Com medo de ver o filho de 4 anos sem o remédio que mantém as crises de epilepsia sob controle, a comissária de bordo Thais Jucá e o marido, o engenheiro elétrico João Jucá, estocaram quase 50 caixas de Depakote Sprinkle em Vinhedo (SP) em pouco mais de um mês, depois que a farmacêutica Abbott anunciou que vai descontinuar o medicamento no Brasil por motivos comerciais.
Por que a comissária está viajando por estados para estocar remédio de epilepsia para o filho?
Thais aproveita as rotas de trabalho para rodar farmácias em diferentes estados porque o Depakote Sprinkle, essencial no controle das crises do filho, está com os dias contados nas prateleiras brasileiras e não há opções nacionais com a mesma formulação adaptada para crianças.
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Entre um voo e outro, ela desembarca em capitais e cidades do interior e, antes de voltar para casa, passa em drogarias à procura de caixas ainda disponíveis. O objetivo é simples e angustiante: garantir o máximo possível de tratamento antes que o produto suma do mercado.
“Desesperador, porque você já passa por todo o diagnóstico, pela internação, pela UTI, pelo desespero de ter o filho nessa situação que a gente não imaginava. E aí quando você encontra uma saída, quando as coisas vão voltando ao normal, a rotina, você fala, eu tenho meu filho de volta? Não tenho. É muito difícil”, desabafa Thais.
O marido, João, relata que a busca começou assim que o casal foi informado da descontinuação. Eles dizem que, sem esse formato, as alternativas são comprimidos grandes, que o menino não consegue engolir e que não podem ser partidos, mastigados ou dissolvidos sem prejuízo ao tratamento.
Como funciona o Depakote Sprinkle
O Depakote Sprinkle é uma versão de ácido valpróico em cápsulas cheias de microgrânulos – o chamado formato “sprinkle”. A cápsula pode ser aberta e os grânulos, misturados a alimentos pastosos, como iogurte, o que facilita a administração para crianças pequenas e pessoas com dificuldade para engolir comprimidos.
Segundo o neurologista Willian Ferreira, do Vera Cruz Hospital, essa apresentação é decisiva para a adesão ao tratamento em muitos casos. “[No caso do Depakote] o grânulo dessa substância fica armazenado dentro dessa cápsula, então é passível de a gente partir essa cápsula e administrar junto a um alimento pastoso, um iogurte, então facilita muito bem essa questão da adesão também do paciente, principalmente nessa faixa etária mais pediátrica das crianças”, explica.
Ele destaca que não é só a substância ativa que importa, mas também a forma como o remédio é tomado. “A forma como o paciente se adapta com a medicação, não é apenas o mecanismo de ação, a substância em si, mas a tolerabilidade principalmente. Existe uma série de questões de tentativas prévias do paciente, às vezes o paciente não tolerou a formulação cápsula, então isso acaba realmente trazendo uma série de inseguranças para os pais”, afirma.
Qual medicamento para epilepsia deixará de ser vendido?
O medicamento que deixará de ser vendido no Brasil é o Depakote Sprinkle, fabricado pela Abbott, usado no controle de crises de epilepsia e conhecido pela formulação em microgrânulos dentro de cápsulas.
A empresa comunicou que vai encerrar definitivamente a fabricação e a importação do produto no país por razões comerciais. Em nota, esclareceu que a decisão não está ligada a problemas de qualidade, segurança ou eficácia e que as unidades disponíveis podem ser usadas normalmente até o fim do prazo de validade.
A recomendação da farmacêutica é que pacientes e familiares conversem com seus médicos sobre alternativas terapêuticas já comercializadas no Brasil, para planejar a transição de forma segura.
Entenda o contexto
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não tem instrumento legal para obrigar um laboratório a manter um remédio em linha, mas exige que as empresas comuniquem descontinuações definitivas ou temporárias com, no mínimo, 180 dias de antecedência. Também determina que o fornecimento seja mantido normalmente durante esse período.
Como o Depakote Sprinkle é a única apresentação com esse princípio ativo e formato específica no mercado brasileiro, a agência determinou que a Abbott mantenha o abastecimento por 12 meses após o anúncio. A medida busca dar tempo para que médicos façam ajustes de dose ou migrem o paciente a outro esquema terapêutico, reduzindo o risco de interrupção abrupta do tratamento.
Na prática, porém, famílias como a de Thais e João relatam que o remédio já começa a sumir das farmácias, o que acelera a corrida por estoques. Mesmo com quase 50 caixas em casa, eles se preocupam com o prazo de validade de cada lote e com o que virá depois que as últimas cápsulas forem usadas.
Como a falta do medicamento para epilepsia afeta o filho da comissária?
Para o menino de 4 anos, a retirada do Depakote Sprinkle do mercado ameaça tanto a estabilidade clínica quanto a rotina da família, que finalmente havia encontrado um tratamento eficaz e tolerável após internações e passagem por UTI.
O neurologista Willian Ferreira alerta que a troca brusca de medicação é arriscada. “O ideal é procurar uma avaliação precoce com o neurologista que acompanha para definir um novo plano terapêutico”, orienta. Segundo ele, cada paciente responde de forma diferente a substâncias e formatos, e mudanças precisam ser cuidadosamente planejadas para não desencadear novas crises convulsivas.
A ausência de um produto equivalente com microgrânulos significa que o menino pode ter de migrar para comprimidos ou outras formas menos adequadas à sua idade e ao seu perfil, o que tende a dificultar a adesão. Para os pais, esse cenário soma o medo de regressão no controle da epilepsia a uma nova maratona de consultas, exames e ajustes de dose.
A situação da família expõe um problema maior: a dependência de um único fabricante para uma formulação crucial no tratamento infantil e a falta de políticas públicas e incentivos à produção ou importação de alternativas pensadas para o público pediátrico. Enquanto não surgem novas opções no mercado, médicos e pacientes correm contra o relógio para redesenhar tratamentos e tentar manter, na medida do possível, a vida sob controle.