Por Você estreia hoje, às 19h, na Globo, colocando a amizade entre duas mulheres e a maternidade solo no centro da faixa das sete. A trama começa com a morte de Juli, vivida por Lucy Ramos, e a promessa que transforma a vida de Bela, protagonista de Sheron Menezzes.
Ambientada na fictícia Vila Maravilha, a história acompanha a médica obstetra que sempre prioriza a carreira e, de uma hora para outra, precisa criar quatro crianças órfãs. A novela aposta em temas como luto, responsabilidade afetiva e a mulher que equilibra trabalho, desejo de ser mãe – ou de não ser – e pressões sociais.
Tragédia, promessa e uma família que nasce do luto
O primeiro capítulo apresenta Bela como uma profissional obstinada, acostumada a ajudar outras famílias a nascer, sem imaginar esse destino para si. No passado, ela abriu mão de um grande amor, Gabriel, personagem de Thiago Lacerda, para seguir carreira. Maternidade nunca esteve em seus planos.
Juli, ao contrário, encontra sentido na criação dos quatro filhos – Peixe, Glorinha, Ítalo e Samuca. As duas cresceram juntas em Vila Maravilha, fizeram escolhas opostas, mas seguem unidas por uma amizade que sustenta a trama.
“A diferença surge dessa relação. Geralmente, as novelas são apresentadas a partir de um relacionamento romântico, e a nossa, parte da relação dessas duas amigas”, afirma o diretor André Câmara.
A virada vem com o acidente de carro que capota o veículo das duas amigas. Juli fica em estado grave e, antes de morrer, implora que Bela cuide de seus filhos. A presença da amiga se transforma em ausência, mas segue determinando os rumos de todos.
“A presença se transforma em ausência, mas essa ausência não é vazio. O luto é o amor insistindo em existir mesmo diante da falta. Essa ideia atravessa toda a obra”, define o diretor.
Enquanto Bela tenta digerir a perda, a missão de acolher as quatro crianças a obriga a reorganizar a própria vida. A médica que nunca quis ser mãe se vê, de imediato, na posição de responsável por um quarteto que bagunça sua casa, sua rotina e suas certezas.
Inspiração real e foco na mãe solo
Os autores Dino Cantarelli e Juliana Peres se inspiram em um caso real do Rio Grande do Norte. Uma policial civil atendeu a uma ocorrência, encontrou seis crianças completamente sozinhas e decidiu adotá-las, sob críticas de quem via “loucura” no gesto. O episódio ecoa na novela como eixo temático.
“Ela dizia que a loucura era deixar essas crianças sozinhas, abandonadas. Isso meio que vira o que permeia a nossa novela: a loucura de você deixar essas crianças nesse estado, sozinhas”, explica Dino.
A ideia é discutir a mãe solo e a mulher contemporânea que não coloca a maternidade como prioridade automática, mas é convocada pela realidade a ocupar esse lugar.
No set, Sheron Menezzes e Lucy Ramos reforçam essa discussão a partir das próprias experiências. Sheron é mãe de Benjamin, de 8 anos. Lucy é mãe de Kyara, ainda pequena, e espera o segundo filho. A maternidade ajuda a aprofundar a relação de amigas em cena.
“Estou muito feliz, realizada, dando tudo o que eu posso. Está sendo mágico, divertido. Eu e Sheron somos bem diferentes uma da outra, como a Juli e a Bela, mas a gente se dá muito bem. A gente se respeita, se entende, então é muito gostoso”, conta Lucy.
Sheron destaca que o tema foi decisivo para aceitar o papel.
“A primeira coisa que me encantou foi a relação feminina, falar de amizade, de mulheres, de maternidade, que é um assunto que me encanta. Falar de você querer ser mãe e querer ter uma carreira. Você ter essa opção. E quando cai no colo essa maternidade que não está nos planos da Bela e como ela lida com tudo aquilo”, diz a atriz, que também abandona o sotaque gaúcho para adotar o “carioquês” da personagem.
Hospital em ebulição e personagem educador preto às 19h
Enquanto a vida pessoal de Bela desaba, o hospital em que ela trabalha se torna outro campo de batalha. Logo de saída, a rivalidade com Vanessa, papel de Alinne Moraes, se expõe quando a vilã tenta barrar a internação de uma parturiente em seu hospital particular. Pérola, dona do hospital e mãe de Vanessa, interpretada por Renata Sorrah, apoia Bela e alimenta o conflito.
A discussão se amplia com a disputa pela presidência do hospital entre mãe e filha. Vanessa cogita demitir Bela para firmar poder. Gabriel, marido de Vanessa e ex-noivo de Bela, adiciona tensão afetiva ao embate. O triângulo mistura ressentimento, ciúmes e escolhas passadas que voltam à tona enquanto a protagonista tenta se adaptar à nova família improvisada.
O acidente que tira a vida de Juli tem um responsável: Juarez, vivido por Milhem Cortaz. Ele causa a batida, foge sem prestar socorro e passa a carregar uma culpa que promete render desdobramentos morais e jurídicos ao longo da novela. A tragédia inicial não é só gatilho para a adoção das crianças, mas também para discutir responsabilidade e justiça.
No núcleo afetivo de Bela, Amaury Lorenzo assume o primeiro mocinho da carreira, Lucas, um educador negro apaixonado pelo ensino. Ele é um dos pares românticos da protagonista, mas o personagem vai além da função amorosa.
“Lucas é um personagem que é um educador preto na novela das sete. É um presente. Temos nossas dificuldades educacionais, mas a gente não desiste. É uma oportunidade receber esse personagem, é o que mais se aproxima de mim, próximo dessa possibilidade do âmbito educacional”, afirma o ator, que faz questão de “celebrar esse lugar” e agradecer autores e direção.
Impacto na faixa das sete e o que vem pela frente
Por Você mexe na fórmula clássica das 19h ao colocar em segundo plano o romance tradicional e priorizar o elo entre Bela e Juli, mesmo depois da morte da técnica de enfermagem. O foco em maternidade solo, luto e amizade feminina abre espaço para campanhas sociais, ações de merchandising ligadas à infância, adoção e saúde da mulher, além de debates sobre acolhimento coletivo.
Na prática, a faixa passa a exibir uma protagonista que representa a mulher que trabalha, pensa a própria trajetória e, de repente, se vê responsável por quatro crianças sem ter planejado isso. O público feminino ganha um espelho mais realista, que admite ambivalências e conflitos, e os anunciantes lidam com uma novela mais conectada a causas sociais do que a tramas puramente românticas.
Há espaço para resistência de parte da audiência que prefere a comédia leve e os casais centrais típicos do horário. A recepção inicial, porém, indica curiosidade pela proposta e elogios à química entre Sheron Menezzes e Lucy Ramos. Autores e direção prometem insistir na ideia do luto como forma de amor e seguir explorando as tensões do ambiente hospitalar e da nova rotina de Bela com as crianças.
Nos próximos capítulos, o arco de culpa de Juarez deve ganhar peso, assim como as disputas de poder dentro do hospital e a trajetória de Lucas como educador negro em horário nobre. Se conseguir manter a conexão com discussões sobre maternidade, trabalho e inclusão racial, Por Você tende a influenciar outras produções e ampliar o espaço para narrativas centradas em experiências femininas complexas.