Laura Cardoso, que morreu aos 98 anos, deixa uma das trajetórias mais extensas e respeitadas da dramaturgia brasileira. Foram mais de oito décadas dedicadas à televisão, ao teatro, ao cinema e à dublagem, em uma carreira marcada pela capacidade de interpretar personagens completamente diferentes entre si.
Do humor à vilania, passando por dramas familiares, personagens populares e figuras carregadas de mistério, Laura construiu uma relação particular com o público. Para várias gerações de brasileiros, seu rosto ficou associado a novelas que atravessaram décadas e se transformaram em parte da memória afetiva da televisão.
Entre tantos trabalhos, alguns personagens se destacaram especialmente. Relembre sete papéis que ajudaram a consolidar o legado da atriz.
Donana, de Pão-Pão, Beijo-Beijo (1983)
Pouco depois de sua chegada à Globo, Laura Cardoso interpretou Donana, uma das personagens que mais evidenciaram sua capacidade de trabalhar com o humor.
Mulher de origem italiana, expansiva, maternal e temperamental, Donana ajudava a dar o tom cômico à trama. A personagem permitiu que Laura explorasse características que se tornariam recorrentes em sua carreira: o domínio do humor, a expressividade e a capacidade de alternar momentos de leveza com cenas mais emocionais.
A atuação também ajudou a aproximar a atriz ainda mais do grande público em um período de consolidação de sua carreira na televisão.

Isaura, de Mulheres de Areia (1993)
Na novela Mulheres de Areia, Laura Cardoso interpretou Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, vividas por Gloria Pires.
A trama ficou marcada pela dualidade entre as duas irmãs — uma apresentada como bondosa e outra como antagonista —, e Laura teve papel importante dentro desse núcleo familiar.
Como Isaura, a atriz transitou entre a figura materna carinhosa e momentos mais duros, acompanhando as tensões provocadas pelas diferenças entre as filhas.
A novela se tornou um dos grandes sucessos da televisão brasileira e ajudou a consolidar Laura entre os nomes mais reconhecidos da dramaturgia nacional nos anos 1990.

Guiomar, de A Viagem (1994)
Um ano depois, Laura apareceu em um registro completamente diferente em A Viagem.
Como Guiomar, a atriz interpretou uma personagem possessiva que acaba atormentada pelo espírito vingativo de Alexandre, vivido por Guilherme Fontes. A novela explorava temas como espiritualidade, vida após a morte e vingança, e algumas das cenas protagonizadas por Laura ganharam um tom particularmente assustador.
Na época, o trabalho chegou a assustar crianças que acompanhavam a novela. Décadas depois, entretanto, algumas das cenas entre Guiomar e Alexandre ganharam uma nova vida na internet e passaram a aparecer em memes e conteúdos nostálgicos.
É um exemplo da capacidade de Laura de transformar uma personagem dramática em uma figura que permanece reconhecível mesmo muito tempo depois de a novela sair do ar.

Dona Carmem, de Chocolate com Pimenta (2003)
Laura voltou ao humor em Chocolate com Pimenta, novela exibida em 2003.
Dona Carmem era a avó de uma família do núcleo rural da história e conquistou o público justamente pela simplicidade, pelo jeito divertido e pela dinâmica familiar.
O papel mostrou novamente uma das características mais fortes da atriz: a capacidade de criar personagens populares sem transformá-los em caricaturas.
Mesmo em uma novela repleta de personagens marcantes, Laura conseguia imprimir sua personalidade às cenas e estabelecer uma relação imediata com o público.

Outros personagens que marcaram a carreira
A lista de trabalhos memoráveis de Laura Cardoso está longe de terminar nesses quatro papéis.
Entre outros personagens importantes estão Caetana, de O Outro Lado do Paraíso; Laksmi Ananda, de Caminho das Índias; e Doroteia, de Gabriela.

A atriz também participou de A Dona do Pedaço, em 2019, em uma das fases mais recentes de sua trajetória na televisão.

