Existe uma transformação acontecendo dentro das lavouras brasileiras que, apesar de avançar em ritmo acelerado, ainda passa despercebida para grande parte do público. Ela está nos bioinsumos.
Dados apresentados durante o III Fórum Bioinsumos no Agro, realizado na terça-feira (18), em São Paulo, apontam que a área potencialmente tratada com biodefensivos ultrapassou 107 milhões de hectares na safra 2025/26. O número representa crescimento de aproximadamente 35% em relação à temporada anterior.
O mercado também ganhou escala e movimentou cerca de R$ 5,3 bilhões no ciclo 2025/26, segundo os dados apresentados no evento.
A dimensão desse movimento ajuda a entender por que o tema deixou de ser uma discussão restrita a pesquisadores e empresas especializadas. Os produtos biológicos já fazem parte das decisões de manejo de milhões de hectares no Brasil.
Uma mudança que acontece sem fazer barulho
O avanço dos bioinsumos não significa que o produtor esteja simplesmente abandonando os defensivos químicos. A mudança é mais complexa.
Produtos biológicos passaram a integrar estratégias de manejo integrado, muitas vezes utilizados em conjunto com outras ferramentas para controlar pragas, doenças e organismos que prejudicam as lavouras.
São soluções baseadas em organismos vivos ou seus derivados, utilizadas em aplicações como controle biológico, manejo de nematoides, tratamento de sementes e outras práticas agrícolas.
É justamente essa combinação de tecnologias que está ajudando a ampliar a presença dos biológicos no campo.
De onde vêm esses números?
Os dados apresentados no fórum têm como base levantamentos de mercado. Entre as empresas que acompanham esse movimento está a Kynetec, especializada em inteligência de mercado para o agronegócio.
Esses levantamentos ajudam a dimensionar não apenas quanto o setor movimenta financeiramente, mas também como e onde os produtores estão utilizando as diferentes tecnologias.
E há um detalhe importante na leitura dos 107 milhões de hectares.
O indicador considera a chamada área potencialmente tratada. Ou seja, uma mesma área agrícola pode receber mais de uma aplicação ao longo da safra e, portanto, ser contabilizada mais de uma vez.
Assim, os 107 milhões de hectares não correspondem necessariamente a 107 milhões de hectares físicos diferentes.
A soja puxa essa transformação
Entre as principais culturas brasileiras, a soja concentra uma parcela importante da utilização de produtos biológicos.
Na safra 2025/26, a área potencialmente tratada com soluções biológicas na cultura chegou a mais de 58 milhões de hectares, segundo os dados apresentados no fórum.
Um dos principais usos está relacionado aos nematoides, organismos microscópicos que atacam as raízes e podem provocar perdas de produtividade.
O avanço dos chamados bionematicidas mostra como o produtor vem incorporando diferentes ferramentas ao manejo da lavoura.
E a adoção não está concentrada em uma única região. O movimento aparece em grandes polos produtores, como Mato Grosso e Goiás, além de áreas do Matopiba e do Pará.
No milho, uma praga ajudou a acelerar a mudança
O milho também é um exemplo de como uma necessidade prática pode acelerar a adoção de novas tecnologias.
A pressão da cigarrinha-do-milho, uma das principais pragas da cultura, aumentou a busca por alternativas de controle.
Com isso, produtos biológicos passaram a ocupar espaço maior nas estratégias utilizadas pelos produtores, muitas vezes em associação com produtos químicos.
É uma lógica que pode ser resumida de maneira simples: quanto mais ferramentas o produtor tiver à disposição, maior pode ser sua capacidade de responder a diferentes problemas dentro da lavoura.
Algodão e cana também estão entre os destaques
O avanço não está restrito à soja e ao milho.
No algodão, os produtos biológicos já alcançam uma parcela significativa da área cultivada. Na cana-de-açúcar, a utilização também é expressiva, especialmente porque a cultura possui uma trajetória mais longa de adoção de soluções biológicas.
Isso mostra que o mercado está se diversificando e que diferentes culturas encontram diferentes aplicações para essas tecnologias.
Por que esse mercado está crescendo tanto?
Há vários fatores por trás dessa expansão.
Um deles é a necessidade de enfrentar pragas que desenvolvem resistência a determinados produtos.
Outro é a busca por estratégias que permitam ao produtor diversificar o manejo.
Também pesam o avanço da pesquisa, o desenvolvimento de novos produtos e a maior familiaridade dos agricultores com as tecnologias biológicas.
E existe ainda uma questão econômica: quanto mais opções de manejo estiverem disponíveis, maior a possibilidade de o produtor construir estratégias adequadas às condições específicas de sua lavoura.
A revolução também é regulatória
O crescimento do mercado traz outro desafio: criar um ambiente regulatório capaz de acompanhar a velocidade da inovação.
Esse foi justamente um dos assuntos centrais do III Fórum Bioinsumos no Agro. A programação reuniu representantes da pesquisa, produtores, empresas e poder público para discutir mercado, tendências, geopolítica, regulamentação, acesso a cepas, rastreabilidade, inovação e formação profissional.
O Brasil já possui um marco legal para os bioinsumos, estabelecido pela Lei nº 15.070, de 23 de dezembro de 2024. O Ministério da Agricultura mantém o processo de regulamentação da legislação e de definição das regras para o setor.
Na prática, a discussão envolve encontrar equilíbrio entre segurança, controle de qualidade, rastreabilidade, propriedade intelectual, acesso à tecnologia e estímulo à inovação.
E onde entra a mão de obra?
Outro desafio apontado para o crescimento do setor é a formação de profissionais especializados.
A cadeia de bioinsumos envolve conhecimentos que vão da microbiologia e pesquisa à produção industrial, controle de qualidade, assistência técnica e aplicação no campo.
Com o mercado crescendo rapidamente, a falta de profissionais capacitados pode se tornar um limitador para a expansão do setor. O tema também esteve entre os assuntos associados à programação do fórum.
O que o consumidor tem a ver com isso?
Mais do que parece.
O avanço dos bioinsumos não significa automaticamente que o alimento ficará mais barato ou que os defensivos químicos serão eliminados.
O que muda é o conjunto de ferramentas disponíveis para produzir.
Se uma lavoura consegue controlar uma praga ou doença com diferentes estratégias, o produtor ganha alternativas para lidar com problemas de resistência, clima, pressão de pragas e produtividade.
Isso pode contribuir para a estabilidade da produção agrícola — e uma produção mais previsível interessa a toda a cadeia, do campo à indústria e, no fim, ao consumidor.
De tendência a mercado
O III Fórum Bioinsumos no Agro ocorreu em um momento em que o setor já não discute apenas se os produtos biológicos terão espaço no campo.
A pergunta agora é outra: até onde essa tecnologia pode chegar?
Com mais de 107 milhões de hectares potencialmente tratados e bilhões de reais movimentados em uma única safra, os números mostram que os bioinsumos já deixaram de ser uma promessa distante.
A transformação está acontecendo dentro das lavouras — uma área de cada vez.
Fontes: dados apresentados no III Fórum Bioinsumos no Agro; Kynetec; Embrapa; Ministério da Agricultura e Pecuária.