Fígado: gordura afeta 30% e preocupa médicos no Brasil

Conheça os riscos e tratamentos para a gordura no fígado, condição que afeta milhões de brasileiros e está ligada à síndrome metabólica.
Redação NC News
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A gordura no fígado, antes tratada como um achado quase acidental nos exames de imagem, hoje entra no centro das preocupações de hepatologistas e nutrólogos no Brasil. A condição, conhecida como esteatose hepática, afeta cerca de 30% da população e passa a ser vista como um sinal claro de descontrole metabólico.

Essa mudança de olhar altera a forma como médicos orientam pacientes, pressiona políticas públicas de alimentação e reorganiza a fila de prioridades dentro dos consultórios, laboratórios e até da indústria farmacêutica.

Do fígado isolado à síndrome metabólica

O reposicionamento da doença começa pela linguagem. A esteatose deixa de ser descrita apenas como “gordura no fígado” e passa a integrar o conceito de doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, sigla MASLD na literatura médica. A nova nomenclatura reflete o que especialistas já veem no dia a dia: o fígado funciona como um termômetro do metabolismo inteiro.

Resistência à insulina, excesso de peso, colesterol e triglicerídeos alterados, pressão alta e acúmulo de gordura abdominal formam o pano de fundo de grande parte dos casos. Não se trata mais de um problema exclusivamente hepático, mas de um componente de um quadro metabólico amplo, que também aumenta o risco de infarto, derrame e diabetes.

O nutrólogo Marcio Nutels, que acompanha pacientes com esteatose, resume o mecanismo em linguagem simples. Segundo ele, cada organismo tem um limite para estocar gordura no tecido adiposo. Quando esse limite é ultrapassado, o excedente passa a ser despejado onde não deveria.

“O problema surge quando esse limite é ultrapassado e o excesso passa a ser direcionado para outros tecidos”, explica.

No fígado, esse depósito ocorre dentro dos hepatócitos, as células responsáveis por funções essenciais do órgão.

Trinta por cento dos brasileiros atingidos

Levantamentos da Sociedade Brasileira de Hepatologia e do Instituto Brasileiro do Fígado (Ibrafig) apontam que cerca de três em cada dez brasileiros convivem hoje com esteatose hepática. Em parte expressiva desses casos, o paciente não sente nada. Sem dor nem sintomas óbvios, a doença avança silenciosamente.

Quando não é identificada a tempo, a gordura pode desencadear inflamação, levando à formação de fibrose. O processo cicatricial progressivo abre caminho para cirrose, eleva o risco de câncer no fígado e se soma a outros fatores que aumentam a chance de eventos cardiovasculares graves. O órgão que muitos ainda associam apenas à digestão de gorduras assume papel central na saúde do coração, do cérebro e do pâncreas.

Esse cenário preocupa hepatologistas e nutrólogos porque a esteatose costuma aparecer em pessoas com rotina distante do que se prega nos guias de alimentação saudável: pouco movimento, excesso de calorias e uso frequente de alimentos ultraprocessados, ricos em farinha e açúcar.

Ultrassom, FIB-4 e elastografia na linha de frente

O exame que primeiro entrega o problema costuma ser a ultrassonografia abdominal, amplamente disponível na rede pública e privada. O laudo descreve o fígado com aspecto “brilhante” ou aumentado, típico da infiltração gordurosa. A partir daí, o desafio deixa de ser ver a gordura e passa a medir o estrago.

Médicos avaliam fatores de risco e usam ferramentas simples, como o índice FIB-4, calculado a partir de dados como idade, níveis de enzimas hepáticas e contagem de plaquetas. Quando necessário, recorrem à elastografia, exame que avalia a rigidez do fígado e ajuda a estimar o grau de fibrose, muitas vezes sem necessidade de biópsia.

A tendência é que a procura por esses exames cresça, à medida que a população se familiarize com a expressão “fígado gorduroso” e associa o achado a algo mais sério que um detalhe do check-up. Para serviços de imagem, laboratórios e planos de saúde, isso significa reorganizar fluxos, incorporar protocolos e preparar equipes para explicar laudos que antes passavam quase em branco.

O papel dos carboidratos e dos sucos no prato

O debate sobre causas e prevenção chega direto à cozinha. A velha ideia de que a gordura da carne é a principal vilã perde espaço diante de um novo culpado preferencial: os carboidratos refinados. Farinhas brancas, pães, massas, biscoitos, doces e bebidas açucaradas aparecem com destaque na lista de fatores de risco.

“Às vezes, o problema está mais no excesso de carboidratos do que na pequena quantidade de gordura da carne”, afirma Nutels.

A frase mira tanto a desinformação do público quanto a resistência cultural em reduzir o consumo de produtos ricos em açúcar e amido.

A frutose, açúcar natural das frutas, também entra na discussão. Na fruta inteira, ela vem acompanhada de fibras, que aumentam a saciedade e modulam a absorção. Quando a fruta vira suco, o cenário muda.

“Sem a mesma estrutura de fibras e com maior facilidade para consumir várias unidades de uma vez, a bebida pode concentrar uma quantidade significativa de açúcar”, alerta o nutrólogo.

Especialistas recomendam, sobretudo para quem já tem excesso de peso ou alterações metabólicas, priorizar a fruta inteira no lugar de sucos em grande quantidade, especialmente os industrializados ou adoçados. O movimento reforça a pressão sobre a indústria de bebidas e produtos ultraprocessados, que vê crescer o escrutínio sobre açúcares adicionados e alegações de saudabilidade.

Tratamento vai além de remédios e “canetas emagrecedoras”

A base do tratamento continua sendo mudança de estilo de vida. Alimentação equilibrada, com menos ultraprocessados e mais alimentos in natura, e prática regular de atividade física se mantêm como pilares. Perdas modestas de peso já são capazes de reduzir significativamente a gordura no fígado em muitos pacientes.

Medicamentos entram como complemento, não como solução isolada. Fármacos para controle de peso e de disfunções metabólicas, incluindo as chamadas “canetas emagrecedoras”, podem ser indicados caso a caso, conforme o perfil clínico e a presença de outras doenças. O avanço dessas terapias movimenta a indústria farmacêutica e acende debates sobre acesso, custo e uso responsável.

A adoção do novo enquadramento como doença ligada à disfunção metabólica também ajuda a reduzir estigmas. Em vez de culpabilizar o paciente, a abordagem passa a enfatizar um conjunto de fatores biológicos, ambientais e comportamentais, facilitando a conversa sobre mudanças graduais e possíveis.

Entidades como a Sociedade Brasileira de Hepatologia e o Ibrafig defendem uma resposta integrada, que una hepatologistas, endocrinologistas, cardiologistas e nutricionistas, com foco na prevenção. Para o sistema de saúde, isso significa investir em educação alimentar, campanhas contra o excesso de açúcares e acesso a exames que detectem o problema antes que se transforme em cirrose ou câncer.

O desfecho dessa guinada ainda está em curso. A forma como governos, indústria e sociedade vão reagir ao alerta do fígado determinará se a esteatose continuará como uma bomba-relógio silenciosa ou se se tornará um ponto de virada na luta contra as doenças metabólicas no país.

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