Rússia e Ucrânia buscam alternativa ao Starlink, diz Zelensky

Presidente ucraniano afirma que Moscou desenvolve sistema com apoio da China, enquanto Kiev testa projeto semelhante com um país europeu.
Redação NC News
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Volodymyr Zelensky coloca a corrida espacial militar no centro da guerra. O presidente ucraniano afirma que Ucrânia e Rússia desenvolvem sistemas próprios de satélites para substituir o Starlink, controlado por Elon Musk, nas comunicações de guerra.

A disputa deixa de ser apenas por território e passa também pelo domínio das redes que conectam tropas, drones e sistemas de mísseis. Ao buscar alternativas, os dois países tentam escapar do poder de veto de um empresário estrangeiro sobre decisões de vida ou morte no campo de batalha.

Dependência do Starlink e pressão sobre Elon Musk

O sistema de satélites de órbita baixa da empresa de Musk se torna, desde o início da invasão, a espinha dorsal de parte das comunicações militares ucranianas. A Rússia também tenta usar os terminais, mas se vê atingida por restrições impostas pelo bilionário.

No ano passado, Musk limita o acesso russo à rede. Especialistas em defesa avaliam que a medida prejudica o comando tático de Moscou e reduz a capacidade ofensiva em determinadas frentes. A guerra expõe, de forma inédita, como uma infraestrutura privada pode interferir diretamente no ritmo e na direção de um conflito.

Zelensky confirma que negocia com Musk e com o governo dos Estados Unidos para ampliar o uso do Starlink. O objetivo declarado é obter autorização para empregar a rede em operações militares dentro do território russo, algo que hoje não ocorre em larga escala.

Segundo o presidente, Musk considera que liberar cobertura plena sobre a Rússia significaria escalar a guerra. A posição irrita Kiev. “Isto realmente poderia levar a uma redução justamente das capacidades que a Rússia utiliza para prolongar a guerra”, afirma Zelensky, ao defender o uso do sistema em ações ofensivas além da fronteira.

Projetos paralelos: Europa com Kiev, China com Moscou

Enquanto tenta manter o Starlink operando em seu favor, a Ucrânia acelera um plano alternativo. Zelensky revela que o país desenvolve um sistema semelhante em parceria com um país europeu, cujo nome não é divulgado publicamente. “Já começamos a testá-lo”, diz o presidente.

O desenho lembra o modelo atual: uma constelação de pequenos satélites em órbita baixa, capaz de oferecer conexão de alta velocidade e resistente a ataques cibernéticos e tentativas de bloqueio. A diferença central está no controle político. Em vez de depender de decisões de um magnata da tecnologia, Kiev busca uma governança compartilhada com um aliado estatal.

Do outro lado, a Rússia se aproxima ainda mais da China. “Os russos estão construindo um equivalente ao Starlink com os chineses e acreditam que terão o projeto pronto em dezembro de 2026”, afirma Zelensky. O cronograma aponta para uma transição gradual, em que Moscou pretende abandonar de vez qualquer vulnerabilidade associada a redes ocidentais.

A parceria sino-russa reforça laços estratégicos entre dois países que enfrentam sanções e desconfiança crescentes no Ocidente. Se o sistema ficar pronto no prazo, Moscou pode ganhar uma infraestrutura própria de comunicação militar global, alinhada a interesses chineses e distante da influência de Washington e das empresas de Elon Musk.

Satélites, mísseis e a nova lógica do campo de batalha

As comunicações em tempo real são hoje tão decisivas quanto tanques e caças. Zelensky descreve um cenário em que a Rússia intensifica o uso de mísseis balísticos, difíceis de interceptar. Na prática, esses projéteis só são neutralizados com sistemas Patriot, de fabricação americana.

O presidente detalha que a Ucrânia recebeu 675 mísseis Patriot em 2023, 364 em 2025 e 264 em 2026. A curva descendente indica limitação de estoques e de capacidade defensiva. Diante disso, a estratégia muda: em vez de derrubar cada míssil no ar, Kiev tenta atingir as plataformas de lançamento antes do disparo.

“Quando nossas capacidades de defesa antibalística ficam limitadas, surge outra tática: localizar e atacar as posições próximas de onde os mísseis balísticos são lançados”, explica Zelensky. Essa abordagem depende de comunicação segura e instantânea entre inteligência, drones e unidades de artilharia, algo que redes como o Starlink e seus futuros rivais podem oferecer.

Qualquer interrupção, limitação geográfica ou veto de uso desses sistemas interfere diretamente nessa cadeia de decisões. É esse poder de desligar ou travar o serviço que preocupa tanto Kiev quanto Moscou. Ambos temem que um terceiro ator, guiado por interesses comerciais ou políticos próprios, possa reconfigurar o tabuleiro com um simples comando remoto.

Peso de Elon Musk na geopolítica e impacto para seus negócios

A disputa repete o nome de Elon Musk em quase todas as frentes. Dono de uma fortuna estimada em centenas de bilhões de dólares, o empresário constrói um império que vai de carros elétricos a foguetes reutilizáveis, passando pela empresa responsável pelo Starlink. Sua trajetória alimenta debates recorrentes sobre se Musk nasceu rico ou construiu sozinho sua posição atual.

A participação direta na guerra aumenta o escrutínio público. Decisões sobre cobertura, bloqueios regionais e prioridades de uso do sistema de satélites afetam não apenas o campo de batalha, mas também a percepção de governos e investidores sobre as empresas do grupo. As discussões derramam-se para outras frentes, como sua atuação em redes sociais, hoje reunidas sob a marca X.

O antigo Twitter, agora controlado por Musk, virou palco para declarações sobre o conflito e sobre seu próprio papel na guerra. A mistura de negócios de infraestrutura crítica, redes sociais globais, investimentos em tecnologia espacial e exposição pública em plataformas como X e Instagram torna Musk uma figura singular na geopolítica contemporânea.

Na Ucrânia, as tratativas com o empresário foram conduzidas por Mykhailo Fedorov, ex-ministro ligado à área de defesa e tecnologia. A demissão de Fedorov lança dúvida sobre a continuidade e o tom das negociações. A equipe de Zelensky, porém, indica que a busca por autonomia via o projeto europeu de satélites segue como prioridade.

Se os planos da Ucrânia e da Rússia avançarem, o mapa das comunicações militares pode mudar de forma duradoura. Em vez de depender principalmente de um único sistema privado, o mundo pode assistir ao surgimento de constelações concorrentes, alinhadas a blocos políticos distintos, com impacto direto nos rumos de conflitos futuros.

A corrida não se limita ao término da guerra atual. O desenvolvimento desses sistemas próprios abre uma nova fase de competição tecnológica, em que satélites, algoritmos e contratos militares valem tanto quanto divisões blindadas. A capacidade de manter comunicações seguras e soberanas tende a se tornar critério central de poder no século XXI.

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