a rastreabilidade
A “impressão digital química” ainda deve ser entendida como uma ferramenta científica em desenvolvimento e validação, e não como um sistema pronto para uso generalizado na fiscalização ou na comercialização.
Para que uma tecnologia desse tipo possa ser aplicada em escala, é necessário ampliar bancos de dados, testar amostras de diferentes regiões e estabelecer referências capazes de distinguir adequadamente as origens.
Esse processo é fundamental porque a composição química de um pescado pode sofrer influência de diversos fatores, e os pesquisadores precisam separar aquilo que é característico de determinada origem daquilo que resulta de outras condições.
Ainda assim, o avanço representa uma perspectiva importante para a cadeia.
Quanto mais precisa for a capacidade de identificar a origem de um alimento, maior tende a ser a possibilidade de agregar confiança, transparência e valor ao produto.
No caso do pescado, a tecnologia desenvolvida pela pesquisa abre caminho para que a química e a ciência dos alimentos se tornem aliadas da rastreabilidade, da fiscalização e da valorização da produção pesqueira.
Para um setor que reúne pesca artesanal, aquicultura, indústria e comércio, transformar a origem em uma informação verificável pode ser um passo importante para fortalecer a relação entre quem produz, quem comercializa e quem consome.
Fonte: Embrapa.