Laura Cardoso, dama maior da dramaturgia brasileira, morre aos 98 anos em sua casa, de causas naturais, por volta das 23h20 de segunda-feira (17). A atriz deixa um legado que atravessa rádio, televisão, cinema e teatro e ajuda a definir a própria história da ficção no país.
Despedida de uma referência que nunca saiu de cena
A morte de Laura, nome artístico de Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni, comove colegas, fãs e instituições culturais. A notícia circula desde a madrugada e provoca uma onda de homenagens nas redes sociais e nos bastidores de emissoras e teatros. Produtores e diretores falam em “vazio irrecuperável” quando pensam em personagens femininas maduras, complexas e centrais em tramas de TV.
O impacto é imediato. Canais de televisão reorganizam a programação para exibir cenas marcantes e novelas com a atriz. Plataformas de streaming já estudam pacotes especiais dedicados à sua obra. A morte de Laura reacende o debate sobre como o país trata artistas seniores, mesmo quando se tornam símbolos de qualidade e longevidade profissional.
Da Rádio Cosmos ao posto de dama da teledramaturgia
Laura entrou no mundo artístico ainda adolescente, aos 15 anos, na Rádio Cosmos. Lá descobriu que o palco pode ser também o microfone. Pouco depois migrou para a Rádio Tupi, então um dos principais polos de dramaturgia radiofônica do país, e abandonou qualquer dúvida sobre a vocação. As brincadeiras de teatrinho no bairro da Bela Vista, o Bixiga, em São Paulo, ganham forma de profissão.
Nessa fase, ainda atendia pelo nome de batismo, Laurinda. O ponto de virada aconteceu dentro do estúdio, quando um colega sugeriu que ela adotasse um nome artístico mais “sonoro”.
“Foi um colega de rádio que achou que Laurinda não era sonoro. Então, ele me deu uma porção de nomes como Lana, Luna e quando falou Laura, eu disse: ‘Quero esse!’”, lembra a atriz em depoimento anos depois.
Nasceu ali Laura Cardoso, nome que o público aprenderia a associar a entrega total em qualquer papel.
No rádio, ela fez de tudo: locução, atuação em radioteatros, programas de auditório, humor. A formação múltipla se torna marca registrada. Décadas mais tarde, ao revisitar a própria trajetória, ela resume o método:
“Todos os personagens me dão sempre muita alegria, tanto o bom, o ruim ou de duas faces. Você não esquece um personagem por inteiro. Eu me dedico a todos com muito amor, com muita verdade, com muito querer fazer e acertar”.
A pioneira da TV e a estreia histórica na Band
Quando a televisão ainda engatinhava no Brasil, Laura já estava nas primeiras experiências de teledramaturgia. Passa por emissoras como TV Tupi, Record TV, TV Excelsior, TV Rio e, mais tarde, se torna um rosto familiar também na Globo. Coleciona mais de 80 trabalhos na TV, entre novelas, séries e especiais, sempre transitando entre papéis principais e coadjuvantes de peso, quase nunca esquecidos pelo público.
Na Band, participou de um capítulo decisivo para a história da emissora. Em 13 de maio de 1967, dia da inauguração do canal, a atriz integrou o elenco da primeira novela do novo canal, adaptação de um clássico de Victor Hugo. A obra tem 71 capítulos e apresenta ao público a personagem Fantine, jovem operária francesa que enfrenta abandono, pobreza extrema e escolhas brutais para sustentar a filha. Laura assumiu o papel e imprimiu à personagem uma humanidade que atravessa gerações.
Depois desse trabalho, ela seguiu para a TV Tupi e consolida a reputação de “dama da teledramaturgia”. Volta à Band em 1982 para mais duas novelas. Em “Ninho da Serpente”, viveu Eugênia, mãe de criação de Mateus, personagem central da trama sobre herança, intrigas familiares e disputas por poder. Em seguida, integrou o elenco de “Renúncia”, adaptação de um romance psicografado por Chico Xavier. A produção, planejada como substituta de “Ninho da Serpente”, foi interrompida depois de apenas 12 capítulos, por problemas internos e pelo início do horário eleitoral.
Cinema, teatro e um amor inegociável pelos personagens
O alcance de Laura não se limita à televisão. A atriz acumula mais de 30 filmes no currículo, em papéis que vão da mãe popular em dramas urbanos a figuras silenciosas e intensas em produções de autor. No teatro, soma mais de 15 peças, mantendo uma relação permanente com o palco, que ela descreve como lugar de risco e verdade.
Em entrevistas, repetia que não escolhia personagens pela facilidade, mas pelo desafio.
“Eu amo o meu trabalho e os personagens que os autores me dão para fazer. Para mim é como se fosse um tesouro. Eu respeito e amo de verdade”, diz em uma de suas falas mais lembradas.
Colegas adotam o tratamento carinhoso “Dona Laura” para se referir à veterana que chega cedo às gravações, sabe o texto de todos e se dispõe a orientar atores mais jovens sem paternalismo.
Aos 90 e poucos anos, ela seguia ativa, gravava novelas, participava de entrevistas, comentava a própria trajetória com um misto de humildade e firmeza. Gostava de lembrar que veio do rádio, que atravessou a passagem do ao vivo para o gravado, do preto e branco ao streaming, sem perder o gosto de decorar texto e de ouvir “ação” no estúdio.
O que se perde com a partida de Laura Cardoso
A morte de Laura afeta de forma direta três frentes da cultura brasileira: televisão, cinema e teatro. Produtores perdem uma intérprete capaz de sustentar tramas inteiras com gestos mínimos e silêncios expressivos. Autores perdem uma atriz que aceitava o risco de personagens difíceis e fugia de caricaturas. O público perde uma presença recorrente, que fazia parte do imaginário afetivo de gerações.
Nos próximos dias, emissoras devem promover maratonas de novelas e especiais, e companhias teatrais já planejam leituras e sessões em homenagem à atriz. Instituições culturais discutem exposições sobre sua trajetória, com fotos de bastidores, figurinos e documentos de rádio e TV. Projetos de documentários e publicações também começam a ganhar forma, alimentados por depoimentos de colegas e pelo vasto material de arquivo.
A comoção abre espaço para um debate mais amplo sobre políticas de apoio a artistas em idade avançada. O percurso de Laura, que se mantém ativa até muito perto dos 95 anos, revela a potência da experiência, mas também expõe a fragilidade de estruturas que ainda dependem demais da boa vontade de emissoras e produtores. A morte da atriz marca o fim de um ciclo da televisão brasileira, aquele em que pioneiros do rádio ajudaram a fundar a ficção eletrônica. Especialistas em cultura já falam na necessidade de preservar essa memória de forma sistemática, em acervos públicos e programas educativos.
O legado de Laura Cardoso agora passa a ser medido não só pelo número de personagens, mas por quanto eles continuam vivos na lembrança do público. A resposta, a julgar pela reação de hoje, indica que Dona Laura permanece em cena, mesmo quando as luzes se apagam.