Outro trabalho de destaque foi Sinhana, no remake de Irmãos Coragem, em 1995. Pela atuação, Laura recebeu o Troféu APCA de Melhor Atriz.
Uma carreira que atravessou gerações
A trajetória de Laura Cardoso começou muito antes de sua consagração nas novelas. Ao longo das décadas, ela passou por diferentes momentos da televisão brasileira e trabalhou em produções de várias emissoras e formatos.
Na televisão, sua lista de trabalhos inclui novelas como Brilhante, Renúncia, Ninho da Serpente, Pão-Pão, Beijo-Beijo, Livre para Voar, Fera Radical, Rainha da Sucata, Felicidade, Mulheres de Areia, A Viagem, Irmãos Coragem, Explode Coração, Salsa e Merengue, Meu Bem Querer, Vila Madalena, Vidas Cruzadas, A Padroeira, Esperança, Chocolate com Pimenta, Como uma Onda, O Profeta, Caminho das Índias, Araguaia, Gabriela, Flor do Caribe, Boogie Oogie, Sol Nascente, O Outro Lado do Paraíso e A Dona do Pedaço.
A variedade mostra como a atriz conseguiu permanecer relevante mesmo com as mudanças pelas quais a televisão brasileira passou ao longo de décadas.
Laura Cardoso também brilhou no cinema
Embora seja especialmente lembrada pelas novelas, Laura Cardoso também construiu uma carreira importante no cinema.
A atriz participou de mais de 20 filmes, entre eles Terra Estrangeira, de 1995, e Através da Janela, de 2000.
Foi justamente por Através da Janela que Laura recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Miami, reconhecimento internacional para uma carreira que já era consagrada no Brasil.
O cinema permitiu que ela explorasse registros diferentes daqueles apresentados nas novelas e reforçou sua reputação como uma intérprete de grande alcance dramático.
No teatro, uma trajetória igualmente respeitada
O palco também ocupou um espaço fundamental na carreira de Laura Cardoso.
Em 2014, ela protagonizou A Última Sessão, peça escrita e dirigida por Odilon Wagner. O espetáculo colocou a atriz novamente no centro de uma produção teatral, demonstrando que sua carreira não se limitava ao meio televisivo.
Laura também recebeu importantes reconhecimentos por sua trajetória no teatro. Entre eles estão os Prêmios Shell de Teatro de 1990 e 1993.
Em 2006, recebeu ainda a Ordem do Mérito Cultural, uma das principais homenagens concedidas pelo governo brasileiro a personalidades que contribuíram para a cultura do país.

Até a dublagem fez parte da carreira
A versatilidade de Laura também alcançou a dublagem.
Na década de 1960, a atriz emprestou sua voz à personagem Netty, de Os Flintstones, em um período em que a televisão brasileira ainda consolidava a tradição de adaptar e dublar produções estrangeiras para o público nacional.
O trabalho é mais uma lembrança de como sua carreira atravessou diferentes fases da indústria do entretenimento.
Um dos últimos trabalhos foi Dona Rosinha
Já em uma fase avançada da carreira, Laura continuou trabalhando.
Em 2025, lançou o curta-metragem Dona Rosinha, no qual interpretou a personagem-título. Na produção, ela vive uma idosa abandonada pela própria filha que acaba acolhida por uma nova família.

O trabalho ganhou um significado especial por reunir a experiência acumulada pela atriz ao longo de décadas com uma personagem diretamente ligada à velhice, à solidão e aos vínculos familiares.
Um legado premiado
A carreira de Laura Cardoso foi acompanhada por diversos prêmios e homenagens.
Além dos Prêmios Shell de Teatro, recebidos em 1990 e 1993, e da Ordem do Mérito Cultural, em 2006, a atriz conquistou o Troféu APCA de Melhor Atriz por sua atuação como Sinhana no remake de Irmãos Coragem, em 1995.
Mais do que a quantidade de trabalhos, porém, o principal legado de Laura está na permanência de seus personagens.
Ela conseguiu atravessar gerações sem ficar presa a uma única imagem. Foi engraçada, dramática, maternal, assustadora, popular e sofisticada. Interpretou mulheres comuns e personagens extraordinárias, transitando entre diferentes gêneros e estilos sem perder a própria identidade como atriz.
Por isso, relembrar Laura Cardoso é também revisitar diferentes épocas da televisão brasileira. De Pão-Pão, Beijo-Beijo a A Dona do Pedaço, passando por Mulheres de Areia, A Viagem, Chocolate com Pimenta, Caminho das Índias e tantas outras produções, sua presença ajudou a construir a memória afetiva de milhões de brasileiros.
A carreira termina, mas as personagens permanecem — guardadas naquelas cenas que a televisão repete, nos capítulos que o público revê e na memória de quem cresceu acompanhando Laura Cardoso em cena.