Os conflitos entre mãe e filha ganham o centro do palco em “Querida Mamãe”, espetáculo com Regiane Alves e Nívea Maria que chega a Belo Horizonte para duas sessões no Teatro Feluma. A montagem, dirigida por Pedro Neschling, aposta em emoções cruas e memórias doloridas para falar de amor, mágoas e preconceitos dentro de casa.
A peça integra a 3ª edição do Festival de Teatros Seguros Unimed e se apresenta nos dias 1º e 2 de setembro, às 20h, no teatro da Alameda Ezequiel Dias, no Centro da capital mineira. Em cena, um encontro íntimo entre duas gerações promete atingir em cheio quem carrega pendências com a própria família.
Reencontro de mãe e filha expõe feridas antigas
O texto de Maria Adelaide Amaral, um dos mais premiados de sua carreira, parte de um reencontro forçado entre Ruth, vivida por Nívea Maria, e Helô, interpretada por Regiane Alves. As duas personagens se movem entre lembranças, cobranças e silêncios que atravessam a relação há décadas.
Inspirada na relação da autora com sua própria mãe, a trama mostra uma mãe e uma filha que se amam, mas têm dificuldade em nomear esse afeto. Entre uma conversa e outra, emergem temas como preconceito, liberdade individual, frustração com escolhas de vida e a culpa que muitas mulheres carregam por não corresponder às expectativas da família.
As cenas evitam maniqueísmos. Ruth não é apenas a mãe controladora nem Helô se resume à filha rebelde. As duas se revezam em acusações e defesas, numa espécie de acerto de contas tardio em que o público é convidado a reconhecer erros próprios e alheios.
Regiane Alves leva vivência de mãe e filha para o palco
O trabalho toca diretamente a biografia de Regiane Alves, que hoje vive simultaneamente os papéis de mãe e filha fora de cena. Ela conta que muitas falas da personagem parecem retiradas de conversas reais com o filho.
“Na peça, eu vivo a filha, mas, na vida real, também sou mãe. Então, há falas e atitudes no texto que eu já vivenciei com o meu filho. É uma reflexão importante para entender esses conflitos e conseguir enxergar os dois lados, o de mãe e o de filho”, diz a atriz.
A montagem marca o primeiro encontro de Regiane e Nívea Maria no palco, apesar de trajetórias longas na TV e no teatro. Essa estreia conjunta, somada ao histórico do texto, ajuda a explicar a expectativa em torno das apresentações em Belo Horizonte. O espetáculo já acumula reconhecimentos como os troféus Molière, Mambembe e Shell de Melhor Texto, além de prêmios Governador do Estado de São Paulo, Ziembinski, APCA e APETESP.
Nívea Maria destaca a identificação que a peça provoca, especialmente entre mulheres que transitam entre os papéis de mãe, filha e cuidadora.
“A identificação da mulher-mãe nessa peça é com tudo, com todas as situações, com todas as relações, com todas as opiniões, com todos os preconceitos e com todas as aceitações. Porque a mulher é uma pessoa muito complexa e a peça mostra isso”, afirma.
Festival aposta em segurança e proximidade com o público
“Querida Mamãe” chega a BH dentro do Festival de Teatros Seguros Unimed, que em sua 3ª edição mantém o foco em produções com estrutura profissional e cuidado com o público. A escolha do Teatro Feluma, na Alameda Ezequiel Dias, 275, 7º andar, reforça essa aposta em conforto e acessibilidade no Centro da cidade.
Os ingressos, disponíveis pela plataforma Sympla, variam de R$ 25 a R$ 160, o que abre espaço para públicos diferentes, mas também cria um teto alto para quem enfrenta o orçamento apertado. A organização aposta no apelo das artistas e no boca a boca para ocupar as poltronas mineiras.
O festival dá visibilidade ao circuito teatral local, que convive com a concorrência do streaming e de grandes shows. Ao trazer um texto consagrado com elenco de televisão, a programação busca atrair quem se afastou das salas de teatro e oferecer um primeiro contato a espectadores pouco habituados à linguagem cênica.
Impacto no teatro brasileiro e próximos passos
A montagem recoloca Maria Adelaide Amaral no centro do debate sobre como o teatro brasileiro retrata a família. Em vez de tratar a mãe como figura idealizada, “Querida Mamãe” expõe contradições e preconceitos que atravessam gerações, sem abandonar a ternura que muitas vezes sustenta esses laços.
Para Regiane Alves, o trabalho dialoga com o momento em que ela revisita sua própria história à luz da maternidade. O público que acompanha a atriz em novelas recentes encontra no palco uma faceta menos glamourosa e mais frágil, que tende a ampliar a identificação de mulheres de diferentes idades.
As duas apresentações em Belo Horizonte funcionam como termômetro para a circulação do espetáculo por outras cidades e festivais. A recepção do público e da crítica pode impulsionar novas temporadas e reforçar o prestígio de um texto que já se firma como referência quando o assunto são relações familiares no palco.
Se o movimento se confirmar, “Querida Mamãe” deve seguir abrindo espaço para discussões sobre como mães e filhas se veem, se cobram e se perdoam, num país em que o peso da família ainda orienta escolhas íntimas e coletivas. A estreia mineira testa, na prática, a força dessas questões perante um público diverso, disposto a se reconhecer no espelho cruel e afetuoso que o teatro oferece.