AVISO: ESTA ANÁLISE CONTÉM ALGUNS SPOILERS
Confesso que, nos últimos anos, tenho sentido uma grande canseira de filmes de herói. Seja por eu ter enjoado da fórmula Marvel, seja por eu ter crescido ou seja por eu ter me distanciado de Hollywood ao longo dos meus estudos. Dessa forma, sempre tenho recebido com desprezo os novos lançamentos do estúdio, apesar de que, do ano passado para cá, tenho tido mais surpresas do que decepções (o que também pode significar que eu não esperava muito), mas não importa, pois este ano a Marvel voltou a investir em seu principal herói: O Homem-Aranha.
Em 2025, a Marvel lançou três obras nos cinemas: “Capitão América 4: Admirável Mundo Novo”, “Thunderbolts” ou “Os Novos Vingadores” e “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”. Destes três, a grata surpresa de “Thunderbolts” e o fofo “Quarteto Fantástico” me fizeram esquecer do asqueroso filme do “Capitão América”. Sam Wilson certamente merecia mais, mas infelizmente o estúdio não concorda.
Então posso dizer que 2025 me preparou para lançamentos um pouco mais maduros e com mais atenção artística e menos pastelaria audiovisual, principalmente após o anúncio de que os filmes demorariam mais para sair. Devo dizer que a decisão foi acertada, pois a Marvel finalmente me fez sorrir.

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Apesar de estar nivelado por baixo e as fases seguintes à Saga do Infinito terem trazido mais fracassos do que sucessos (vide “Love and Thunder” e “Quantumania”), podemos dizer que temos alguns produtos de destaque, como “Thunderbolts”, “Quarteto Fantástico” e “Guardiões da Galáxia 3”. Mas, com exceção do último, nenhum filme de fato foi capaz de explorar a psique de seus personagens, divertir o público e entregar uma experiência madura através de sua narrativa. Eu já acredito que “Homem-Aranha 4” consegue entregar uma obra muito mais madura, visualmente bonita, empolgante e interessante.

Enquanto Jon Watts não sabia exatamente o que fazer com a câmera e deixava o ChatGPT escrever seus roteiros, aqui temos Destin Cretton, que já tinha entregado uma boa direção em “Shang-Chi” (porém menos criativa), mas passou por um grande amadurecimento artístico e psicológico para chegar à sensibilidade que chegou em “Homem-Aranha”. Não à toa é seu primeiro filme em cinco anos, tendo feito apenas alguns episódios selecionados de séries de TV.
Cretton usa a câmera não apenas para te mostrar o que está acontecendo, mas consegue transpor a solidão e a angústia de Peter Parker através de planos longos e abertos contra o horizonte ou planos fechados e profundos em seu rosto. Em “Homem-Aranha 4”, é a primeira vez que vemos Peter Parker sendo Peter Parker, ao invés de Tom Holland brincando de atuar, e o grande mérito disso está na forma que a câmera se comporta com os personagens e o roteiro amadurecido feito para este filme, que necessitava de uma abordagem mais profunda e obscura do herói, sem romper com o que ele representa.

Quando A Marvel Interfere Na Visão De Cretton
Se o filme cresce quando Cretton tem total liberdade criativa, ele cai de maneira devastadora quando identificamos as mãos oleosas de Kevin Feige sobre a narrativa e as escolhas dos personagens. É como se toda a identidade de Cretton cedesse à preguiça da pastelaria Marvel.
A sequência inicial, a condução da obra e o trauma latente em Peter Parker são muito bem explorados enquanto o roteiro alterna com o humor característico do MCU e introduz os elementos “obrigatórios” para situar a trama no contexto atual do universo. Entendemos a relação entre Peter e Justiceiro logo na primeira cena, sem diálogos expositivos e uma transposição quase perfeita do mundo dos quadrinhos.
A ameaça do filme, que é tão curiosa quanto misteriosa, nos faz pensar que de fato alguma coisa pode não acabar bem. Geralmente, sabemos que o herói vencerá sem grandes consequências ou pelo menos com um gancho para o próximo “filme evento”, mas aqui o filme se impõe o objetivo de abordar a cabeça de Parker e do Homem-Aranha, esta dualidade que sequer existia com Jon Watts.
As participações especiais da obra são pontuais o suficiente para te empolgar e acertadas o suficiente para não cansar ou irritar, valorizando a individualidade do protagonista. Entretanto, como diz o tópico, essa liberdade criativa sempre encontrava um muro de dinheiro e contratos: Kevin Feige.

A Marvel Continua Reciclando As Próprias Ideias
Enquanto Hulk (Mark Ruffalo) assume o papel de Dr. Connors da trilogia original do Sam Raimi (como conselheiro e mentor), é notável que o objetivo era enriquecer o universo além das batalhas espaciais e mostrar como todos eles também podem ser pessoas normais do dia a dia. Porém, a máquina de fast foodzação cinematográfica precisa reciclar “A Era de Ultron” e realizar um embate do protagonista com o Hulk, que sofre com controle mental.
Todos os momentos em que a obra perde sua dinamicidade e progressão são os momentos de selo Marvel de obrigatoriedade. Esta mesma obrigatoriedade que destruiu um possível bom filme de Sam Raimi (“Multiverso da Loucura”), destruiu Taika Waititi (“Love and Thunder”) e demitiu Edgar Wright (diretor de “Scott Pilgrim” que iria dirigir “Homem-Formiga”), mas deu uma carreira pros medíocres Irmãos Russos e uma das maiores bilheterias da história para Watts.

