Nesta quarta-feira (19), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou no Centro Industrial Nuclear de Aramar, na região de Sorocaba, destacando o compromisso do governo com a conclusão do submarino brasileiro de propulsão nuclear. O evento contou com a presença de ministros, comandantes da Marinha, além dos presidentes do BNDES e da Petrobras.
Lula fez um raro “mea culpa” público sobre um dos maiores problemas do país: a paralisação de grandes projetos por falta de dinheiro. Ao falar diretamente para os engenheiros, pesquisadores e marinheiros que trabalham no complexo projeto do submarino de propulsão nuclear brasileiro, Lula admitiu que a culpa pelo atraso de anos não é de quem está com a mão na massa, mas sim da desorganização do governo federal.
O presidente relembrou sua visita ao local em 2007, quando liberou recursos bilionários para o programa, mas lamentou que contingenciamentos orçamentários posteriores tenham travado o avanço da obra. Ele garantiu que o projeto não será mais afetado por essas flutuações.
“Xingue a Gente”
O presidente detalhou como a “torneira seca” do orçamento pune o trabalhador qualificado. Ele reconheceu a frustração de quem estuda e se dedica, apenas para ver o projeto parar na metade porque o dinheiro foi cortado (o chamado contingenciamento).
“Na hora que a gente fica dependendo do orçamento da União, e o orçamento da União às vezes tem que ser contingenciado… Muitas vezes você em um ano tem dois, no outro ano você tem um, no outro ano você tem três, no outro ano você tem nada. Ou seja, isso não permite que tenha uma sequência de continuidade para que a gente possa dizer: vamos concluir o projeto daqui a tanto tempo.”
E completou, assumindo o peso da falha do Estado:
“Eu volto hoje aqui e outra vez eu me deparo com a descontinuidade do orçamento. Isso leva a que vocês, engenheiros, pesquisadores, tenham mais paciência. Xingue a gente, sabe, no pensamento e sempre fica cobrando por que as coisas não têm dado certo, por que que não chegou ao fim, por que não terminamos.”
O Que Isso Significa na Prática?
A fala do presidente é um reflexo direto de um problema crônico do Brasil. Sem garantia de verba contínua, obras gigantescas viram “elefantes brancos” ou demoram décadas para sair do papel, gerando prejuízo bilionário aos cofres públicos.
Para tentar resolver a situação do submarino nuclear — uma peça-chave para a soberania do país —, Lula prometeu que o projeto será blindado dessas variações do orçamento e que buscará ajuda financeira de gigantes como o BNDES e a Petrobras para garantir que o projeto, enfim, chegue ao mar.
O Fim das Interrupções Financeiras
Lula afirmou que a construção do submarino será tratada fora da disputa comum por verbas governamentais, garantindo um fluxo contínuo de caixa.
O presidente utilizou o exemplo da turbina de avião a etanol desenvolvida pelo ITA, que também sofreu longos atrasos devido à descontinuidade financeira do Estado.
O governo federal assegurou que encontrará os recursos necessários para terminar o projeto de uma vez por todas.
Soberania e Retenção de Talentos
Lula enfatizou que o domínio dessa tecnologia vai além dos interesses exclusivos da Defesa, classificando a obra como um projeto estratégico de Estado.
- Geopolítica: O Brasil busca se equiparar às nações do Conselho de Segurança da ONU que dominam a tecnologia de submarinos nucleares, fortalecendo a soberania nacional.
- Fuga de Cérebros: O presidente alertou que a falta de investimentos expulsa engenheiros altamente qualificados, que acabam prestando serviços no exterior em vez de desenvolver o Brasil.
- Avanço Tecnológico: O programa impulsionará áreas civis, como a medicina, o setor energético e a capacidade de exportação de urânio enriquecido para fins pacíficos.
Novas Parcerias Estratégicas
Para evitar a dependência exclusiva do orçamento da União, o presidente indicou que buscará apoio financeiro nas grandes do BNDES, o banco de fomento foi citado como parceiro crucial para viabilizar os recursos da obra, e da Petrobras.
Lula cobrou a participação da petroleira no financiamento, sugerindo que os submarinos também poderão ser úteis no mapeamento e exploração de petróleo em profundidades superiores a 6.000 metros.