O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a colocar Fernando Haddad (PT) entre os nomes capazes de ocupar um papel central no futuro da esquerda brasileira. Desta vez, porém, o elogio veio acompanhado de uma cobrança pública: na avaliação do presidente, o ex-ministro da Fazenda tem grande potencial de crescimento, mas ainda precisa avançar na construção de uma liderança política nacional.
A declaração foi feita nesta sexta-feira (14), durante entrevista aos podcasts Não Inviabilize e As Cunhãs. Lula afirmou que Haddad possui “potencial de crescimento extraordinário”, mas ressaltou que, para se tornar líder, é necessário demonstrar iniciativa, dedicação e coragem.
O que Lula disse sobre Haddad?
Ao falar sobre a formação de novas lideranças políticas, Lula apresentou sua própria definição do que considera necessário para alguém assumir essa posição.
Para o presidente, não basta ter potencial eleitoral ou ocupar cargos importantes. É necessário estar disposto a assumir responsabilidades e construir a própria força política.
Lula afirmou que Haddad tem condições de crescer, mas precisa dar um passo além para consolidar esse papel. Em sua avaliação, um líder deve tomar iniciativa, trabalhar intensamente e não esperar que outras pessoas façam o trabalho por ele.

Haddad pode realmente ser o sucessor de Lula?
A possibilidade não surgiu agora. No início de agosto, durante a convenção que confirmou sua candidatura à reeleição, Lula já havia citado Haddad ao falar sobre quem poderia ocupar a Presidência da República no futuro.
Na ocasião, o presidente projetou um cenário em que Haddad governaria São Paulo e posteriormente poderia chegar ao Palácio do Planalto. Lula também mencionou que futuros nomes poderiam surgir de estados como Piauí, Ceará e Pernambuco.
A declaração desta sexta-feira acrescenta uma nova camada ao assunto.
Lula reconhece o potencial de Haddad, mas deixa claro que considera necessário construir algo que não depende apenas de indicação partidária: liderança própria.
Lula diz que Brasil tem poucos líderes nacionais
O debate vai além de Haddad. Ao falar sobre o futuro político do país, Lula afirmou que atualmente enxerga apenas ele próprio e Jair Bolsonaro como figuras reconhecidas nacionalmente como líderes políticos.
Na avaliação do presidente, outras figuras possuem força regional ou partidária, mas ainda precisam ampliar a presença nacional para ocupar esse espaço.
Isso ajuda a explicar por que a discussão sobre sua sucessão se tornou importante dentro da esquerda.

Por que a sucessão de Lula já entrou no debate?
Lula está novamente na disputa pela Presidência em 2026, mas já sinaliza que seu atual projeto eleitoral deverá representar sua última candidatura presidencial.
Isso cria uma questão estratégica para o campo político liderado pelo petista: quem ocupará esse espaço depois de Lula?
Durante décadas, Lula concentrou grande parte da força eleitoral e da projeção nacional da esquerda brasileira.
Encontrar um nome capaz de herdar parte desse capital político, portanto, envolve mais do que escolher um candidato.
É necessário construir reconhecimento nacional, alianças, capacidade eleitoral e uma relação direta com diferentes parcelas da população.
Haddad deixou o Ministério da Fazenda para disputar São Paulo
Haddad ocupou o Ministério da Fazenda até o início deste ano e deixou o governo para entrar novamente na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.
Segundo a reportagem, ele havia demonstrado resistência à possibilidade de concorrer ao governo paulista e pretendia inicialmente atuar nos bastidores da campanha presidencial de Lula.
A candidatura avançou após pressão do próprio presidente, diante da necessidade do PT de apresentar um nome competitivo para enfrentar o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Passagem pela Fazenda fortaleceu Haddad
O período no Ministério da Fazenda também é uma peça importante na construção política de Haddad.
Durante sua gestão, ele esteve à frente da área econômica e participou da condução de projetos considerados prioritários pelo governo, entre eles a reforma tributária e mudanças no Imposto de Renda.
A experiência ampliou sua exposição para além da política paulista e acrescentou a economia ao currículo de um político que já foi ministro da Educação e prefeito de São Paulo.
A questão levantada por Lula agora é diferente: transformar experiência administrativa e projeção pública em liderança política própria.
São Paulo pode ser decisivo para o futuro político de Haddad
A disputa paulista de 2026 ganhou importância ainda maior diante dessa discussão.
Haddad enfrenta novamente Tarcísio de Freitas na corrida pelo governo estadual. Em 2022, os dois já disputaram o Palácio dos Bandeirantes, com vitória de Tarcísio.
Uma eventual vitória de Haddad agora poderia ampliar significativamente sua projeção.
São Paulo concentra o maior eleitorado do país e possui peso econômico e político nacional. Governar o estado poderia oferecer ao petista uma plataforma importante para uma futura candidatura presidencial.
Uma derrota, por outro lado, obrigaria o PT a reavaliar os caminhos para sua sucessão política.
Lula também olha para outros nomes
Apesar da proximidade política com Haddad, Lula evita apresentar oficialmente um único herdeiro.
Além do ex-ministro, o presidente já mencionou outros políticos de seu campo como possíveis nomes capazes de crescer nacionalmente.
A estratégia indica que a sucessão ainda está aberta.
O próprio Lula argumenta que liderança não pode simplesmente ser transferida de uma pessoa para outra.
Ela precisa ser construída.

O que acontece agora?
No curto prazo, Haddad tem um desafio mais imediato: a eleição para o governo de São Paulo.
O resultado da disputa poderá influenciar diretamente seu peso dentro do PT e sua capacidade de se apresentar futuramente como um nome presidencial.
Para Lula, entretanto, a construção de um sucessor não depende somente das urnas.
A mensagem desta sexta-feira foi clara: Haddad possui potencial, mas precisará construir uma liderança que sobreviva politicamente sem depender exclusivamente da força do próprio Lula.
ENTENDA O CONTEXTO
Fernando Haddad é um dos principais aliados políticos de Lula e já ocupou posições importantes em governos petistas. Em 2018, assumiu a candidatura presidencial do PT depois que Lula foi impedido de concorrer e chegou ao segundo turno contra Jair Bolsonaro.
Mais recentemente, comandou o Ministério da Fazenda e ganhou protagonismo na condução da política econômica do governo.
Em 2026, deixou a pasta para disputar novamente o governo de São Paulo, em uma eleição considerada estratégica para o PT.
Ao mesmo tempo, Lula passou a falar com mais frequência sobre a necessidade de formação de novas lideranças nacionais.
É nesse cenário que Haddad aparece como um dos potenciais nomes para o futuro. O presidente, porém, deixou uma condição política explícita: para sucedê-lo, não basta ser escolhido por Lula — será necessário construir força própria.