A eleição de 2026 está revelando uma particularidade que costuma passar despercebida na corrida pelo Palácio do Planalto: a disputa pelo Senado pode ser tão estratégica quanto a eleição para governador e presidente. E talvez até mais silenciosa.
Dois votos para o Senado
Em cada estado, o eleitor terá dois votos para o Senado. Isso muda completamente a lógica da campanha. Não basta conquistar o primeiro voto. O segundo também precisa ser disputado, e é justamente aí que começam os problemas para os partidos, as coligações e os grandes grupos políticos.
O fenômeno que aparece nos bastidores não é simplesmente a chamada infidelidade eleitoral, quando um candidato apoia alguém fora do seu próprio grupo. O que está acontecendo é mais complexo.
Palanques divididos
Os palanques estaduais e nacionais nem sempre caminham juntos. E o Centrão ajuda a embaralhar esse jogo.
PSD e MDB, por exemplo, fecharam alianças estaduais mais distribuídas entre o campo de Lula e outras forças, enquanto União Progressista e Republicanos aparecem em diversos estados mais próximos do PL.
O resultado é uma eleição em que o acordo para governador não necessariamente determina o voto para presidente, muito menos para os dois candidatos ao Senado.
O segundo voto no Amazonas
É aí que o Amazonas se transforma em um caso interessante. Aqui, a disputa pelo segundo voto ganhou vida própria.
A pesquisa Iveritas divulgada em junho já mostrava uma eleição bastante aberta pela segunda vaga, com Eduardo Braga, Plínio Valério, Wilson Lima e Alberto Neto circulando em faixas competitivas e com diferenças importantes entre primeiro e segundo voto.
Isso explica por que determinados grupos políticos evitam fechar uma dupla para o Senado. Se o eleitor já chega à urna decidido em um nome, o segundo voto vira uma espécie de território livre.
E esse território está sendo disputado por diferentes segmentos da direita, do centro e da esquerda.
Apoios e voto cruzado
É justamente aí que um apoio aparentemente secundário pode ganhar valor político.
Um prefeito não precisa necessariamente entregar dois votos para um mesmo grupo. Um candidato a governador pode ter um senador preferencial e deixar o segundo espaço aberto para negociar.
Um partido pode fechar apoio ao governo estadual e, ao mesmo tempo, liberar seus aliados para escolher outro nome ao Senado. É o chamado voto cruzado, e ele pode ser decisivo no Amazonas.
O cenário de São Paulo
São Paulo mostra o outro lado dessa história. No campo de Fernando Haddad, a composição foi desenhada de maneira mais clara, com Simone Tebet e Marina Silva como candidatas ao Senado. E as pesquisas mostram que essa dupla entrou forte na disputa.
Levantamento Genial/Quaest divulgado em julho colocou Marina e Tebet nas primeiras posições, enquanto pesquisa Ideia/ACSP divulgada em agosto também apontou as duas entre as candidaturas mais competitivas.
Mas o cenário paulista também revela uma coisa importante: não existe uma fórmula nacional para o Senado.
Cada estado tem sua própria equação
Cada estado está montando sua própria equação. Em alguns lugares, o voto casado será explorado como instrumento de transferência de votos. Em outros, os grupos vão preferir concentrar força em um candidato e deixar a segunda vaga aberta.
E por que isso interessa tanto a Lula e a Flávio Bolsonaro?
Porque quem ocupar o Palácio do Planalto a partir de 2027 vai precisar olhar para o Senado desde o primeiro dia.
O Senado tem atribuições que afetam diretamente a governabilidade. Entre elas está a aprovação de indicações presidenciais para cargos importantes, inclusive magistrados, além de competências próprias em matérias financeiras, federativas e de responsabilidade política.
E há um ponto especialmente sensível: as indicações para o Supremo Tribunal Federal passam pelo Senado.
Isso significa que a eleição de outubro não vai definir apenas quem terá oito anos de mandato em Brasília. Vai ajudar a definir o ambiente institucional em que o próximo presidente terá de governar.
Lula, Flávio e os estados
É por isso que Lula e Flávio Bolsonaro estão olhando para os estados, e não apenas para a disputa presidencial.
O movimento de Flávio em Minas Gerais, por exemplo, mostra como a política nacional precisa negociar com a realidade local.
Mesmo com o PL apoiando Flávio Roscoe, o presidenciável também sinalizou para Cleitinho, que aparece forte na disputa estadual.
Uma rede de interesses
A lição é clara. Na eleição de 2026, não existe necessariamente um palanque único. Existe uma rede de interesses. E o Senado está no centro dessa negociação. No Amazonas, isso significa que o segundo voto pode valer tanto quanto o primeiro na hora de definir alianças.
Quem conseguir transformar apoio político em segundo voto poderá ocupar uma das duas cadeiras em disputa. E quem errar a leitura desse movimento pode descobrir, tarde demais, que ter um candidato forte não significa necessariamente eleger dois.
O espaço ainda em disputa
A disputa pelo Senado, portanto, não está acontecendo apenas nas pesquisas.
Está acontecendo nas conversas reservadas, nos acordos municipais, nos palanques divididos e, principalmente, naquele espaço que os políticos ainda não conseguiram preencher: o segundo voto do eleitor. É ali que muita eleição pode ser decidida.