Criminalização da misoginia opõe combate à violência e preocupação com liberdade de expressão

Discussão ao vivo analisa a criação de uma lei específica para combater a misoginia e seus impactos sociais e legais.
Redação NC News
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O programa “50 Debates para o Brasil”, da CBN, discutiu nesta quinta-feira (20) a proposta de criminalização da misoginia no Brasil e os possíveis impactos da medida sobre o combate à violência contra mulheres e a liberdade de expressão.

De um lado, representantes de movimentos de mulheres defendem que a legislação atual não trata de forma suficiente manifestações de ódio e discriminação dirigidas às mulheres como grupo. De outro, juristas questionam a necessidade de criar um novo tipo penal e apontam riscos de interpretações amplas que possam atingir manifestações protegidas pela liberdade de expressão.

Participaram do debate a cientista política Irina Frare Cezar, do Movimento Levante Mulheres Vivas, e a advogada Rafaela Filter.

Debate expõe divergências sobre a legislação atual

Para Irina Frare Cezar, a legislação brasileira já permite responsabilizar autores de ameaças, agressões e outras formas de violência contra mulheres, mas não oferece uma resposta específica para manifestações de ódio contra as mulheres enquanto grupo.

“A legislação atual não alcança adequadamente o ódio dirigido às mulheres como grupo”, afirma.

Segundo ela, a criação de um tipo penal específico poderia permitir uma atuação preventiva contra manifestações que incentivem a violência ou restrinjam direitos em razão do gênero.

A advogada Rafaela Filter, por outro lado, defende que o Direito Penal já prevê punições para diversas condutas violentas cometidas contra mulheres.

Entre os crimes que podem ser aplicados a casos concretos estão ameaça, perseguição, violência psicológica, lesão corporal, crimes sexuais, crimes contra a honra e feminicídio.

Para a advogada, a criação de um novo crime pode ampliar a margem para interpretações subjetivas e gerar conflitos com a liberdade de expressão.

O principal ponto de divergência está, portanto, na definição dos limites entre manifestações discriminatórias que devem ser punidas e opiniões protegidas pela legislação.

Projeto de criminalização avança no Congresso

A discussão ocorre enquanto o Congresso analisa o Projeto de Lei 896/2023, que inclui a misoginia entre os crimes de preconceito e discriminação.

A proposta foi aprovada pelo Senado em março de 2026, com 67 votos favoráveis e nenhum contrário, e seguiu para a Câmara dos Deputados. Em julho, os deputados aprovaram o regime de urgência para a análise do texto.

O projeto altera dispositivos da legislação que trata dos crimes de preconceito e discriminação e prevê punições para determinadas condutas praticadas em razão da condição de mulher.

Na Câmara, a deputada Tabata Amaral atua na relatoria da proposta e apresentou uma nova versão do texto durante a tramitação. Entre as mudanças discutidas está a busca por uma definição mais precisa de misoginia, justamente para reduzir ambiguidades na aplicação da lei.

A definição exata do crime ainda depende da tramitação e da aprovação do texto pelo Congresso.

Tabata é relatora da proposta e tem texto novo para tramitação | Foto: Reprodução

Liberdade de expressão é um dos pontos de maior divergência

A discussão sobre os limites da nova legislação envolve principalmente a possibilidade de uma definição ampla demais de misoginia.

Críticos do projeto afirmam que termos relacionados a desprezo, discriminação ou ofensa à dignidade podem gerar disputas sobre o que constitui crime e o que permanece protegido pela liberdade de expressão.

A preocupação envolve manifestações políticas, acadêmicas, religiosas e jornalísticas que possam ser interpretadas de maneiras diferentes por autoridades responsáveis pela investigação e pelo julgamento.

Os defensores da proposta argumentam, por outro lado, que criminalizar a misoginia não significa punir críticas ou divergências de opinião, mas estabelecer responsabilização para condutas discriminatórias e para a incitação à violência ou à restrição de direitos.

O debate, portanto, não se resume à criação de uma nova punição. Também envolve a definição jurídica dos limites entre discurso de ódio, discriminação e liberdade de expressão.

A polarização política abrange pautas judiciárias | Foto: Reprodução

STF amplia aplicação de medidas protetivas

A discussão no Congresso ocorre paralelamente a uma decisão recente do Supremo Tribunal Federal envolvendo a proteção de mulheres vítimas de violência de gênero.

Na véspera do debate, o STF decidiu que medidas protetivas de urgência previstas na Lei Maria da Penha podem ser aplicadas mesmo quando não existe relação doméstica, familiar ou afetiva entre a vítima e o agressor.

A decisão amplia a possibilidade de utilização das medidas protetivas em situações de violência de gênero.

Para organizações que defendem a criminalização da misoginia, porém, a decisão não resolve a questão relacionada a manifestações de ódio dirigidas às mulheres de forma coletiva.

A discussão legislativa trata justamente da possibilidade de estabelecer uma resposta penal específica para determinadas condutas discriminatórias praticadas contra mulheres em razão de sua condição.

STF decidiu que medidas protetivas de urgência previstas na Lei Maria da Penha podem ser aplicadas mesmo quando não existe relação doméstica | Foto: Reprodução

O que pode acontecer com o projeto

Com o regime de urgência aprovado, o projeto passa a ter tramitação acelerada na Câmara dos Deputados. A proposta ainda precisa ser analisada pelos deputados antes de eventual envio ao presidente da República.

Caso seja aprovada sem alterações em relação ao texto que chegar à votação, seguirá para sanção ou veto presidencial. Se houver mudanças, o projeto poderá precisar retornar ao Senado.

Até a conclusão desse processo, a definição sobre quais condutas serão enquadradas como misoginia permanece em discussão.

A votação também deverá colocar novamente em lados opostos grupos que defendem uma resposta penal específica à violência e à discriminação contra mulheres e setores que questionam a expansão do Direito Penal e defendem maior precisão na definição das condutas puníveis.

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