O Vasco negocia a venda de 90% da sua Sociedade Anônima do Futebol ao empresário Marcos Lamacchia, por R$ 500 milhões, em meio a um racha aberto na diretoria. Ao mesmo tempo, Ronaldo Fenômeno e Roberto Carlos se aproximam do controle da SAF da Inter de Limeira, à espera apenas de aval em assembleia.
R$ 500 milhões, nova SAF e diretoria em crise em São Januário
As conversas entre o clube associativo do Vasco e Lamacchia correm em ritmo acelerado e transformam o ambiente político de São Januário. O negócio promete injetar R$ 500 milhões no futebol, divididos em cinco parcelas, mas não prevê, em contrato, o pagamento direto das dívidas históricas do clube.
O investimento, segundo o desenho apresentado, vai inteiro para o departamento de futebol: contratações, elenco e estrutura. Inclui o projeto de um novo centro de treinamento, orçado em R$ 120 milhões, já exibido por Lamacchia ao lado do presidente Pedrinho, em um gesto de poder de fogo e de intenção de longo prazo.
O acordo avança sob a supervisão da Justiça. O advogado Athos Neves, nomeado como agente de monitoramento da recuperação judicial do Vasco, já deu sinal verde para a venda de 90% da SAF ao investidor paulista. Ele acompanha as finanças do clube e tem a função de fiscalizar se a operação respeita o plano aprovado em juízo.
Dentro de São Januário, o entusiasmo com o dinheiro novo convive com forte resistência política. A negociação é apontada como estopim do racha que levou quatro dirigentes a pedirem exoneração de seus cargos e ao afastamento temporário de Pedrinho da gestão da SAF por decisão judicial, depois parcialmente revertida. A fratura na cúpula expõe visões opostas sobre o futuro do clube e sobre quanto poder o Vasco deve entregar ao investidor.
Disputa com a 777, Crefisa no tabuleiro e impasse jurídico
A comparação com o acordo anterior, firmado com a empresa 777 Partners, alimenta parte das críticas. Lá atrás, a companhia estrangeira se comprometera a pagar R$ 700 milhões para ficar com 70% da SAF. Lamacchia quer 90% por R$ 500 milhões, ou seja, menos dinheiro por uma fatia maior num momento em que o Vasco já disputa a Série A e está em recuperação judicial.
O contraste não para nos valores. O contrato com a 777 previa direitos sobre marca e ativos do futebol profissional por 25 anos, com possibilidade de renovação pelo mesmo período. O desenho em discussão com Lamacchia concede esses direitos de forma vitalícia, num movimento visto por parte do Conselho como cessão definitiva do comando do futebol.
O passivo também se torna ponto sensível. A proposta reserva cada centavo do aporte para o campo, sem obrigação formal de abater dívidas. O investidor faz apenas um compromisso verbal de ajudar a quitá-las. Para um clube ainda cercado por credores, o risco de ter um futebol reforçado, mas uma tesouraria sufocada, preocupa conselheiros e dirigentes.
A maior polêmica, porém, está na engenharia societária. Lamacchia propõe criar uma nova pessoa jurídica para a SAF, com CNPJ próprio. Os ativos do futebol seriam transferidos para essa nova empresa, enquanto os passivos ficariam com a antiga, da qual o clube associativo é sócio principal. Na prática, o futebol sairia debaixo do guarda-chuva das dívidas, sob o olhar atento da Justiça e de credores que temem perder garantias.
No tabuleiro, surge a Crefisa, empresa do pai de Lamacchia, presidida por Leila Pereira. O Vasco tomou um empréstimo de R$ 80 milhões junto à financeira e ofereceu como garantia 20% do capital da SAF. Na prática, a detentora do crédito ganhou poder de veto sobre qualquer venda relevante da sociedade anônima, o que reforça a posição do grupo ligado ao investidor.
777, 39% em disputa e o risco de travar o negócio
O processo de venda não depende apenas da vontade do Vasco e de Lamacchia. Está submetido a um rito competitivo, semelhante a um leilão judicial, no qual diferentes interessados podem disputar o ativo sob regras definidas em edital. A Almirante Participações, empresa associada ao investidor paulista, larga como favorita.
A situação societária da SAF, porém, é um quebra-cabeça. Pelo acordo original, a 777 teria direito a 70% das ações, mas integralizou apenas 31%. Os 39% restantes viraram alvo de uma briga judicial com o clube. O Vasco tenta retomar os direitos políticos e econômicos sobre essa fatia, enquanto a empresa estrangeira alega que ainda estava dentro do prazo para concluir o pagamento.
Mesmo que a Justiça devolva os 39% ao clube associativo, o Vasco passaria a deter 69% da SAF, menos do que os 90% colocados à venda para Lamacchia. Essa matemática abre espaço para um impasse jurídico: como negociar uma fatia que, oficialmente, ainda não está nas mãos do vendedor? Essa é uma das perguntas que o agente de monitoramento e o juízo da recuperação precisam responder antes de qualquer assinatura.
Em nota, a diretoria do Vasco afirma que segue o roteiro legal e estatutário. Informa que o contrato passa primeiro pela Justiça, depois pelos órgãos internos e pelo Conselho Deliberativo, e só então chegará ao conhecimento detalhado dos sócios. Garante compromisso com a transparência, mas reforça que não vai antecipar informações fora de contexto.
Ronaldo e Roberto Carlos à porta da SAF da Inter de Limeira
Enquanto o Vasco se equilibra entre política e Justiça, a Inter de Limeira mira uma transição mais suave para o modelo de SAF. O clube paulista, hoje na Série C, tem acordo praticamente costurado para entregar o controle da sociedade anônima a Ronaldo Fenômeno e Roberto Carlos, dois dos maiores nomes da história recente da seleção brasileira.
As conversas avançam há semanas e já resultam em uma minuta contratual fechada entre as partes. O texto define a entrada dos ex-jogadores como controladores da SAF, com poder para tocar o futebol e promover uma reestruturação administrativa.
O que falta agora é a aprovação em uma Assembleia Geral Extraordinária convocada pelo clube. A reunião deve reunir conselheiros e sócios para referendar, ou não, o modelo. Se a proposta for aprovada, Ronaldo e Roberto Carlos assumem a gestão do futebol profissional, com a expectativa de profissionalizar processos, atrair patrocinadores e reposicionar a Inter de Limeira no mapa competitivo.
A operação em Limeira tem escala menor que a do Vasco, mas pode virar vitrine de um novo tipo de SAF: comandada por ex-jogadores renomados, com forte apelo comercial e potencial de gerar novas receitas de mídia e marketing. A aposta é que o carisma e a experiência internacional da dupla sejam alavancas para acelerar a modernização do clube.
No cenário atual, as duas histórias correm em paralelo e mostram como a Sociedade Anônima do Futebol ainda é um terreno em disputa no Brasil. Entre investidores financeiros, bancos, ex-atletas e Justiça, o modelo abre portas para dinheiro novo, mas cobra caro em governança, transparência e capacidade de execução.
Os próximos capítulos virão em tribunais, conselhos e assembleias. No Rio, o futuro da SAF do Vasco passa pelo crivo do processo competitivo e por decisões judiciais sensíveis. Em Limeira, o desfecho está nas mãos dos sócios que vão dizer se aceitam entregar o controle do futebol a dois campeões do mundo. Em ambos os casos, o que se decide agora pode redefinir décadas de história dentro e fora de campo.