Gilberto Kassab, dirigente do PSD e candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado, afirma que o Centrão está com Lula e que Flávio Bolsonaro tem “chance zero” de vencer a eleição presidencial. A avaliação ocorre em meio à disputa por apoio de partidos médios e grandes, decisivos para o tempo de TV e a capilaridade de campanha.
Kassab mira Flávio e expõe alinhamento do Centrão
As declarações de Kassab vêm à tona depois de um jantar em São Paulo com empresários do agronegócio, da mineração, da indústria e formadores de opinião, realizado na noite de ontem. Ao lado de Ronaldo Caiado, ele apresentou a candidatura como alternativa ao governo Lula e ao campo bolsonarista, mas deixou claro onde enxerga hoje a força do bloco conhecido como Centrão.
Segundo Kassab, os partidos desse agrupamento, como MDB, PP, União Brasil e Republicanos, ao não lançarem candidato próprio ao Planalto, se alinham, na prática, ao presidente.
“Na hora que esses partidos do Centrão não estão apoiando o Caiado, eles estão com Lula”, disse, ao comentar os movimentos de adesão dessas siglas ao governo.

O dirigente também calculou o efeito dessa estratégia sobre o horário eleitoral gratuito. Ao abrir mão de disputar a Presidência, os partidos transferem tempo de televisão para as demais candidaturas. Kassab projeta que Caiado terá cerca de 2 minutos e 20 segundos por bloco, espaço que ele descreve como “quase uma novela no horário gratuito”. Para ele, esse tempo “vai fazer a diferença” na tentativa de apresentar o governador goiano ao eleitorado nacional.
Ataques a Flávio Bolsonaro e disputa por empresários
No mesmo evento, Kassab mirou diretamente Flávio Bolsonaro, senador do PL e principal nome do campo bolsonarista na corrida presidencial. Na avaliação do dirigente, o parlamentar só ainda não sofre desgaste maior porque vem sendo “preservado” pelo PT, que evita ataques diretos antes do início oficial da campanha.
Ele afirma, porém, que essa trégua acaba quando o horário eleitoral começar e o confronto se intensificar.
“A chance de o Flávio se eleger é zero. Não tem a menor chance”, declarou.

Kassab diz acreditar que, com a exposição dos “problemas” do senador, a candidatura “vai desabar” diante do escrutínio público.
A leitura do vice de Caiado aponta para uma disputa polarizada entre Lula, sustentado por parte expressiva do Centrão, e um campo conservador fragmentado, em que Flávio tenta ocupar o espaço do pai, mas enfrenta rejeição crescente. O diagnóstico é dirigido especialmente à plateia empresarial que avalia onde ancorar recursos e influência política nos próximos meses.
Empresariado e agenda econômica em jogo
O encontro em São Paulo tem papel estratégico para a campanha de Caiado, que tenta se apresentar como opção liberal-conservadora capaz de dialogar com o agronegócio, a indústria e a mineração. Kassab pediu que os presentes “compare os times” dos presidenciáveis e ajudem a impulsionar o nome do goiano em redes sociais e grupos de mensagem.
Nas conversas com empresários, o dirigente reforçou um discurso de ajuste do Estado sem aumento de impostos. Afirma que o Brasil pode crescer “sem aumentar carga tributária”, desde que faça cortes na máquina pública, combata desvios e reduza privilégios. A mensagem mira diretamente a preocupação do setor produtivo com custos e previsibilidade regulatória.

Kassab também repetiu bandeiras históricas suas e de Caiado, como uma reforma política que institua voto distrital, para aproximar eleitos e eleitores e reduzir o peso de “puxadores de voto”. Criticou, como exemplos do modelo atual, o deputado Nikolas Ferreira e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, classificados como produto de um sistema que, em sua visão, distorce a representação.
Centrão como fiador e impacto na campanha de 2026
Ao sustentar que o Centrão está majoritariamente ao lado de Lula, Kassab reforça a imagem do bloco como fiador da governabilidade em Brasília. Esses partidos controlam fatias relevantes do Congresso, verbas do Orçamento e estruturas regionais que podem definir disputas apertadas em diversos Estados.
Na prática, o alinhamento facilita a aprovação de projetos do Executivo e fortalece a capacidade do governo de mobilizar recursos e apoios locais durante a campanha. Esse cenário pressiona candidaturas de oposição, como as de Flávio Bolsonaro e de Caiado, a buscar novas alianças ou explorar fissuras internas nesse grupo.
Dentro do PL, a fala de Kassab tende a ser interpretada como tentativa de esvaziar a candidatura de Flávio e atrair o empresariado para uma alternativa mais palatável ao centro político. A reação deve vir em forma de ataques à credibilidade do dirigente do PSD e à sua trajetória de articulador, além da construção de uma narrativa de perseguição contra o senador.
No campo lulista, o discurso de Kassab pode ser capitalizado como prova de força e de isolamento do bolsonarismo. A expectativa no entorno do presidente é que o apoio formal e informal de legendas do Centrão ajude a ampliar o leque de alianças, principalmente em Estados-chave, e dificulte a vida de adversários nas disputas regionais.
Próximos movimentos e reconfiguração das alianças
A partir de agora, a tendência é de aumento da temperatura política. Com a campanha em ritmo acelerado, o PT deve calibrar quando e como expor os “problemas” de Flávio Bolsonaro, tema que Kassab antecipa como central na disputa. A forma como esses ataques serão conduzidos pode definir o tom do embate com o PL.
Se o diagnóstico de Kassab se confirmar e a candidatura de Flávio perder tração ao longo da campanha, abre-se espaço para rearranjos no campo conservador e para novas composições com partidos do centro. Uma queda do senador pode levar parte desse eleitorado a buscar outra liderança ou a se abster, o que mexe diretamente nas contas de Lula e de Caiado.
O desfecho dessa disputa passa, sobretudo, pela capacidade dos presidenciáveis de converter apoio empresarial e de máquinas partidárias em voto popular. Também depende da habilidade do Centrão de administrar suas múltiplas lealdades entre o governo, as bases regionais e os interesses de curto prazo. Até lá, declarações como as de Kassab funcionam como termômetro da correlação de forças em Brasília e como recado direto ao mercado e ao mundo político.