Peter Parker Ainda Não Evoluiu
Não sei se por ser o primeiro filme de Cretton à frente do personagem ou se uma fórmula estabelecida pela Disney-Marvel-Sony para os filmes do Aranha, mas o emburrecimento constante do personagem me incomoda.

Com exceção de “Spider-Man: Homecoming”, de 2017, os filmes “Far From Home” e “No Way Home” apostam na mesma virada de roteiro: Peter, ingênuo, confia em quem não deveria confiar e isso custa um alto preço. Primeiro confia no Mystério, depois confia no Duende Verde. Se isso já me incomodava no terceiro, não conseguirei descrever a bufada que dei no cinema quando vi o diretor do Controle de Danos.
Não sou contra explorar a ingenuidade do herói e traçar um caminho de evolução psicológica através da traição, mas Peter Parker simplesmente não evoluiu. O único motor de amadurecimento do personagem é sua relação com a MJ, que é tão explorada quanto a Gwen de Sam Raimi.
Dessa forma, o filme cai num limbo cansativo de mesmice que precisa de se apoiar exclusivamente em suas novidades, porque, ao analisar o contexto como um todo, seremos pegos de surpresa com a quantidade de reciclagem.
Listando as que lembro, posso citar:
- Hulk e o controle mental
- Plot twist da confiança
- Domo “impenetrável” de uma personagem mágica
- Figura paterna de apoio narrativo
E certamente, quando reassistir, reconhecerei mais.

Sadie Sink, Florence Pugh, Jon Bernthal E Mark Ruffalo São Acertos Do Filme
Enquanto a obra se aprofunda na psique de Parker, temos pontos-chave de dinamismo que apresentam uma intersecção crível e bem dosada do uso de outros personagens do universo.
Florence Pugh, a Viúva Negra, atua como um contato espião de Parker e o ajuda com informações, não ações. Assim como Ruffalo mais tarde, Pugh é um suporte espião que certamente está ocupada demais com outras coisas e não está disponível para entrar em combate, o que torna a obra mais focada em Peter Parker do que um “puxadinho” para o próximo filme dos Vingadores.

Já Mark Ruffalo se torna um conselheiro e, ao mesmo tempo, um obstáculo para o Aranha. Assim como nos quadrinhos, Peter possui o canal aberto para as mentes mais brilhantes do mundo. É comum para o personagem se consultar com gênios como Tony Stark, Doutor Estranho, Dr. Curt Connors, Dr. Osborn, Dr. Octavius, Senhor Fantástico e tantos outros, algo que os próprios filmes do Homem-Aranha tem respeitado e explorado desde o primeiro. Aqui, entretanto, senti que a ideia é mais natural do que nas obras de Webb e Watts, se aproximando mais do estilo de Sam Raimi.

O Justiceiro de Jon Bernthal se estabelece como parceiro crível e figura paterna de Peter. Assim como nos quadrinhos, a dinâmica da dupla é explorada através de suas diferenças, não nas semelhanças, o que dá o tom cômico e, ao mesmo tempo, carinhoso. Frank não é o tipo de pai que se expressa, mas é o tipo que busca dar o seu melhor e proteger da maneira que for aqueles que admira, mesmo que nem todos estejam de acordo.

Jean Grey de Sadie Sink tem muitos pontos positivos, pois me parece a primeira vez que a personagem é de fato bem explorada, visto que as confusas sagas da FOX sempre optaram por tratá-la apenas como ameaça final e histérica, não uma humana. O acerto de investir em alguém mais jovem para contrastar com Tom Holland fez toda a diferença para o relacionamento dos personagens, tornando mais verossímil a conexão.
Entretanto, é impossível não temer uma reciclagem narrativa pesada em Jean Grey. A impressão que tenho é que todo o arco de desenvolvimento da Wanda (Elizabeth Olsen) deveria ter sido de Grey, mas as questões envolvendo direitos autorais e o período de aquisição da FOX não permitiam a presença dos X-Men no Universo Cinematográfico Marvel.

O Que Fica Depois Do Filme
O que podemos torcer é que a liberdade criativa e a maturação artística da Marvel ganhem um pouco mais de espaço dentro da esmagadora máquina de dinheiro da Disney e de seus acionistas.
“Homem-Aranha: Um Novo Dia” consegue fazer algo que parecia cada vez mais difícil: me fazer voltar a enxergar interesse em um filme da Marvel. Cretton encontra um Peter Parker mais solitário, angustiado e humano, e é justamente quando o filme se permite ser isso que ele encontra sua melhor forma.
O problema é que a própria Marvel ainda parece incapaz de confiar completamente nessa identidade. Quando o filme tenta olhar para Peter, funciona. Quando tenta olhar para o próprio universo, recicla. Quando deixa Cretton dirigir, respira. Quando a fórmula assume o controle, perde força.
Talvez esse seja o maior vilão de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”: não um personagem dentro da história, mas a dificuldade de uma máquina gigantesca de simplesmente deixar seus filmes serem filmes.
E, para alguém que começou essa crítica confessando estar cansado de filmes de herói, talvez não exista elogio maior do que admitir que, desta vez, a Marvel finalmente me fez sorrir.
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